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Sexo

Como Superei meu Estupro

O rape play me ajudou a superar um trauma e transformá-lo em algo positivo.
20.1.15
Ilustração por Juliana Lucato.

* Nome fictício. A autora, que é brasileira, preferiu não ter sua identidade revelada. Como acreditamos ser um relato muito bom de um assunto importantíssimo, e delicado, concordamos ser a melhor solução editorial.

Eu sofri abusos quase que diários durante todo o meu segundo grau na escola. Era uma turma de 15 garotos que quase todo dia me perseguia pelos corredores e ginásios e até dentro do banheiro pra me empurrar no cantinho e ficarem passando a mão em mim, em tudo, tipo… em tudo. Ninguém fazia nada, e eu era a vadia porque "deixava" (mesmo eu sendo só uma adolescente contra 15 garotos). O agravante era que, por um deles, eu era perdidamente apaixonada. A gente chegou a ficar no primeiro ano, antes dos abusos ficarem mais intensos, quando o pessoal só "brincava" (já rolavam umas mãos abusadas eventualmente da parte de todos, mas era só "brincadeirinha", a coisa ficou mais grave depois). Mas eu tinha fama de vadia na escola, mesmo que eu não ficasse com quase ninguém de lá e que nem desse abertura ou desse em cima de ninguém, então ele só queria ficar comigo escondido, sem ninguém ver. Aquilo me magoava demais, mas mesmo assim eu não tomava nenhuma atitude pra barrar todo aquele abuso por parte dele e dos amigos de uma vez por todas, porque, no fundo, eu gostava do fato de que ele ao menos tinha tesão em mim. Achava que era melhor ser abusada por ele do que desprezada. Estamos falando aqui de quando eu tinha 15 anos de idade. Obviamente hoje eu teria outra postura, mas, na época, não tive maturidade e entendimento para tal. Também não conhecia o feminismo, não era nada empoderada, e estou falando de uma era pré internet, não tinha acesso tão fácil a informações quanto hoje em dia.

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Enfim, no segundo ano do segundo grau (com 16 anos), em uma festa, esse garoto por quem eu era apaixonada me estuprou. Não vou entrar em detalhes, mas foi estupro, e eu não demonstrei resistência física, apesar de não ter colaborado com nada também. Senti um misto de humilhação com satisfação de estar com ele, do tipo "se é a única forma dele ficar comigo, que seja, mas não vou dar o braço a torcer". Como se não bastasse a situação lixo por si só, no dia seguinte a história que percorreu a escola toda foi a que eu dei pra ele na tal festa e aí sim que professor algum e mais pessoa alguma se preocupava se eu estava sendo abusada no corredor por 15 meninos ou não. Afinal, eu era uma vadia que tava pedindo, tanto que deu pra um deles. Tudo isso fodeu muito com a minha cabeça, por um bom tempo. Por vários anos depois que me formei no segundo grau e perdi o contato por completo com qualquer pessoa daquela escola eu só me relacionava com meninas (pra minha sorte, eu me descobri bissexual anos antes de tudo isso). Eu desenvolvi um tremendo asco de homens em geral, nojo de pênis, nojo de músculos, nojo de tudo o que representasse o masculino.

Bom, aos poucos acabei ficando com um cara ou outro por aí e me descobri extremamente travada. Quase uma boneca inflável que não se mexe e fica ali só esperando a coisa acontecer. Eu não queria ser assim e sabia que tinha que lidar com o trauma e tentar superar ele de alguma forma. Mas não tinha contado pra ninguém sobre o que me aconteceu na escola, nem pros meus pais, e não teria coragem de fazer terapia ou algo do tipo. Era mesmo algo guardado a sete chaves dentro de mim. E foi aí que o rape play entrou na minha vida.

Isso foi no começo dos anos 2000, eu nem conhecia esse termo, nunca fui envolvida na cena BDSM (apesar de curtir muito a estética e frequentar algumas festas, não me considero parte da "cena"), enfim, a coisa surgiu muito naturalmente. Uma vez estava com um cara com quem estava disposta a sair, ele era dez anos mais velho e bastante experiente, era mais alto e bem mais forte, e pirava em uns lances de dominação. Me lembro da primeira vez em que ele me segurou forte e praticamente me imobilizou enquanto a gente trepava e eu gozei absurdos, foi insano. Depois de refletir bastante eu entendi que desenvolvi um fetiche com coisas que podem estar relacionadas a estupro, e esse tipo de dominação física, de segurar forte, imobilizar de leve, segurar pelos cabelos, apertar o pescoço (até uma asfixia de leve), tudo isso me excitava demais, e isso me dava medo. Afinal, que tipo de pessoa doente sente tesão com estupro? E isso foi na mesma época do lançamento do filme Irreversível, que tem uma cena muito longa e realista de estupro. Quando eu assisti a esse filme pela primeira vez eu senti um tesão absurdo nessa cena. Mas absurdo mesmo do tipo "mas gente, é possível ficar molhada nesse nível?". Fiquei uns bons dias chocada comigo mesma tentando processar aquilo, e aí pensei que, se praticasse um "estupro consensual", talvez conseguisse lidar melhor com aqueles sentimentos todos. E foi o que aconteceu.

Sempre curti sexo casual, sexo na balada, então fui unindo as coisas. Comecei a ficar com uns caras aleatórios na noite, e em um banheirão ou outro eu pedia pro cara me segurar, me apertar, me impedir de me mexer enquanto me comia. E mesmo quando me casei com um homem, alguns anos depois, mesmo já estando mais "solta" e resolvida, às vezes a gente brincava com isso, encenava alguma coisa. E foi fazendo isso que fui aprendendo a lidar com tudo o que passei, fui parando de me culpar pelos abusos que sofri, fui aprendendo a me impôr no sexo, a ser mais ativa, a participar e, principalmente, a gostar de sexo. Hoje em dia eu gosto muito. Com homem, com mulher, com pessoas de gêneros diversos, não importa. Faz uns bons anos que não pratico rape play intencionalmente, tenho deixado as coisas rolarem, dou uma dica ou outra de que eu gosto de um puxãozinho de cabelo, que gosto de uma leve asfixia, e como pra bom entendedor meia palavra basta, quando a pessoa pega a dica a coisa acaba fluindo e é sempre muito bom. Mas se vai por outro caminho, eu gosto também.

O rape play me ajudou a superar um trauma e transformá-lo em algo positivo.