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Sexo, Mijo e Violência: Minha Vida como Recepcionista de um Albergue da Juventude

Trabalhar no turno da noite num albergue significa que tenho um assento na primeira fila para todo tipo de situação sórdida. É um universo paralelo de drogas, álcool e adolescentes britânicos cheios de tesão com queimaduras de segundo grau.
27 May 2015, 8:30pm

Em uma noite – acho que por volta das 3 da manhã –, um hóspede, chorando, veio correndo até o saguão. Acho que ele estava falando coreano, o que não chega nem perto de nenhuma língua que entendo; assim, foi difícil saber de cara por que ele estava tão nervoso. Mas ficou bem óbvio quando consegui decifrar a palavra "mijo". Há poucas barreiras linguísticas que essa palavra não cruza. Pedi para o segurança cuidar da recepção, respirei fundo e andei até o quarto dele para ver com quanta urina estávamos lidando. Aparentemente, uma mochileira australiana decidiu subir na cama do pobre coreano enquanto dormia e achou que estava no banheiro. Pelo menos, foi o que eu entendi pelo inglês quebrado e pela poça de mijo pingando do colchão.

Trabalhar no turno da noite num albergue da juventude de Barcelona significa que tenho um assento na primeira fila para todo tipo de situação sórdida, coisas que você não testemunha à luz do dia. É um universo paralelo de drogas, álcool e adolescentes britânicos cheios de tesão com queimaduras de segundo grau.

Meu trabalho é receber os hóspedes, entregar a chave do quarto e explicar tudo que eles precisam saber sobre o estabelecimento – bom, exceto que isso se transforma numa Babilônia moderna depois das 3 da manhã. Isso eles descobrem sozinhos.

Foto por Jamie Clifton.

PROMISCUIDADE

Uma das regras fundamentais do albergue é que cada cama é para apenas uma pessoa. Não quero saber quantas doses de tequila você virou, você não pode transar no quarto. Simplesmente por uma questão de respeito com as outras pessoas com quem você compartilha essa pocilga glorificada. Mas acho que regras foram feitas para serem quebradas.

Uma vez, cinco dos oito hóspedes de um quarto desceram à recepção para fazer uma reclamação. Eram 7 da manhã, e dois bêbados já estavam se pegando num beliche. Depois de ter ficado sentado à minha mesa por quase sete horas, eu estava é com inveja do casal; mas, sim, eu tinha de fazer o meu trabalho e fui ao quarto para tentar fazer os dois pararem. Marchei até o quarto e puxei a cortina do beliche deles. Fui recebido por uma bunda branca subindo e descendo a 15 centímetros da minha cara. O casal não parecia nem ligeiramente perturbado pela minha presença; logo, tive de implorar que eles gemessem o mais baixo possível. Naquele ponto, isso já nem importava mais: todos os colegas de quarto deles já tinham ido tomar café da manhã.

Na verdade, o sexo não se restringe aos quartos. Chuveiros, banheiros e até o piso do último andar – qualquer lugar sem câmeras de segurança parece valer o risco. Ainda estou tentando descobrir como todos os hóspedes sabem sobre o maldito último andar.

Também é comum os turistas darem em cima dos funcionários. Por exemplo, em uma noite, nosso segurança (um cubano gentil chamado Miguel) estava fazendo sua ronda quando ouviu um barulho estranho vindo de um dos banheiros. Fazendo seu trabalho, ele foi ver o que estava acontecendo. Quando virou o corredor, ele deu de cara com uma canadense fazendo xixi com a porta aberta. Miguel levou um susto, mas a garota, não – ela simplesmente abriu as pernas e gesticulou para ele se aproximar. Por mais lisonjeiro que fosse o convite, Miguel achou que seria pouco profissional aceitar.

A equipe da recepção, em comparação, tem muito menos moral. Trabalhar atrás do balcão da recepção de um albergue aumenta suas chances de se dar bem. Nunca fiz muito sucesso com as garotas antes, mas, depois que comecei a trabalhar aqui, não é difícil encontrar interessadas. Você só precisa escolher o momento certo de dizer "Boa noite" ou simplesmente fazer contato visual; logo depois, está a caminho do banheiro com uma norte-americana que chegou da balada sozinha. Simples assim.

Lembro que nosso antigo segurança (um senhor muito simpático de uns 50 anos) sussurrou que eu devia levar uma garota que estava interessada em mim ao primeiro andar. Ele me deu um walkie-talkie e disse que me chamaria se tivesse algum problema. O tom paternal na voz dele me convenceu de que isso era uma coisa razoável de se fazer durante o expediente.

O primeiro andar tinha uma área que ficava mais ou menos vazia depois da meia-noite. Fomos até lá e começamos a nos pegar. Quando terminamos, fui pegar um pouco de papel para me limpar, mas não coloquei a roupa. No meio do salão, minha movimentação disparou os sensores de movimento. De repente, eu estava nu em frente à câmera de vigilância da sala. Felizmente, ninguém estava acompanhando a movimentação pelas câmeras naquela hora, mas aprendi uma lição importante naquela noite: o Grande Irmão está sempre de olho em você.

Foto por Robert Foster.

VÁRIOS PERSONAGENS

No entanto, outras coisas acontecem num albergue além de sexo, claro. Às vezes, eles também funcionam como casa temporária para pessoas que não têm muito dinheiro e/ou que sofrem de doenças mentais, como depressão e paranoia.

Um personagem assim era o Anton. Ele era um jovem albanês que se mudou para Barcelona a fim de ganhar a vida. Não sei exatamente o que Anton estava fazendo, mas ele estava sempre entrando e saindo do albergue durante a noite apesar de nunca ter dito realmente no que trabalhava. O que era estranho, porque ele não tinha vergonha de me contar mais nada – como a vez em que ele e o irmão bateram em 40 pessoas de uma vez ou como ele perdeu a virgindade com uma garota no albergue, que obviamente achou aquele o melhor sexo da vida dela. Esse tipo de história... muito divertida, mas obviamente mentira. No final das contas, meu chefe expulsou o Anton por ameaçar um funcionário. Ele deixou o albergue gritando que ia voltar e que era um "atirador" e um "leão". Nunca mais vimos a cara dele.

Outro cara, um camarada chamado Ramon, era um homem grande de 40 anos com idade mental de 10. Depois de 20 anos trabalhando em Londres, ele voltou à Espanha para achar um emprego num clima ligeiramente melhor. Ele tinha algumas economias, mas escolheu ficar no albergue enquanto acertava a vida. Ele achou que seria mais fácil achar um apartamento e um emprego se tivesse uma base de onde trabalhar. Ramon tinha muitas histórias tristes, como a vez em que ele visitou sua mãe na Espanha e descobriu que ela tinha uma nova família e nenhuma vontade de falar com ele. Ou como uma mulher roubou R$ 1.500 dele num esquema para alugar um apartamento. Parecia que todas as histórias dele acabavam mal. Ele finalmente resolveu sair do albergue e de Barcelona para começar uma vida nova em Minorca.

Depois de um tempo, fica difícil distinguir a diferença sutil entre os turistas e os malucos. Os limites se confundem, e um pode acabar virando o outro. Como o cara coreano que veio chorando até o saguão no caso da urina daquela noite – algumas noites depois, ele se viu numa situação parecida e, bêbado, confundiu a mala de alguém com o banheiro. O dono da mala acordou e descobriu todas as suas posses encharcadas de mijo. Era meu dever não só lavar todas as roupas, mas arrastar o coreano de ressaca para o chuveiro.

Mas isso é só a ponta do icebergue. Até hoje, o pior que já vi foi uma sueca – muito louca de sei lá o que – correndo pelada pelos corredores, pintando as paredes com sangue menstrual. Acho que nunca vou conseguir esquecer essa cena. Ela provavelmente nem se lembra disso.

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A VIOLÊNCIA

Mas a pior parte do turno da noite não são as drogas, a bebida, a urina ou o sexo casual. É a violência.

Em uma vez, tentei impedir que dois idiotas bêbados brigassem em frente ao albergue, e um deles me acertou sem querer com toda força no rosto. Nosso segurança arrebentou os caras.

"Eu tinha de fazer isso, é o meu trabalho. Eles não podem machucar seu rosto", ele me disse.

Sendo o trabalho dele ou não, ele pareceu ter se divertido bastante.

Também temos brigas entre hóspedes e pessoas que não trabalham no albergue. A última que testemunhei envolvia três norte-americanas e um taxista. Segundo o taxista, as garotas não queriam pagar a corrida. De acordo com elas, ele tinha roubado o dinheiro delas e as assediado sexualmente. Quando os policiais chegaram, as garotas se voltaram contra eles porque eles não estavam de uniforme. Elas acusaram os policiais de serem impostores, ameaçaram bater neles e depois fingiram ligar para a embaixada.

A situação finalmente se resolveu quando o taxista, exausto, concordou em resolver a questão por R$ 140. As garotas continuaram gritando que isso era um roubo. Ele gritou de volta. Quando finalmente consegui levá-las para dentro do albergue, sentamos para conversar e os ânimos finalmente esfriaram. Quando achei que elas estavam começando a se comportar como seres humanos normais, uma delas se virou para mim e falou:

"Você assistiu a Breaking Bad?"

"Claro", respondi.

"Bom, meu tio é agente do DEA e vou fazê-lo colocar aquele bastardo na cadeia em Cuba", ela afirmou, aparentemente acreditando no que tinha acabado de sair de sua boca.

Só mais um dia de trabalho num albergue europeu, acho.

Tradução: Marina Schnoor