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Minel Abaz: Eles começaram como qualquer protesto de trabalhadores feito depois da guerra bósnia nos anos 1990, então, ninguém esperava que isso fosse se tornar algo tão grande e com o apoio de cidadãos organizados.E aí houve o momento mais crucial de todos, quando o governo (principalmente em Tuzla) mandou as unidades especiais da polícia atacarem brutalmente os trabalhadores e cidadãos, o que desencadeou os protestos em Sarajevo, Mostar, Zenica e Bihać, resultando em violência e no incêndio de instituições do governo.Agora, vemos protestos levando a mais solidariedade e superando fatores étnicos nas classes mais baixas e, espero, para exigir mais justiça econômica e social.Como está o clima em Sarajevo?
Mais calmo. Faz alguns dias desde que os confrontos violentos aconteceram, mas as pessoas ainda estão nas ruas todos os dias, pedindo uma vida melhor e uma sociedade igualitária. Algumas cidades, como Tuzla, já começaram um tipo de governo do povo, fora dos partidos políticos parlamentares, compostos de trabalhadores, estudante e acadêmicos. Eles têm plenárias diretamente democráticas todo dia.
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Tenho um amigo [que foi empurrado para dentro do canal]. Eu estava com ele algumas horas atrás. Ele quebrou a perna mas está bem.E, sim, vi os prédios queimando, eu estava lá. Foi na sexta-feira passada. Os protestos começaram na residência presidencial por volta da uma da tarde. Quarenta e cinco minutos depois, os combates com a polícia começaram e eles conseguiram nos afastar dos prédios do governo. Depois de um tempo de espera, as pessoas começaram a se reunir novamente e simplesmente correram para a polícia. As brigas com a polícia duraram até as 2h40, quando os manifestantes conseguiram entrar no prédio. Lá pelas 2h50 o prédio foi incendiado.Você disse antes que está envolvido com antifascismo. Há algum elemento de direita ou fascista nos protestos?
Não vi nenhum fascista, mas alguns patriotas e nacionalistas estavam lá. Ninguém reagiu contra eles, eles estavam protestando como qualquer um. Eles não gritaram mensagens nacionalistas ou algo similar, só contra o governo e a polícia.
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Revolução? Não sei. Começou assim porque todo descontentamento explodiu em um dia. Mas não acho que isso será uma revolução, porque trabalhadores e cidadãos ainda estão desorganizados, não estão orientados por nenhuma ideologia.Esse levante na BH tem alguma relação com o que está acontecendo com a Ucrânia? Ou com o que aconteceu na Turquia, Grécia ou Eslovênia no ano passado? Ou mesmo com o que aconteceu no Oriente Médio durante a Primavera Árabe? Como você acha que isso se encaixa num contexto global?
Eu não diria que tem algo a ver com os protestos na Ucrânia, por causa dessa fratura entre União Europeia e Rússia. Mas isso está relacionado com os protestos na Turquia e Grécia, principalmente, e até mesmo com protestos na Eslovênia e Egito. Eu diria que os protestos na Bósnia são mais similares aos da Turquia porque uma grande faixa da população – a classe baixa, trabalhadores, estudantes, pensionistas e veteranos de guerra – são contra as injustiças do paradigma de governo. Apesar de não haver exigências ainda, vemos uma profunda estratificação e antagonismos sociais.Como Žižek disse, e como aconteceu na Turquia – mesmo se os protestos perderem a intensidade de forma gradual – ainda haverá uma fagulha de esperança, porque as pessoas perderam toda a confiança no sistema e nas instituições do sistema, e porque esses protestos podem ser uma boa oportunidade para superar divisões etnonacionais impostas, fortalecer a consciência de classe e a percepção da necessidade de auto-organização dos trabalhadores.Alguns comentaristas, incluindo Lily Lynch e Slavoj Žižek, notaram um caráter antinacionalista e pró-trabalhadores nos protestos, derrubando as divisões étnicas encorajadas pelos líderes e pela União Europeia. Essas são afirmações válidas?
Sim, claro. Essa é a principal causa do protesto, um ideal pró-trabalhador, o que pode ser reconhecido em outras cidades. Como o professor Asim Mujkić apontou, o levante começou em antigas cidades industriais – primeiro em Tuzla – porque essas áreas sentem as consequências da privatização.Além desse caráter pró-trabalhadores dos protestos, os trabalhadores e cidadãos também estão unidos contra a brutalidade policial e, portanto, contra as elites que, sob o disfarce do nacionalismo, estão roubando e privatizando tudo nos último 20 anos.Demorou 20 anos, mas agora os trabalhadores e outras categorias sociais estão acordando, furiosos, e se levantando contra a elite nacionalista e capitalista, e todo o sistema.