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Conheça o YPG, a Milícia Curda que Não Quer Ajuda de Ninguém

Como os iraquianos, iranianos e turcos podem testemunhar, a guerrilha parece ser uma qualidade inata dos curdos.

Em outubro, os rebeldes do Exército Livre Da Síria avançaram pra dentro dos bairros curdos e cristãos em Alepo, na Síria, numa tentativa ousada de capturar a cidade. Informações iniciais baseadas nas afirmações do ELS e no amigo de alguém que conversou com uma pessoa em Alepo por telefone diziam que os rebeldes tinham tomado 90% da cidade e estavam cooperando com as milícias curdas, mas, menos de um dia depois, essas afirmações se mostraram falsas. Parece que a Unidade de Defesa Popular (YPG), uma milícia formada pra proteger as áreas curdas das forças de oposição, repeliu o ELS. Logo depois, o exército sírio bombardeou a vizinhança, e afirma-se que 25 civis curdos foram mortos na ação.

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No dia seguinte, o ELS mais uma vez tentou entrar no bairro curdo conhecido como Ashrafiya. Este vídeo pretende mostrar o ataque aos participantes de um protesto civil contra a presença do ELS e do regime no bairro, um reduto curdo.

O YPG novamente contra-atacou, repelindo o ELS pela segunda vez. De acordo com uma fonte do YPG, foram 19 mortes do lado do ELS, 10 civis curdos e uma morte do lado do YPG. Reféns foram feitos dos dois lados, mas os dois partidos afirmam ter libertado essas pessoas depois. Um relatório do Observatório Sírio de Direitos Humanos colocou o total de mortos na casa dos 30 e diz que 200 pessoas foram capturadas. Um líder do ELS fez uma declaração chamando a intrusão em Ashrafiya de “um engano”. O YPG também disse que está movimentando forças especiais pra fortificar o bairro.

Relatórios conflitantes surgiram a respeito de quem foi o responsável pelo ataque ao protesto. Alguns culparam facções do ELS, enquanto outros apontaram o Jubhat Al-Nusra, um grupo jihadista ligado à Al Qaeda. Mas o YPG não vê diferença. Embora tenham falado em cooperar com o ELS e manter boas relações, eles se recusam firmemente a deixar que outros grupos armados entrem na vizinhança curda. Muitos curdos com quem falei recentemente enquanto cobria o conflito nas áreas curdas no nordeste da Síria expressaram um apoio hesitante ao ELS, comemorando quando eles lutam contra o regime, mas desconfiados das ligações do grupo com a Turquia, que vem travando sua própria guerra de quase 30 anos contra a insurreição curda.

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O YPG tem sido ligado ao Partido da União Democrática (PYD), o mais poderoso partido curdo da Síria. A Turquia e alguns membros do ELS acusam o PYD de ser uma fronte do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), o grupo rebelde que atualmente está em guerra com o governo turco. O PYD diz que mesmo compartilhando a ideologia do PKK baseada nas palavras de Abdullah Ocalan, líder do partido, eles são uma força independente e não recebem ordens de ninguém. Ocalan, agora preso na Turquia, passou 20 anos na Síria e tem um culto à personalidade a seu redor. Cartazes e bandeiras com sua imagem estão por toda parte na Síria curda, também conhecida como Rojava. Crianças usam colares com pingentes com o rosto dele e algumas mulheres que conheci têm a imagem dele como pano de fundo em seus celulares.

Os curdos, na maior parte, têm tentado impedir que a violência catastrófica de uma guerra civil entre em suas regiões. Em cidades curdas a nordeste, protestos contra o regime estão em andamento, e as forças de Assad recuaram com conflito mínimo alguns meses atrás, deixando os curdos com alguma sensação de independência. Alguns acusam os curdos de fazer um acordo com o regime, mas parece que os dois grupos estão simplesmente agindo de maneira mais prática. Assad não quer abrir uma nova fronte e os curdos querem simplesmente proteger suas cidades e seu povo. Embora alguns meios de comunicação tenham afirmado que havia uma trégua oficial entre os curdos e o regime, não há nenhuma evidência que comprove isso.

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Os curdos formam cerca de 10% da população síria, totalizando dois milhões de pessoas, mas vêm sendo tratados como cidadãos de segunda classe por gerações. Ativistas dos direitos curdos são frequentemente presos, torturados e assassinados. Em 2004, os curdos da cidade de Qamishli se revoltaram contra o regime de Assad, mas a rebelião foi rapidamente esmagada e mais de 30 curdos foram mortos.

Não se sabe muita coisa sobre o YPG, já que eles se recusam a falar com a mídia ocidental e se relacionam com a mídia curda apenas moderadamente. Através de conexões que fiz durante uma viagem recente às áreas curdas da Síria, e com ajuda de um emissário do PJAK, um grupo rebelde curdo do Irã, pude me corresponder com um membro do comando central do YPG por Skype de seu apartamento em Qamishli. Fiz uma entrevista com ele uma semana antes dos conflitos em Ashrafiya, e desde então ele vem me mantendo a par dos desenvolvimentos em curso. Apesar de estar ligeiramente cético no começo, tudo o que ele me disse até agora se confirmou, mesmo quando contradizia as narrativas imediatas da maioria dos outros meios de comunicação.

O homem, que se identificou como Shiyar Hassan, tem 35 anos e é membro do YPG desde sua formação. Ele disse que o YPG se formou em 2004, logo depois dos conflitos em Qamishli, quando vários jovens curdos perceberam que precisavam se defender mais efetivamente. Eles não se declararam oficialmente até a revolução começar em 2011, e só se fizeram conhecer pela mídia em 2012, quando revelaram seus acampamentos e brigadas. “Por anos os curdos têm vivido sob opressão do regime Baath”, ele me disse. “Chegamos num ponto onde precisávamos viver com honra.”

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No começo de outubro, fui a um comício do YPG em Qamishli, que é atualmente casa das tropas do regime de Assad e do YPG. Até agora uma calma tensa paira sobre a cidade, apesar de alguns conflitos e carros bombas detonados contra as forças de Assad com autoria reivindicada pela Jubhat al-Nusra. Parece provável que Qamishli, a maior cidade de maioria curda, estará no foco nas próximas semanas, mas os protestos naquele dia foram apenas com dança e canto.

Cinquenta homens e mulheres, todos com os rostos cobertos por keffiyehs pra proteger suas identidades, marcharam em formação militar pelas ruas da cidade. Eles eram saudados por alguns milhares de partidários do PYD, todos cantando frases em favor do YPG.

“Apoiamos o YPG porque são nossos irmãos, nossos filhos e queremos nos proteger. Não queremos que ninguém venha aqui pra nos proteger”, disse Laila Muhammad Murad, 35 anos, uma participante do comício, enquanto se juntava ao coro de mulheres mais velhas num grito por mais direitos aos curdos.

Mas nem todos os curdos da Síria apoiam o PYD e o YPG. Ativistas e partidos de oposição acusam o PYD de sequestro de rivais, assassinato e intimidação geral dos oponentes, usando o YPG como exército de reforço. O conflito recente em Alepo parece ter intensificado a rixa, mas as afirmações de que isso pode levar a uma guerra civil no Curdistão sírio similar àquelas do Curdistão iraquiano no meio dos anos 90, parecem um tanto presunçosas no momento. Quando perguntei a curdos na Síria tanto do PYD quanto dos partidos rivais sobre os conflitos internos, a maioria rebateu as preocupações, dizendo que existem sim alguns problemas, mas que isso seria logo resolvido porque “todos os curdos são irmãos”.

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Mas como única milícia curda em operação na Síria no momento, parece que o YPG é a única linha de defesa do povo curdo. O YPG está mal armado e em menor número em relação ao regime de Assad e ao ELS, mas enquanto o ELS é uma organização guarda-chuva pra uma variedade de grupos onde falta um comando central forte, o YPG é uma força de luta unificada. Além disso, como os iraquianos, iranianos e turcos podem testemunhar, a guerrilha parece ser uma qualidade inata dos curdos.

É difícil ter uma boa estimativa do número de combatentes no YPG. Os números mais baixos contabilizam 1.500 pessoas, mas já ouvi outras pessoas afirmando que são mais de 15 mil combatentes. Mais recrutas se juntam ao grupo todos os dias e recentemente eles anunciaram o estabelecimento de uma quarta brigada. “Temos pessoal suficiente pra proteger todo o oeste do Curdistão. Vivemos entre nosso povo e temos armas suficientes pra nos defender”, disse Hassan.

Enquanto alguns grupos do ELS supostamente recebem fundos e armas do Catar, Turquia e Arábia Saudita, e o regime é aliado da Rússia, os curdos aparentemente não contam com nenhum beneficiário externo. Em certo momento, o Curdistão iraquiano ofereceu mandar ao Curdistão sírio tropas que estavam treinando na fronteira da Síria, mas a proposta foi recusada pelo PYD, que viu isso como uma possível ameaça a seu poder. “Fazemos todo nosso treinamento aqui em Rojava, não queremos treinamento ou apoio de fora de Rojava, e não queremos ver uma segunda força militar em Rojava”, disse Hassan. “Não se pode ter duas forças num mesmo país. Chamamos toda a juventude pra se unir a nós, estamos abertos a todos.”

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Questionei Hassan sobre como os curdos planejam adquirir mais armas, já que vídeos deles transmitidos pelos canais curdos mostram apenas Kalashnikovs e caminhonetes com metralhadoras montadas nas traseiras. “Não temos problemas pra conseguir armas. Estamos no Oriente Médio, o maior mercado de armas que existe”, ele disse. “Quando se trata de dinheiro, temos o apoio das pessoas, porque as protegemos e guardamos, e o povo nos considera como filhos.”

Apesar de ter ficado cético inicialmente quando ele me disse que os curdos estavam prontos pros confrontos, a luta de sexta em Ashrafiya mostrou bem a habilidade deles pra defender a si próprios.

Mas mesmo depois dos embates recentes com o ELS, quando falamos na semana seguinte, Hassan me disse que o grupo tem relações com o ELS num nível local, mas que não os querem em áreas curdas. “Queremos melhorar nossa relação com eles, nós os vemos como uma força revolucionária, mas em lugares onde somos organizados, não vemos necessidade da presença deles. Temos força suficiente pra defender a nós mesmos”, ele disse.

Um mês antes em Erbil, a maior cidade no Curdistão iraquiano, falei com Salih Muslim Muhammad, o líder do PYD, que me disse mais ou menos a mesma coisa. “Localmente temos algumas relações com o Exército Livre da Síria, mas o ELS não é um corpo único. Eles têm muitos corpos e muitas cabeças… Não existem conflitos entre nós e respeitamos um ao outro”, ele disse. “Dizemos: OK, vocês podem lutar e combatemos as forças do governo, mas não gostamos que vocês fiquem nas nossas áreas. Nas áreas deles, eles podem fazer o que quiserem, mas não nas nossas.”

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Em retrospecto, essas palavras parecem estranhamente prescientes. Muhammad também reiterou um ponto importante sobre essas áreas curdas: a desconfiança no ELS devido à influência turca. “Aqueles que são vizinhos das áreas curdas, nós nos entendemos, mas as cabeças que estão em Istambul e Ancara nos veem como inimigos”, diz ele.

Um ponto abordado várias vezes por Hassan foi que o YPG é uma força de defesa. A milícia é entendida como um impedimento ao ELS, os grupos jihadistas e o regime, e eles só atacam se provocados, ele me disse. Numa conversa separada que tivemos depois dos conflitos de sexta, onde o regime também bombardeou a vizinhança, ele disse que o grupo não ia permitir que o ataque do regime passasse sem resposta e que eles responderiam “não só em Alepo, mas em toda parte”.

Pode parecer bravata, considerando a força avassaladora do regime, mas não será a primeira vez que o YPG responde depois que forças de Assad atacam a área curda. Em setembro, o regime bombardeou Sheik Maksud, um bairro curdo em Alepo, matando 21 civis. Alguns dias depois, o YPG matou 3 soldados na cidade curda de Efrin e capturou inúmeros outros, tomando suas armas e os expulsando da cidade.

Ainda émuito cedo pra dizer se os confrontos da semana passada serão um ponto importante de virada no conflito, ou qual exatamente o papel do YPG no futuro.

Hassan estava hesitante ao fazer previsões sobre mudanças no conflito. “Não somos políticos, não falamos do que pode acontecer”, ele disse. “Nosso trabalho é estar preparado pra qualquer resultado. Qualquer coisa que possa acontecer, estaremos preparados.”

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