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Obituario

Umberto Eco nos ensinou como pensar sobre conspirações e fascismo

O grande intelectual e escritor italiano morreu, mas suas lições sobre poder, semiótica e erudição continuam mais vivas do que nunca.
23.2.16
Umberto Eco na Itália em 1975. Foto por Walter Mori/Mondadori Portfolio via Getty Images.

Descobri no primeiro ano de faculdade O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, os dois romances mais conhecidos de Umberto Eco, falecido na última sexta-feira aos 84 anos. Um vendedor de livros usados tinha montado sua mesinha de fórmica na frente da biblioteca da faculdade onde eu trabalhava e, enquanto examinava os títulos, peguei sem querer O Nome da Rosa. Entre uma folheada e outra, perguntei se ele tinha alguma coisa estilo Borges. "Esse aí mesmo, amigo", o homem respondeu apontando para minha mão. "Mas sou mais fã desse outro aqui", continuou, entregando-me O Pêndulo de Foucault. Agradeci e voltei para casa com os dois livros.

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O Nome da Rosa é, sem dúvida, uma homenagem a Borges. Publicada em 1980 com aclamação internacional, a obra se trata de um mistério monástico numa biblioteca labiríntica de uma abadia beneditina, a Aedificium, que abrigava a segunda parte perdida da Poética de Aristóteles (a parte sobre comédia). A obra era guardada pelas duas únicas pessoas que sabiam como navegar pelo lugar – o bibliotecário Jorge de Burgos e seu assistente.

Diferentemente do escritor argentino Jorge Luís Borges, Eco não era um bibliotecário gênio, e sim um semiólogo – "o representante mais importante da semiótica desde a morte de Roland Barthes", escreveu o New York Times em 1983. Foi em O Pêndulo de Foucault, seu segundo romance, que o italiano revelou todo seu conhecimento na área. Nesse livro, um trio de editores menores decide criar sua própria conspiração – que eles chamam de "o Plano" –, e o processo se mistura com os planos reais de dominação mundial de uma sociedade secreta.

A internet foi feita para livros assim: o primeiro parágrafo é uma frase em hebreu não-traduzida. Há referências ligando Cavaleiros Templários, Bogomilismo, corrente telúrica e Mickey Mouse. Anthony Burgess afirmava que o livro precisava de um índex. Salman Rushdie chamou de "uma ficção sobre a criação de uma ficção tosca que se transforma com conhecimento de causa nessa ficção tosca". Eco chamou isso de thriller. Eu realmente achei o livro emocionante, nem tanto pela trama, e sim pela oportunidade de procurar referências exotéricas.

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O Pêndulo de Foucault também me mostrou como a erudição pode ser divertida. No centro da trama está um programa de computador que mistura textos aleatórios e cria narrativas improváveis. Ele mistura passagens da Cabala com um manual de carro e, como resultado, um motor se torna uma Árvore da Vida dos dias modernos. Imagino se a ideia surgiu de uma de suas longas noites bebendo com seus alunos, um hábito de Eco. Quantos conceitos literários incríveis devem ter nascido nessas noites?

Não muito depois que terminei O Pêndulo de Foucault , seu quinto romance foi publicado em inglês: A Misteriosa Chama da Rainha Loana . Comecei o livro mas nunca cheguei a terminar. Quando deixei de ser estudante, quis me afastar do conforto da academia, onde as preocupações de Eco com a semiótica e sentido pareciam mais imediatas; preferi me concentrar nas complexidades de Nova York, onde as pessoas viviam num simbolismo diário e levemente extravagante.

Mas Eco deixou sua marca em mim. Nunca passo batido por uma referência desconhecida enquanto leio uma obra. Claro, é muito mais fácil fazer isso agora com a Wikipédia. Sem surpresa, o próprio escritor se interessava pelo site. Escreveu mais de uma vez em sua coluna na revista italiana L'Espresso sobre a necessidade de manter a integridade da enciclopédia colaborativa depois que sua página recebeu uma informação falsa. "Controle coletivo pode garantir que um fato como a morte de Napoleão esteja sempre correto", ele escreveu, "mas é muito mais difícil proteger minha própria página de mentiras e rumores".

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Aí, ano passado, Eco ressurgiu inesperadamente na minha vida de novo quando, num artigo chamado " Donald Trump é um Fascista", o editor político da Slate, Jamelle Bouie, citou o ensaio dele para o New York Review of Books "Ur-Facismo" para apoiar suas afirmações. Eco, que era simpatizante de Mussolini quando criança, relembrou sarcasticamente o orgulho de ganhar uma competição de redações: "Elaborei com talento retórico o tema: 'Deveríamos morrer pela glória de Mussolini e o destino imortal da Itália? Minha resposta era positiva. Eu era um menino esperto". Eco passou a maior parte de sua vida refutando esse argumento e, em "Ur-Fascimo", ele alerta sobre os 14 sinais da ideologia fascista que incluem Culto à Tradição e Personalidade, Obsessão com Tramas do Inimigo e Desprezo pelos Fracos. Bouie argumenta de maneira convincente que Donald Trump preenche metade desses 14 pontos. O artigo viralizou e logo Eco voltou ao meu feed para provar que um dos presidenciáveis mais notórios da história dos EUA não era muito melhor que Mussolini ou Hitler.

Ao perder Eco, perdemos não apenas o herdeiro de Borges, mas também uma mente moldada pelo modo antigo de aprendizado: de pesquisa antiquada e métodos de catalogação. Damos essas ferramentas garantidas na ponta dos nossos dedos, mas admiro alguém como Eco, que conseguia cavar profundamente sem elas. Eu teria adorado ser aluno dele. Um de seus primeiros livros, Como Escrever uma Tese, foi traduzido para o inglês ano passado. O crítico Hua Hsu, em artigo para a New Yorker, apontou algumas de suas dicas anacrônicas, como usar uma agenda para manter o registro das fontes, mas sustentou que o propósito de Eco era maior que dar dicas úteis e datadas. " Como Escrever uma Tese ", ele escreveu, "não é apenas sobre fazer um trabalho. É também sobre abraçar a diferença… e reconhecer humildemente 'o conhecimento de que qualquer um pode nos ensinar algo'. Isso modela um tipo de autoatualização, uma crença na integridade da voz de alguém… e de levar alguém a sério o suficiente para pedir uma orientação pouco familiar e que pode alterar seu caminho".

Talvez Como Escrever Uma Tese tivesse sido mais útil para mim durante a faculdade em vez dos livros grossos sobre ficção. Mas foram neles – O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault , sobretudo ­– em que encontrei um professor incomum, disposto a oferecer as profundezas enciclopédicas de sua mente para me ajudar a montar a minha e, no decorrer do processor, encontrar poesia nos itens que eu incluía. "Mickey Mouse pode ser tão perfeito quanto um haiku japonês", Eco disse uma vez. Eu, como muitos outros, vou sentir falta dele nos mostrando o porquê.

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