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Os Presidenciáveis Não Sabem Nada de Energia Nuclear

Conversamos com um especialista sobre as propostas (ou falta de proposta) de alguns candidatos e descobrimos que eles são bem ruins quanto a questão nuclear
Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (Usina nuclear de Angra dos Reis). Crédito: Rodrigo Soldon/Flickr

Assisti ao novo filme do Godzilla durante um longo voo e valeu a pena apostar na mistura de filme desastre e avião porque, apesar do roteiro ruim, a história mantém seus princípios. Em vez de se atualizar para entrar no zeitgeist como fruto de mutações genéticas ou inteligência artificial, o Godzillla ainda é rebento da energia radioativa. O dinossauro japa vive para comprovar que a questão nuclear importa à humanidade. E nossos candidatos à presidência não sabem nada sobre isso.

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Basta observar as propostas de governos dos presidenciáveis. Nenhuma delas apresenta diretrizes aprofundadas sobre o tema em páginas e páginas prolixas e rocambolescas. Ainda que o Brasil não dependa dela para mover seus motores, a questão atômica não pode ser relegada. Quem me falou isso foi o o físico e ex-ministro de Minas e Energias José Goldemberg, com quem conversei sobre esse tema.

"Não é possível ignorar o uso de energia nuclear porque o país tem duas usinas em funcionamento em Angra dos Reis que contribuem com cerca de 3 a 4% do consumo nacional de eletricidade", me disse ele. Isso é um obstáculo à proposta do candidato Eduardo Jorge (PV), que sentencia a desativação das usinas brasileiras no caso de sua eleição, ou à posição "se hay governo soy contra" da candidata Luciana Genro (PSOL), que afirmou, por meio da assessoria, ser contrária à energia nuclear.

Outro golpe na agenda de Jorge estaria na interrupção do programa de cooperação Brasil-Alemanha, responsável pela construção de Angra I e II, em substituição por uma parceria para uso de energia solar a partir de novembro. Segundo Goldemberg, uma usina como Angra dos Reis produz um milhão de quilowatts de energia, capacidade alcançável por uma quantidade imensa de painéis solares cujos custos elevados tornam a ideia proibitiva.

A pá de cal nas ideias dos dois candidatos é Angra 3. Após anos de projeto, finalmente ela deve sair do papel até 2018 com um orçamento previsto em ­R$ 13,9 bilhões, segundo a Eletronuclear. Perguntei ao nosso físico se vale a pena abandonar esse plano a esse altura do campeonato. "Provavelmente não, porque a maioria dos investimentos já foi feita e seria melhor concluir o projeto. A decisão importante é não iniciar novos reatores nucleares."

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O grande problema para Eduardo e Luciana, segundo a análise do professor, está no curto prazo do que defendem. Por outro lado, eles estão alinhados a um movimento comum para o fim do uso da energia nuclear. Países como França e Japão já afirmaram que pretendem abandonar seus projetos nucleares. "A longo prazo, a participação nuclear na matriz energética mundial está diminuindo e tende a desaparecer", disse ele.

A decisão importante é não iniciar novos reatores nucleares

Goldemberg opõe-se que se faça uma nova trilogia Angra ou outro esquema faraônico-atômico a partir do zero por causa da capacidade hídrica do país. "A energia hidroelétrica tem ainda um grande papel a desempenhar no Brasil desde que os problemas ambientais decorrentes sejam equacionados", disse o professor.

Esse também é o discurso de todos os candidatos: quase sempre em tom de esquiva, a ideia é exaltar usinas como Itaipu para ofuscar a questão nuclear. A candidata Dilma Rousseff, por exemplo, relega o tema ao se apoiar na capacidade hidrelétrica do país. "[A energia nuclear] é insignificante diante da importância das demais fontes", afirmou ela durante o debate televisivo do dia 16 de outubro.

Aécio Neves também vai nessa onda. "O objetivo é construir uma matriz que permita o crescimento econômico com a menor emissão possível", afirmou ele por meio de sua assessoria de imprensa. A candidata Marina Silva é mais uma nesse papo das energias renováveis, mas foi notório seu refugo nesse caso. Há algumas semanas, a candidata limou de seu programa de governo as linhas que alegavam a necessidade de investimento no programa nuclear brasileiro.

A salvação de todos os candidatos é que especialistas como Goldemberg concordam com o uso das energias renováveis — o óbvio ululante. "Para energias renováveis como a eólica, a biomassa e outras energias solares, há grandes oportunidades no Brasil devido a grande insolação e área disponíveis", finalizou o professor que, ao contrário de Marina, Aécio, Dilma, Luciana e Eduardo, sabe bem da situação das usinas e reatores do país. Se bobear, os candidatos não sabem nem quem é o Godzilla.