Poucos dias antes do Lollapalooza 2017, Raffa Moreira recebeu uma ligação um tanto inesperada: um jornalista do G1 conseguiu descolar o seu telefone e o ligou para saber a opinião dele sobre o Haikaiss, uma das atrações do festival, que aconteceu nos últimos sábado (25) e domingo (26). "Eu xinguei o repórter por uns cinco minutos", disse o rapper guarulhense em entrevista ao Noisey. "Fiquei repetindo: 'Meu número é pra uso pessoal ou pra marcar show, cara. Não é pra ficar dando posicionamento'. Achei que era alguém querendo me sacanear, gravar o áudio e espalhar nos grupos do Whatsapp por aí". Mas não se tratava de nenhuma "sacanagem", não: no outro dia, Raffa acordou com um inbox de um amigo, que mandava, junto com várias mensagens de risada, o link de uma matéria do portal.O motivo pelo qual o repórter do G1 procurou o rapper foi porque, desde que o Poetas no Topo anunciou que o Pedro Qualy, do Haikaiss, participaria da terceira edição do cypher, o Raffa Moreira começou a postar intensamente nas redes sociais críticas sobre o grupo de trap paulistano e sobre o projeto da Pineapple Store. "Se eu soubesse que eles iam chamar alguém do Haikaiss, eu nunca teria aceitado participar do Poetas 2", Raffa escreveu [e repetiu várias vezes durante a entrevista] no seu Twitter. Esse e mais outros posts do rapper sobre o caso acabaram repercutindo tanto entre os fãs de hip-hop na internet que a discussão sobre racismo levantada por Raffa acabou chegando no site de notícias da TV Globo."Foi engraçado ver o G1 chamando eles no título de 'quartetos de rappers brancos', mas é isso que eles são, né? Não é como se eu tivesse mentindo", disse Raffa. "Mas achei estranho a galera ter ficado surpresa com o que eu falei sobre o Haikaiss. A minha treta com o Damassaclan [coletivo de rap do qual o Haikaiss faz parte] já é de milianos". Quando ele diz que é de "milianos", Raffa está se referindo à letra da sua faixa "F E R N V N D X (Intro)", de 2015, no qual ele canta: "Não entendo DamassaClan/E eu quero a sua irmã!/"Eu odeio o Don Cesão!"/Cash, show lotado/Isso não te faz real". "Pra mim, desde o começo, sempre foi muito claro que os caras [DMC] têm uma pauta burguesa nas letras. E isso é diferente do rap que eu conheci", explicou o rapper. "É um monte de playboy branco, sabe? Não que eu seja um cara velho que ache que a música não tenha que se reciclar. Não é isso. É só que o rap foi criado por negros. É um bagulho de negros. Na América, continua negro. Aí, no Brasil — um país roubado pra caramba, onde a corrupção reina, onde o pobre e o negro já são fudido —, eles [Haikaiss], que já têm uma condição melhor e são brancos, tão dominando tudo [no rap] hoje".Confira o trampo de Raffa Moreira completo no Noisey.
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