Cultura

O Facebook e o Instagram vão banir nacionalismo e separatismo brancos

Depois de reação de defensores dos direitos civis, o Facebook agora trata nacionalismo e separatismo brancos como supremacia branca e vai direccionar quem tentar publicar esse conteúdo para ONGs que ajudam pessoas a deixar grupos de ódio.

Por Joseph Cox, e Jason Koebler; Traduzido por Madalena Maltez
28 Março 2019, 1:59pm

Imagem: ZACH GIBSON/AFP/Getty Images 

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Naquela que promete ser uma grande mudança política para a maior rede social do Mundo, na terça-feira, 26 de Março, o Facebook baniu o nacionalismo branco e o separatismo branco da sua plataforma. A medida estende-se também ao Instagram e ambas as redes vão também começar a direccionar os utilizadores que tentarem publicar conteúdo associado a essas ideologias para organizações que ajudam pessoas a deixar grupos de ódio, segundo apurou a Motherboard.

A nova medida, que será implementada oficialmente na próxima semana, destaca a natureza maleável das políticas do Facebook, que governam o discurso de mais de dois mil milhões de utilizadores em todo o Mundo. E o Facebook ainda precisa de efectivamente fazer cumprir essas políticas se quer realmente diminuir o discurso de ódio nas suas plataformas.


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No ano passado, uma investigação da Motherboard descobriu que, apesar de o Facebook banir “supremacia branca” da sua plataforma, ainda permitia “nacionalismo branco” e “separatismo branco”. Depois de críticas de grupos de direitos civis e historiadores, que diziam que não há diferença entre estas ideologias, o Facebook decidiu banir as três, segundo avançam dois funcionários de política de conteúdo do Facebook.

“Conversámos com mais de 20 membros da sociedade civil, académicos - em alguns casos envolvidos com organizações de direitos civis - e especialistas em relações de raça de todo o Mundo”, revela Brian Fishman, director de políticas de contra-terrorismo do Facebook, em conversa telefónica. E acrescenta: “Decidimos que a sobreposição entre nacionalismo branco, separatismo branco e supremacia branca é tão grande que não podemos fazer uma distinção significativa entre elas. E isto porque a linguagem e a retórica usadas e a ideologia que representam se sobrepõem num grau onde não há distinção”.

Agora, as redes vão banir conteúdo que inclui louvor explícito, apoio e representação de nacionalismo e separatismo brancos. Frases como “Sou nacionalista branco com orgulho” e “A imigração está a destruir o país; separatismo branco é a única resposta” serão agora proibidas, garante a empresa. Nacionalismo e separatismo brancos implícitos e codificados não serão banidos imediatamente, em parte porque a empresa diz que isso é mais difícil de detectar e remover.

A decisão foi formalmente tomada no Fórum de Padrões de Conteúdo do Facebook na terça-feira, uma reunião onde políticas de moderação de conteúdo foram discutidas e adoptadas. Fishman afirma à Motherboard que a COO do Facebook, Sheryl Sandberg, esteve envolvida na formulação da nova política, bem como cerca de 30 funcionários do Facebook.

Fishman diz ainda que os utilizadores que procurarem ou tentarem publicar conteúdo de nacionalismo, separatismo e supremacia brancos receberão um pop up que os vai redireccionar, por exemplo, para o site da Life After Hate, uma organização sem fins lucrativos, fundada por ex-supremacistas brancos, dedicada a ajudar pessoas a deixar grupos de ódio. “Se as pessoas estão a explorar esse movimento, queremos ligá-las a pessoas que podem fornecer apoio offline”, justifica Fishman. E realça: “Este é o tipo de trabalho que achamos que é parte de um programa abrangente para abordar este movimento”.

Nos bastidores, o Facebook vai continuar a usar algumas das mesmas táticas que utiliza para encontrar e remover conteúdo associado ao ISIS, Al-Qaeda e grupos terroristas para remover conteúdo de nacionalismo, separatismo e supremacia brancos. Isso inclui correspondência de conteúdo, que usa algoritmos para detectar e apagar imagens que foram identificadas anteriormente como contendo ódio e vai incluir machine learning e Inteligência Artificial, explica Fishman, que, no entanto, não avança mais detalhes sobre como essas técnicas vão funcionar.

A nova política é uma mudança significativa na abordagem antiga da empresa para separatismo e nacionalismo brancos. Num documento interno de formação de moderação, obtido e publicado pela Motherboard no ano passado, o Facebook argumentava que nacionalismo branco “não parece estar sempre associado com racismo (pelo menos não explicitamente)”. O artigo originou críticas de organizações de direito civil, história negra e especialistas em extremismo, que insistiram que “nacionalismo branco” e “separatismo branco” muitas vezes são, simplesmente, fachadas para supremacia branca. “Acho que é um passo e um resultado directo da pressão colocada sobre o Facebook”, defende Rashad Robinson, presidente de campanha do grupo Color of Change, em declarações prestadas à Motherboard por telefone.

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Cartazes na sede do Facebook em Menlo Park, Califórnia. Imagem: Jason Koebler

Especialistas dizem que os movimentos de nacionalismo e separatismo brancos são diferentes de outros movimentos separatistas, como o movimento separatista basco em França e Espanha e os movimentos separatistas negros do Mundo, tendo em conta a longa história da utilização da supremacia branca para subjugar e desumanizar pessoas não-brancas nos EUA e no Mundo. “Quem diferencia nacionalistas brancos de supremacistas brancos não tem qualquer entendimento sobre história da supremacia branca e nacionalismo branco, que estão historicamente interligados”, avisava Ibram X. Kendi, que venceu o National Book Award de 2016 por Stamped from the Beginning: The Definitive History of Racist Ideas in America, à Motherboard no ano passado.

Também em 2018, Heidi Beirich, chefe do Projecto de Inteligência do Southern Poverty Law Center (SPLC), disse à Motherboard que “nacionalismo branco é algo que pessoas como David Duke [ex-líder da Ku Klux Klan] e outros pensaram que soaria menos mau”.

Mesmo que os especialistas em direitos civis com quem a Motherboard falou concordem que nacionalismo e separatismo brancos não se podem distinguir da supremacia branca, essa decisão provavelmente causará polémica, tanto nos EUA, onde a extrema-direita acusa o Facebook de ter um preconceito contra conservadores e no Mundo, especialmente em países onde políticos abertamente nacionalistas brancos encontraram nos últimos anos muitos seguidores.


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O Facebook, por sua vez, diz que nem todos os grupos com que falou acreditavam que deveria haver uma mudança nas suas políticas. “Quando há uma variedade tão grande de pessoas envolvidas, tens uma variedade de ideias e crenças”, diz Ulrick Casseus, especialista em grupos de ódio da equipa de políticas do Facebook. E sublinha: “Algumas pessoas não concordam que nacionalismo e separatismo brancos são inerentemente sobre ódio”.

Ainda assim, o Facebook assegura que a maioria dos especialistas consultados acreditam que nacionalismo e separatismo brancos estão intimamente ligados ao ódio organizado e todos os especialistas com quem falaram acreditam que nacionalismo branco expresso online tem consequências no mundo real. Depois de falar com esses especialistas, o Facebook decidiu que nacionalismo e separatismo brancos são “inerentemente sobre ódio”.

“Vimos que isso se estava a tornar uma questão e que eles tentam normalizar o que fazem e dizem com 'Não sou racista, sou nacionalista', numa tentativa de fazerem essa distinção. Chegam até a dizer 'Não sou supremacista branco, sou nacionalista branco'. Mesmo dizendo isto, essas pessoas também têm discurso e comportamentos de ódio”, garante Casseus. E realça: “Estão a tentar normalizar isso e, com base no que vimos e com quem falámos, determinámos que essas ideologias estão ligadas ao ódio organizado”.


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A mudança surge menos de dois anos depois de o Facebook ter esclarecido internamente as suas políticas sobre supremacia branca, na sequência dos protestos de Charlottesville em Agosto de 2017, onde um supremacista branco matou a contra-manifestante Heather Heyer. Isso incluía fazer uma distinção entre supremacia e nacionalismo que especialistas em extremismo viam como problemática.

O Facebook também fez discretamente outras mudanças internas na mesma época. Uma fonte, com conhecimento directo das deliberações do Facebook, afirmou depois da reportagem da Motherboard que a empresa tinha alterado os seus documentos internos para declarar que, no geral, a supremacia racial não era permitida. A Motherboard garantiu o anonimato a esta fonte de forma a poder falar abertamente sobre as discussões internas do Facebook.

“Foi tudo reescrito para que, em vez de dizer que nacionalismo branco era permitido enquanto supremacia branca não era, agora qualquer supremacia racial passasse a não ser permitida”, garantiu a fonte no ano passado. Na altura, nacionalismo branco e nacionalismo negro não violavam as políticas do Facebook, acrescentou. Um porta-voz do Facebook confirma que essas mudanças foram efectuadas em 2018.

A nova política não vai banir nacionalismo e separatismo brancos implícitos, que Casseus diz serem mais difíceis de detectar. Também não vão mudar as políticas já existentes da empresa para movimentos separatistas e nacionalistas no geral; conteúdo relacionado com movimentos de separatismo negro e o movimentos separatista basco, por exemplo, ainda serão permitidos.

Qualquer política de rede social só é tão boa quanto a sua implementação e aplicação. Um relatório recente da ONG Counter Extremism Project descobriu que o Facebook não removeu páginas pertencentes a conhecidos grupos neo-nazis depois do atentado de Christchurch, na Nova Zelândia, este mês. O Facebook quer garantir que a aplicação das suas políticas é consistente em todo o Mundo e de moderador para moderador, uma razão para a política não banir expressões implícitas e codificadas de nacionalismo e separatismo brancos.

David Brody, advogado do Lawyers' Committee for Civil Rights Under Law, que fez lobby no Facebook pela mudança de política, diz à Motherboard por telefone que, “se há um certo tipo de conteúdo problemático que realmente não é passível de fiscalização em escala, eles preferem escrever as suas políticas de uma forma que possam fingir que isso não existe”.

Keegan Hankes, analista investigador do Projecto de Inteligência do SPLC, acrescenta: “Uma coisa que continua a surpreender-me sobre o Facebook é a falta de vontade de reconhecer que, mesmo que o conteúdo não seja explicitamente racista ou violento, a empresa tem de pensar sobre como o seu público está a receber essa mensagem”.

A proibição do Facebook em relação a nacionalismo e separatismo brancos demorou a acontecer e especialistas com quem a Motherboard falou acreditam que a empresa foi muito lenta a agir. A Motherboard publicou documentos em que mostrava a distinção problemática do Facebook entre supremacia e nacionalismo em Maio do ano passado; o Lawyers' Committee escreveu uma carta crítica ao Facebook em Setembro. Neste entretanto, a antiga política do Facebook continuou a valer.

“É certamente uma mudança positiva, mas tens que pensar no contexto: eles deveriam ter feito isto logo no início”, salienta Brody à Motherboard. E questiona: “Quanto crédito mereces por fazeres o que deverias ter feito logo à partida?”. “É ridículo”, acrescenta Hankes. E conclui: “O facto de ter demorado tanto tempo depois de Charlottesville, por exemplo, e depois desta última tragédia, para chegar a uma posição em que, claro, nacionalismo e separatismo brancos são eufemismos para supremacia branca não é normal”.

Hankes revela ainda que vários grupos estavam a fazer lobby com o Facebook sobre esta questão e frustrados com a resposta lenta. “Parece que a única vez em que consegues uma resposta séria dessas pessoas é quando acontece uma tragédia”, sublinha. A Motherboard levou essa crítica a Fishman: se o Facebook percebe agora que a visão académica comum é que não há distinção entre supremacia branca e nacionalismo branco, porque é que essa não era a visão anteriormente? “Eu diria que entendemos que desta vez acertámos”, respondeu.


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