Saúde

Porque é que o movimento anti-vacinação ainda é uma cena?

A morte em Portugal de uma jovem de 17 anos, na sequência de um surto de sarampo em 2017, parece ficção, mas é real e o problema está a ocorrer em várias pontos do Planeta. Na Austrália, por exemplo, os casos mortais estão a crescer.

Por Sam Nichols
19 Abril 2017, 12:01pm

Imagem via Pixnio

E eis que, em 2017, 23 anos depois de praticamente erradicado em Portugal e de a sua eliminação ter sido reconhecida pela Organização Mundial de Saúde no Verão de 2016, uma jovem de 17 anos morre num hospital português vítima de complicações decorrentes do sarampo.

A notícia foi avançada na manhã de 19 de Abril e, de acordo com o jornal Público, "a rapariga tinha sido contagiada com sarampo no Hospital de Cascais, por uma bebé de 13 meses que não estava vacinada e foi transferida para o Hospital de D. Estefânia na segunda-feira, 17, devido ao agravamento do seu estado de saúde". De acordo com o jornal Expresso, a própria jovem também "não terá tomado qualquer vacina desde os dois meses, por opção familiar", embora, de acordo com declarações da directora clínica do Hospital de Cascais ao Público, a decisão da não vacinação deveu-se a uma "reação alérgica grave" a outra vacina e não apenas a uma opção unilateral da família.

Só desde Janeiro, foram identificados pela OMS mais de 500 casos de sarampo na Europa. A situação, garantem os especialistas, está directamente relacionada com o movimento de pais que, por todo o Mundo, se recusam a vacinar os filhos.


Abaixo podes ler um artigo originalmente publicado na VICE Austrália, que aborda a questão da não vacinação naquele país, as suas causas e consequências.

Mariah and Mark Johnson* vivem com os três filhos numa pequena e isolada localidade de South Gippsland, Austrália. Ali vivem no máximo cerca de duas mil pessoas. Em Agosto de 2015, o filho de seis meses do casal ficou doente com o que pensavam ser uma gripe. No entanto, uma semana depois dos primeiros sintomas, as coisas começaram rapidamente a descambar. O menino tossia descontroladamente e, de um momento para o outro, descreveram os pais, começou a ficar azul.

No hospital local, Mariah e Mark ficaram a saber que o filho não tinha gripe, mas sim tosse convulsa, uma doença que pode ser mortal em crianças com menos de seis meses. "O que acontece é que o bebé tosse tanto e de forma tão intensa que pode, repentinamente, asfixiar. Não há uma 'progressão', é uma morte imediata e incontrolável", explica à VICE a médica Georgia Thomas*. E acrescenta: "É extremamente importante proteger as crianças desta doença".

Mesmo numa localidade pequena, é difícil perceber exactamente como é que o filho de Mark e Mariah apanhou tosse convulsa. O que se sabe é que uma criança que frequentou a mesma escola do filho mais velho do casal também a apanhou. Este rapaz pertence a uma família que tomou a decisão de não vacinar os seus filhos. Toda a família Johnson, pelo contrário, tinha tomado a recomendada vacina contra a tosse convulsa, excepto o filho mais novo.


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E este é o calcanhar de Aquiles dos programas de vacinação: o controlo de epidemias depende de uma grande percentagem da população ser vacinada, a chamada "imunidade de grupo", ou "efeito rebanho". Particularmente em localidades de pequena dimensão, crianças não vacinadas podem ter um efeito dramático no resto da população.

E a tosse convulsa pode ser especialmente "manhosa", porque mesmo pessoas que foram vacinadas podem continuar a ser portadoras da infecção, não apresentar quaisquer sintomas e, ainda assim, infectar outros. [Em Portugal, em Novembro de 2016 tinham sido notificados à Direção-Geral da Saúde (DGS) 526 casos de tosse convulsa, quase o dobro de 2015].

Quando o filho mais novo dos Johnson começou a piorar a olhos vistos, foi rapidamente levado para o hospital local. No entanto, nas condições em que se encontrava, uma unidade hospitalar de um meio rural não o conseguiria ajudar. Foi necessário transportá-lo de helicóptero para o Melbourne's Royal Children's Hospital, numa tentativa urgente de lhe salvar a vida. Depois de cinco dias nos Cuidados Intensivos, com ventilação assistida e antibióticos, o rapaz sobreviveu e regressou ao Hospital de South Gippsland, onde continuou a ser monitorizado.

Mas, nem toda a gente tem tanta sorte. Na Austrália, por cada 200 crianças com menos de seis meses que são infectadas com tosse convulsa, uma acaba por morrer. No Sul do país, só este ano, foram já registados 260 casos de tosse convulsa, em contraste com os 182 registados no mesmo período de 2016.

O que torna estas estatísticas ainda mais trágicas é o facto de estas mortes poderem ser completamente evitadas. A vacina contra a doença é extremamente eficaz. Faz parte do Programa Nacional de Vacinação australiano [tal como do português], o que significa que é gratuita e pode ser administrada por qualquer médico. Portanto, porque é que estas mortes ainda ocorrem?

Imagem via Pixnio

O médico de clínica geral Steve Smith e a enfermeira Jane Smith trabalham na área da imunologia há mais de 35 anos, tanto no sector privado, como no Royal Melbourne Children's Hospital e garantem que as epidemias registadas na Austrália - incluindo as epidemias de sarampo e varicela, verificadas na área de Melbourne em 2016 - estão a ocorrer devido aos pais que não acreditam que as vacinas sejam seguras.

"Sabemos que as vacinas salvam milhões de vidas e, apesar de não existirem quaisquer estudos ou provas credíveis de que as vacinas não sejam seguras, há pessoas que ainda têm receio", diz Steve à VICE. E acrescenta: "Estes medos não têm apoio factual, mas, a partir do momento em que acreditam numa coisa, estas pessoas encontram respostas em todo o lado. Compreendemos o medo, mas não deixa de ser algo puramente emocional, ilógico e não é uma coisa pela qual valha a pena colocar toda uma comunidade em risco".

"Nem todas as vacinas são 100 por cento eficazes e há um risco inerente a todas as drogas que se tomam, mas as pessoas esquecem-se do quão terríveis estas doenças podem ser. Lembro-me de ver um rapaz de 10 anos que contraiu sarampo e foi de tal forma horrível e grave que, apesar de ter sobrevivido, ficou com mazelas para o resto da vida. Uma febre ligeira é, obviamente, uma alternativa bastante melhor àquilo que as doenças podem causar", salienta Jane.

Esta é a parte assustadora. Não há qualquer evidência científica que sugira que as vacinas façam mais mal que bem. No entanto, cerca de 53 por cento dos australianos continuam preocupados com o quão seguras as vacinas são na realidade. O movimento anti-vacinação conseguiu até apoiantes no âmbito da implementação de políticas federais. Numa entrevista ao programa Insiders, da ABC, Pauline Hanson, líder e fundadora do One Nation Party e membro do parlamento australiano, chegou mesmo a encorajar os pais a fazerem as suas próprias pesquisas antes de vacinarem os filhos. Nos Estados Unidos, no início deste ano, houve notícias que garantiram que Donald Trump teria pedido ao céptico da vacinação, Robert F. Kennedy Jr., para liderar uma comissão de investigação sobre segurança das vacinas.

As políticas à volta das vacinas são uma coisa, mas o porquê de um pai poder ser convencido a não vacinar um filho é uma questão muito mais complicada. Investigadores do Centre for Empirical Research in Economics and Behavioural Sciences, da Universidade de Erfurt, na Alemanha, apontam que a culpa é da Internet. Um estudo que conduziram, descobriu que a exposição a um site anti-vacinação, por apenas entre cinco a 10 minutos, não só aumentava os receios sobre os riscos da vacinação, como diminuía as preocupações sobre facto de não se vacinar as crianças.

"É bastante comum que os defensores [da anti-vacinação] escolham ao pormenor as "provas" que vão de encontro às suas crenças e lhes forneçam uma explicação, sem que a qualidade das mesmas seja tida em conta"

"Os defensores da causa anti-vacinação recorrem a uma linguagem extremamente emotiva e imagens que são convincentes para o leitor ocasional", explica John Cunningham, um defensor da vacinação de longa data e porta-voz da organização pro-vacinação Stop the Australian Vaccine Network. E acrescenta: "Mas, quando vemos o que defendem, todas as supostas provas que apresentam são facilmente desmontáveis e claramente falsas... Toda a gente se preocupa com os seus filhos, mas a diferença é que os defensores da vacinação têm as evidências do seu lado".

A emotividade pode explicar o porquê de alguns pais serem anti-vacinação. Mas, ainda assim, é complicado entender porque é que alguém consegue permanecer do lado do contra, face a todas as provas para as quais John aponta. Um estudo da Mayo Clinic documenta uma certa dissonância cognitiva do movimento anti-vacinação e descobriu que é bastante comum que os seus defensores escolham ao pormenor as "provas" que vão de encontro às suas crenças e lhes forneçam uma explicação, sem que a qualidade das mesmas seja tida em conta. Um caso clássico de confirmação parcial.

Curioso sobre a forma como os pais que são contra as vacinas racionalizam a sua decisão, contactei Jasmin Corningstone, uma mãe de Sydney que se recusa a vacinar o seu bebé de quatro meses. "As vacinas são um risco enorme. Pode correr bem, mas é uma hipótese em mil milhões", defende. E acrescenta: "Não vou, de forma alguma, arriscar a saúde da minha criança".

Quando era mais novo, o irmão de Jasmin desenvolveu autismo e ela responsabiliza directamente a vacinação por isso. "O autismo do meu irmão, decorreu da vacina contra a Hepatite B e o mesmo aconteceu ao filho de uma amiga minha. Fiz as minhas pesquisas, vi bastantes documentários e testemunhei efeitos secundários suficientes por mim própria para saber que as vacinas são 100 por cento perigosas. Não me interessa o que os outros possam dizer", sublinha Jasmin.

É a este medo, o medo de prejudicar a criança, que se resume o argumento anti-vacinação. O potencial mal que podem causar aos filhos de outras pessoas - como aconteceu ao filho de seis meses dos Johnson - parece não fazer parte da equação mental destas pessoas. Aparentemente, jovens pais, como Jasmin, que escolheu não vacinar, colocam um peso muito maior no risco que eles acreditam que as vacinas representam para os seus filhos.

No entanto, o facto de pensarem que estão a proteger os seus filhos, não atenua a questão de que, com essa opção, estão a colocar toda a gente em risco, incluíndo também os seus próprios filhos. Ao conversar com Jasmin, tornou-se claro que, por mais provas científicas apresentadas, ou políticas governamentais implementadas, o problema não é de fácil resolução. Mas, tal como a história dos Johnson demonstra [bem como a da jovem portuguesa, falecida na sequência de complicações resultantes da infecção por sarampo], uma criança não vacinada pode impactar toda uma comunidade.

E, se uma criança infectar duas ou três, as evidências sugerem que o impacto pode ser exponencial. Se não conseguirmos encontrar uma forma de reduzir o medo das vacinas, que parece grassar entre tantos jovens pais, as doenças do seus filhos não serão as últimas.

*Os nomes foram alterados para proteger as identidades


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