Por dentro do grupo de estudo da Bíblia para góticos, punks e metaleiros

Experimentei durante algumas semanas como é o clube que discute a religião de forma discretamente revolucionária.

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14 Janeiro 2019, 9:19am

Billie Sylvian (esquerda) com o autor. Foto: Ashton Hertz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

“Jesus, tu és a pessoa alternativa definitiva. És um alienígena criativo que nos fez à sua imagem”, diz a inglesa Billie Sylvian, fundadora da irmandade Asylum. E acrescenta: “Obrigada por te partilhares connosco”. Eu estava sentado numa mesa de uma sacristia do século XVIII no centro de Londres, Inglaterra, rodeado por góticos, punks e metaleiros. Discutimos vida, morte e fé, e comemos snacks e biscoitos. Metal industrial cristão – da banda Circle of Dust – soava ao fundo num volume baixo, enquanto eu passava os olhos pela minha cópia da New Age Bible.

A Asylum é uma organização cristã oficial e registada de caridade, especialmente formada para a comunidade alternativa de Londres. No seu cartaz promocional, colado na Denmark Street no Soho, lê-se: “Irmandade Asylum. Partilhando o Amor de Cristo com Góticos, Metaleiros, Punks, etc”. O grupo realiza um estudo da Bíblia dominical, um evento nocturno mensal (“The Crypt”) especializado em rock, metal e industrial cristão e “festas mensais de louvor”, onde os membros são convidados a partilhar itens ou músicas que os ajudam na sua adoração.

Billie Sylvian
Billie Sylvian. Foto: Ashton Hertz

“Comecei a Asylum porque, para mim, parecia-me algo que Deus realmente queria que acontecesse”, explica Billie depois da reunião da Organização, enquanto tomava uma chávena de chá num café cheio de gente. E salienta: “Senti que Jesus me estava a pedir para chegar a estas pessoas”.

A Asylum começou como um pequeno grupo de góticos crentes que entregavam panfletos à entrada de concertos e clubes alternativos de Londres e cresceu a partir disso. “Os panfletos tinham mensagens como 'Jesus Também Morreu Pelos Punks & Metaleiros' e 'Jesus Ama os Góticos'”, explica Billie. “A resposta das pessoas era ou de interesse e com muitas a quererem saber um pouco mais sobre o que fazíamos. Ou, então, de completa hostilidade, com algum pessoal a rasgar os panfletos à nossa frente. Mas, a maioria das pessoas mostrava-se interessada”.


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No seu site, a Asylum diz: “Sabemos que muita gente que faz parte de subculturas foi prejudicada por acções insensíveis e hipócritas de alguns cristãos. Estamos a fazer todo o possível para desfazer alguns desses danos (mesmo cometendo erros, porque somos humanos!) e esperamos, com a tua ajuda, conseguir”. Quando pergunto a Billie o que querem dizer com isto, ela responde: “Deus não está interessado em roupas, está interessado no coração das pessoas”.

No final dos anos 1990, Billie e alguns amigos reuniram um grupo de pessoas com a mesma mentalidade e a Asylum começou a realizar encontros semanais na The Intrepid Fox, um bar de rock agora fechado, no Soho.

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O cartaz promocional da Irmandade Asylum. Foto pelo autor.

Alguns membros da irmandade pertenciam a grupos religiosos diferentes antes de encontrarem a Asylum. Craig, um maquinista originalmente da África do Sul, abriu-se comigo sobre o seu passado como satânico. “Foi um período muito sombrio da minha vida que já tentei bloquear”, explica, enquanto esperamos os nossos pedidos num restaurante mexicano. E acrescenta: “Foi uma parte muito horrível e assustadora da minha existência, mas agora a minha vida é o oposto”.

Craig continua a explicar que fez um pacto de sangue – assinando um contrato com o próprio sangue – quando era adolescente. “A coisa foi ficando cada vez pior, até um ponto em que já não conseguia dormir, porque tinha muito medo.” O socorro chegou na forma de uma cassete de death metal cristão que um amigo o enganou para ouvir. “Queria matá-lo – 'Como te atreves a enganar-me desta maneira?' –, mas alguma coisa aconteceu... Tinha de tomar uma decisão”.

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A mesa na sacristia. Foto pelo autor.

Depois de conhecer vários membros da Asylum, tornou-se claro que muitos têm crenças diferentes uns dos outros. Alguns são religiosos, outros não, o que – como vi pessoalmente – ajuda a gerar discussões muito ricas.

“Num período muito mau da minha vida, um amigo, Adam – que conheci através do RPG apresentou-me a Asylum”, revela Paul numa biblioteca em Borehamwood, Inglaterra. Paul já esteve no exército, trabalha para o sistema de saúde público e frequenta os encontros da Asylum há anos. Agora, identifica-se como “gótico agnóstico”. Perguntei-lhe o que mantém o seu interesse no grupo vivo, já que não está ali para louvar Deus. “As ideias e a sua abertura", responde.

Conversámos durante duas horas e Paul abriu-se sobre as lutas com a depressão, solidão e a discriminação que enfrenta na zona onde mora. Enquanto me acompanhava até à estação de comboios, fiquei chocado ao testemunhar pessoas locais a insultarem-no na rua devido à forma como estava vestido – e não eram roupas góticas particularmente estranhas. Paul ficou em silêncio e continuou a andar. Perguntei-lhe como se sentia. Depois de uma pausa, ele respondeu: “Triste e desconfortável”.

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Paul. Foto: Ashton Hertz

Outros, como Paul, participam no estudo bíblico semanal apesar de não se identificarem como cristãos. “Vejo isto mais como uma coisa social”, salienta Julian, um membro regular do Asylum. E acrescenta: “Vejo-me como uma pessoa que tem valores muito cristãos sem ser um cristão”. Quando criança foi acólito, mas agora – quase a chegar aos 60 – identifica-se mais como pagão.

Jon Horne é outro membro original da Asylum. Depois de chegar a Londres em 1992 para estudar teologia, nos tempos livres publicava um fanzine sobre death metal, grindcore e industrial cristão. Quando conheceu Billie, juntaram forças. “De uma forma ou outra, já estávamos queimados pela igreja mainstream”, explica Jon enquanto bebemos uma cerveja numa tarde de sábado. “É basicamente farisaísmo, onde as coisas são distorcidas ao ponto do moralismo”, continua, à medida que explica que não frequenta a igreja fora as reuniões da Asylum, já que o estilo de música que se ouve aí não é muito o seu estilo.

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Esquerda: Jon Horne na 'Kerrang', em 1994. Direita: Jon agora. Foto: Ashton Hertz.

Tal como os outros membros, Jon foi extremamente directo, explicando que ele e a esposa perderam os três filhos em 2015. O primeiro, Daniel, contraiu meningite B aos 15 meses de idade e faleceu em menos de 12 horas depois dos primeiros sintomas. Mais tarde, no mesmo ano, depois de a companheira voltar a engravidar, aos cinco meses surgiram complicações e os gémeos que esperavam nasceram mortos. Perguntei-lhe de que forma é que essas tragédias se encaixavam na fé e na sua visão do Mundo.

“Obviamente, depois disso tínhamos muita coisa a dizer a Deus... Mas, a fé cristã tem um lugar para isso. Um lugar para lamentar e lutar com Deus. Não é só uma questão de piedade e fazer a coisa certa; isto permite uma... uma coisa mais terrena”, explica, olhando pela janela. E sublinha: “Afinal de contas, todas essas bandas chocantes de metal perdem o efeito, porque não são nada comparadas com o horror real”.

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Archangel De La Vallette. Foto: Ashton Hertz

Archangel De La Vallette – um dentista que faz dentes para a “comunidade vampira” de Londres, além do seu trabalho normal – frequenta a irmandade desde o começo dos anos 2000 e personificou a natureza receptiva da Asylum quando me convidou para visitar o seu apartamento numa noite de Inverno, para comer pizza e beber champanhe.

“Fiquei muito feliz em afastar-me do Papa, porque sinto que ele está a sequestrar o cristianismo”, conta sobre a sua juventude enquanto católico. E realça: “Não conhecia nenhum cristão na cena alternativa, até encontrar a Asylum. Quando lá cheguei, tínhamos muitos pontos de vista em comum e partilhávamos nossa fé, o que foi muito bom”.

Uma das músicas tocadas nas “festas de louvor” mensais da Asylum.

Para veteranos como Jon e Billie, a Asylum reafirma a sua fé e ajuda-os na sua adoração, já que podem explorar a espiritualidade com pessoas com a mesma mentalidade. Para outros, como Paul e Julian, a irmandade parece proporcionar um espaço seguro e amigável. Um lugar onde podem discutir a vida num nível mais profundo, sem medo de julgamento ou ridículo. Com tanta incerteza e caos no mundo ateu, faz sentido que as pessoas se sintam atraídas por grupos destes, em busca de respostas que não podem ser encontradas noutro lugar. Sei isto, porque a mesma compulsão foi o que me levou a bater à porta da Asylum.

“A Asylum está aberta a toda a comunidade alternativa e diz 'Se acreditas em Deus, Alá ou se és uma bruxa, ou mesmo se não acreditas em nada, não importa'”, explica Paul. E conclui: “Estamos aqui para discutir e ouvir e é isso que torna a Asylum única".

Durante o meu tempo com a irmandade, senti que fazia era parte de algo discretamente revolucionário. Um grupo que representa conexão e abertura, que parece místico e ainda muito humano. Talvez me sinta assim, porque experimentei a religião de dentro em vez de observar curiosamente de longe. O grupo Asylum reenquadra a religião e a espiritualidade, tornando as coisas mais acessíveis e inclusivas que qualquer igreja que já vi anteriormente.


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