A vacina universal para o câncer pode estar mais perto do que você imagina
Um novo truque para enganar nosso sistema imunológico traz boas esperanças para atacar células cancerígenas. Crédito: Damian Ryszawy/Shutterstock

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A vacina universal para o câncer pode estar mais perto do que você imagina

Um novo truque para enganar nosso sistema imunológico traz boas esperanças para atacar células cancerígenas.

Dizem os cientistas que as chances de você ter câncer em algum momento da vida são de 50%. Além de não fumar e tentar viver de maneira saudável, não há muito o que fazer para alterar as probabilidades. Mesmo entre os fumantes, entre os que tomam banho de sol em excesso e entre os que odeiam verduras e legumes, o câncer ocorre de modo bastante aleatório.

Há tantos tipos de cânceres e tantas variáveis para aumentar o risco de uma pessoa desenvolver tumores que a ideia de uma vacina universal para tratá-lo parece bastante absurda. Entretanto, contra todas as probabilidades, uma vacina universal poderá se mostrar viável, sim. Em artigo publicadosemana passada na Nature, pesquisadores da Universidade Johannes Gutenberg, na Alemanha, descreveram o desenvolvimento de uma vacina em potencial com base nas respostas naturais do sistema imunológico às infecções virais.

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Com base em modelos de tumores em camundongos e três pacientes humanos com melanomas avançados, a vacina – que consiste basicamente de dardos em nanoescala carregados de RNA – foi capaz de induzir respostas imunológicas específicas contra tumores.

As respostas imunológicas que costumam passar ilesas pelas células cancerígenas – ou, em alguns casos, até apoiam essas células – são forçadas a acreditar que há um vírus no caminho.

"Por que é tão difícil vacinar contra o câncer de forma eficaz?", escreveram os imunologistas Dutch Jolanda de Vries e Carl Figdor em um comentário ao artigo da Nature. "Um dos motivos é que as células cancerígenas são similares, em muitas formas, às células normais, e o sistema imunológico evita atacar a si mesmo."

E continuaram: "Só respostas relativamente modestas ocorrem com as vacinas que contêm antígenos que também são expressos em tecido saudável. Respostas imunológicas poderosas podem ser esperadas apenas quando as células cancerígenas expressam os antígenos que não estão comumente expressos nas células adultas normais."

É isso que os dardos de RNA conseguem por meio da introdução de material que imita o de um vírus. As respostas imunológicas que costumam passar ilesas pelas células cancerígenas – ou, em alguns casos, até apoiam essas células – são logradas a acreditar que há um vírus no caminho.

Recrutar o próprio sistema imunológico de um paciente para lutar contra o câncer não é uma ideia nova. Ela sempre se mostrou difícil por uma série de motivos, porém. Mirar e ativar células imunológicas de maneira correta não é simples, e as tentativas anteriores exigiram técnicas bastante complexas envolvendo antígenos ajustados, anticorpos e, em muitos casos, células dendríticas especificamente projetadas (que funcionaram como mensageiros do sistema imunológico).

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O método descrito aqui contorna muito dessa bagunça ao utilizar carga elétrica como mecanismo de direcionamento. Em vez de introduzir uma célula de cultura ou nanopartícula complexa, trata-se de RNA escondido em uma membrana de ácido gordurosa similar a uma membrana celular. (O pacote combinado é conhecido como RNA-PLX.) Ao aperfeiçoar as proporções relativas do RNA e dos ácidos graxos, os pesquisadores produziram partículas com carga levemente negativa. Isso ajuda a direcionar as partículas para as células dendríticas localizadas no baço e em outros tecidos linfoides (medula celular, linfonodos).

As células dendríticas então pegam o RNA e produzem antígenos específicos do câncer como resposta. Esses antígenos, por sua vez, provocam uma resposta dos linfócitos T direcionada aos tumores progressivos do corpo – tumores esses que podem, caso contrário, ser ignorados ou tratados como normais pelo sistema imunológico.

"O estímulo de respostas imunológicas poderosas contra autoantígenos observados sustenta esse modo de ação identificado pré-clínico e a potência dessa abordagem no cenário clínico", conclui o estudo. "As vacinas de RNA-LPX são rápidas, de produção inexpressiva, e, virtualmente qualquer antígeno de tumor pode ser decodificado por meio do RNA. Assim, a abordagem de imunoterapia por nanopartículas de RNA introduzidas aqui podem ser vistas como uma nova classe de vacinas universalmente aplicáveis para a imunoterapia do câncer."

Como é possível supor, levando em consideração a pequena população de sujeitos (de ratos e dos três pacientes humanos), trata-se somente de estágios preliminares e mais estudos serão necessários. O que interessa, porém, é que o grande problema do câncer parece um pouco mais possível de resolver do que parecia na semana retrasada.

Tradução: Amanda Guizzo Zampieri