"Queria filmar tudo fielmente, mas hackear é tedioso", diz diretor de 'Snowden'
Preocupado em mesclar veracidade com trama ágil, Oliver Stone retrata o ex-funcionário da CIA como um herói sem ambiguidades. Crédito: Divulgação

"Queria filmar tudo fielmente, mas hackear é tedioso", diz diretor de 'Snowden'

Preocupado em mesclar veracidade com trama ágil, Oliver Stone retrata o ex-funcionário da CIA como um herói sem ambiguidades.
9.11.16

Oliver Stone se recusa a contar em quem votou. "Vai virar manchete e rodar o mundo", disse o diretor americano, que esteve no Brasil às vésperas das eleições nos EUA para divulgar seu novo filme sobre Edward Snowden. O longa, que estreia no Brasil nesta quinta-feira, dia 10, é uma biografia ficcional do ex-funcionário da CIA e da Dell que em 2013 revelou ao mundo que os EUA usaram suas leis anti-terrorismo para criar um sistema de espionagem global.

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Apesar de ser apresentado no Brasil com o título isentão de Snowden - Herói ou Traidor – que Stone disse "odiar" –, o filme traz o protagonista numa perspectiva bastante positiva. A narrativa começa em 2013, num hotel em Hong Kong, onde Snowden, vivido por Joseph Gordon-Levitt, revela os segredos do sistema internacional de espionagem de Washington à documentarista Laura Poitras e aos jornalistas Glenn Greenwald e Ewan McAskill. Logo começa um flashback do desenvolvedor deixando o exército – ele havia quebrado as duas pernas no treinamento como Ranger –, entrando na CIA e se tornando especialista em segurança digital na agência de inteligência. Snowden é mostrado como garoto prodígio. É capaz de criar redes internacionais seguras em meia-hora, além de ser um libertário fã de Ayn Rand e Joseph Campbell.

Levitt parece ter feito um grande esforço para interpretar Snowden. Ele absorve um tom de voz mais grave e constrito, contribuindo à longa galeria de nerds introvertidos da história do cinema. O trunfo de Stone para lidar com um personagem em tese tão sem carisma é contar com a presença de Lindsay Mills (Shailene Woodley), a namorada de Snowden, que serve de inspiração idealista e leva a história adiante por meio do vai-não-vai do relacionamento. "Eu encontrei ela só umas duas vezes, mas o Snowden, que encontrei umas nove vezes, falava muito dela. Ela é uma garota incrível, vivaz", explica Stone. "Pelo que percebi, ela não estava tão interessada pelo Snowden quanto ele estava. Ela ainda estava pensando nas outras possibilidades e eu quis passar isso no filme. Mas, no final, ela vai morar com ele em Moscou, e acredito que isso seja um grande gesto dela, mostra quais são as suas intenções."

Mão no bolso, sorriso para baixo: o clássico timidão de Hollywood. Crédito: Divulgação

Outra preocupação de Stone foi evitar que o longa-metragem ficasse chato por trazer a veracidade dos fatos. "Eu queria retratar tudo com fidelidade, mas hacking é um trabalho muito tedioso. Porém, não tínhamos como recorrer à violência, como na série Bourne ou em Inimigo do Estado, que é um dos meus favoritos, afinal, eles são ficção, e nesse estávamos contando uma história real", afirma. Ele diz que, apesar de "não entender nada" dos códigos e sistemas revelados ao longo do filme, houve a intenção de retratá-los da maneira mais fiel possível. "Fizemos muita pesquisa, especialmente o co-roteirista (Kieran Fitzgerald), tivemos muitos consultores. Eles fizeram um grande trabalho em apresentar o material acuradamente, das interfaces aos servidores."

Por mais que o tom seja realista, o diretor é rápido ao afirmar que esta é uma obra de ficção. "Aqui não sou um documentarista, sou um 'dramatista', apresentando um tema complexo de uma maneira que as pessoas possam entender", diz. "E para isso precisamos simplificar algumas situações, juntar personagens, essas coisas." A tal simplificação fica evidente no momento crucial em que Snowden consegue vazar as informações secretas de uma base da NSA no Havaí – apesar da tensão no cinema, o trabalho, de acordo com os relatos de Snowden na imprensa na época, foi muito mais lento e complexo.

Fazer um filme sobre Snowden fez Stone começar a usar algumas medidas mais incisivas de segurança digital, mas ele mesmo admite que é muito difícil manter uma comunicação sempre criptografada no mundo real. "É complicado, você pode usar criptografia, mas a outra parte com quem você se comunica também precisa ter o mesmo programa, então você limita a comunicação em geral. E às vezes você quer sair desse espaço, conhecer pessoas, usar o Tinder para descolar um encontro, e aí não tem como viver num mundo encriptado." Durante as gravações, porém, Stone diz que a segurança digital foi crucial. "Nenhuma empresa americana queria encostar no nome Snowden, então filmamos e editamos na Alemanha. Lá chamamos um grupo de hackers, muito profissionais, para garantir a segurança. Imagina se fossemos hackeados? Seria um desastre".

Muito cioso da sua imagem pública e bastante desconfiado da imprensa, Stone se torna um pouco mais evasivo quando o assunto são as suas opiniões políticas. Durante a mini-coletiva, estava com papéis com os tópicos que cada jornalista tinha antecipadamente sugerido perguntar e parecia tentar entender se alguém tentaria colocá-lo numa saia justa. Quando falava de política americana e do hacking aos e-mails de Hillary Clinton, soltou um "ah, é agora que vocês vão me retratar como um comunista", seguido de risos. Para ele, é impossível que o Kremlin tenha dado guarida aos hackers que acabaram ajudando a campanha de Donald Trump. "Falei com o presidente Putin, e ele disse que nunca se intrometeria nas eleições de outro país", diz. "Todas as potências se espionam, mas acho difícil quererem se intrometerem nos processos internos."

Stone, que havia votado antecipadamente (o que é permitido em alguns estados dos EUA) antes de vir ao Brasil, fez troça do discurso apocalíptico anti-Trump. "É obvio que a Hillary vai ganhar, ela tem todo o establishment com ela. Ela vai continuar com essa política belicista americana. Vocês se preocupam com o Trump, mas vocês assistem muito à TV Globo. Os Estados Unidos precisam de um Partido da Paz para fazer frente aos democratas. Seria maravilhoso a possibilidade de poder votar em alguém como o Lula", afirmou, lembrando do ex-presidente brasileiro retratado ao lado de outras lideranças da esquerda latino-americana em seu documentário South of the Border.

Nas horas seguintes, porém, o surpreendente resultado das eleições americanas mostraria que sua tese não era tão certeira assim.