Nick Cave explica porque é que a IA nunca será capaz de escrever uma grande canção

O prolífico músico e autor australiano disserta sobre as razões pelas quais escrever uma peça musical transcendental continuará a ser algo essencialmente humano

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30 Janeiro 2019, 7:00am

Imagem: Shutterstock.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Nick Cave é, como sabemos, um prolífico músico, compositor, autor e escritor, entre outras coisas. Cave responde regularmente a perguntas de fãs no The Red Hand Files. Recentemente, Peter, da Eslovénia perguntou-lhe se a Inteligência Artificial (IA) seria alguma vez capaz de escrever uma boa música. Cave deixou-nos partilhar a sua resposta, na íntegra, aqui abaixo.

Querido Peter,

No brilhante livro de Yuval Noah Harari, 21 Lições para o Século XXI, o autor escreve que a Inteligência Artificial, com o seu potencial ilimitado e conectividade, vai fazer com que muitos humanos se tornem redundantes nos seus empregos. Isto parece completamente possível. Contudo, ele diz também que a IA será capaz de escrever melhores músicas que os humanos.

Diz ele que, e desculpa o meu resumo simplista, ouvimos músicas para sentirmos certas coisas e que, no futuro, a IA vai ser capaz de mapear individualmente a mente e criar músicas feitas à medida do nosso algoritmo mental particular, que nos farão sentir, com maior precisão e intensidade, o que quer que seja que queremos sentir. Se estivermos tristes e nos quisermos animar, basta pormos a tocar a nossa música personalizada de IA e o trabalho está feito.


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Mas, não tenho a certeza de que seja apenas isto que as músicas fazem. Claro que escolhemos músicas que nos façam sentir alguma coisa - contentes, tristes, saudosos, sexy, excitados ou o que seja -, mas não é só isto que uma música faz. O que o uma grande música nos faz sentir é admiração. Há uma razão para isso. Uma sensação de admiração baseia-se quase exclusivamente nas nossas limitações como seres humanos. Está directamente correlacionada com a nossa audácia, como humanos, de tentarmos ir mais além do nosso potencial.

É perfeitamente concebível que IA possa produzir uma música tão boa como "Smells Like Teen Spirit", dos Nirvana, por exemplo, e que cumpra todos os requisitos para nos fazer sentir o que uma música como essa nos deve fazer sentir - neste caso, contentes e rebeldes, digamos. Também é concebível que IA possa produzir uma música que nos faça sentir estas mesmas coisas, mas mais intensamente do que um autor humano consegue.

Mas, acho que quando ouvimos "Smells Like Teen Spirit," ouvimos mais do que a música em si. Para mim, o que estou de facto a ouvir, é a jornada de um jovem alienado pela pequena cidade americana de Aberdeen - um jovem que era um pacote ambulante de insuficiência e limitação humana - um jovem que tinha a ousadia de uivar a sua dor particular para um microfone e, ao fazê-lo, por obra e graça dos céus, conseguia chegar aos corações de uma geração inteira. Também estamos a ouvir Iggy Pop a andar pelas mãos do público e a esfregar-se em manteiga de amendoim enquanto canta "1970". Estamos a ouvir Beethoven a compor a Nona Sinfonia quando já está quase surdo. Estamos a ouvir Prince, aquele pequeno aglomerado de átomos roxos, a cantar debaixo de chuva torrencial no Super Bowl e a encantar toda a gente. Estamos a ouvir Nina Simone a concentrar toda a sua raiva e desilusão nas mais bonitas canções de amor. Estamos a ouvir Paganini a continuar a tocar o seu Stradivarius apesar das cordas partidas. Estamos a ouvir Jimi Hendrix a ajoelhar-se e a pegar fogo ao seu próprio instrumento.

O que estamos, de facto, a ouvir, é a limitação humana e a audácia de a transcender. Inteligência Artificial, pelo seu potencial ilimitado, simplesmente não tem esta capacidade. Como poderia? E esta é a essência da transcendência. Se temos potencial ilimitado, o que há para transcender? E, portanto, a imaginação deixa de fazer sentido. A música tem a capacidade de tocar a esfera celestial com a ponta dos dedos e a admiração e encanto que sentimos é pela esperada temeridade do alcance, não do resultado. Onde está o esplendor transcendente no potencial ilimitado? Por isso, para te responder à pergunta, Peter, a IA será capaz de escrever uma boa música, mas não uma grande música. Falta-lhe o sentimento.

Com amor, Nick


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