Por Dentro do Maior Encontro de Ciganos e Viajantes da Europa Ocidental

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Por Dentro do Maior Encontro de Ciganos e Viajantes da Europa Ocidental

"Até hoje, as pessoas me dizem: 'Por que vocês não voltam ao lugar de onde vieram?'. No entanto, quando estamos em Appleby, não ouvimos isso. Por uma semana, temos uma sensação de pertencimento, de ser e de ancestralidade."

Todas as fotos por AmeliaTroubridge.

Um pênis de cavalo, de uns 60 centímetros, balança ao vento, espalhando mijo como uma mangueira de posto de gasolina cortada. O dono, um garanhão malhado, abre as pernas orgulhosamente contra o alvorecer. O campo em que acordamos – congelado e miserável – está cheio de cavalos de todos os tamanhos e cores, acorrentados ao chão por estacas de ferro ou amarrados atrás dos trailers. Mas, se perguntar a raça deles para alguém aqui, você só recebe uma resposta: "cigano".

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Por uma semana todo ano, Appleby, uma cidadezinha do condado de Cúmbria, no norte da Inglaterra, recebe o que alguns dizem ser o maior encontro de ciganos e viajantes da Europa Ocidental. Mais de 10 mil membros de comunidades nômades chegam a Eden Valley para beber, jogar, encontrar velhos amigos ou um novo amor – e, ocasionalmente, negociar cavalos.

"É como eu imaginava: a sensação que alguns judeus têm quando vão a Israel", comentou o escritor cigano Damian Le Bas. "Você é a maioria pela primeira vez na vida. Appleby foi a primeira vez que estive numa cidade onde a norma era ser cigano."

A Feira de Appleby é, talvez, a última do tipo: um regresso ao passado pré-industrial da Grã-Bretanha, a um tempo antes que o "grande disciplinamento" do século 19 nos transformasse em escravos do relógio. Durante uma semana de junho, o fedor rico da merda de cavalo supera o da poluição urbana. Centenas de cavalos ciganos são negociados na rua principal e banhados no Rio Eden, em frente a compradores e espectadores alinhados nas calçadas e margens.

A própria existência da festa é um milagre. Desde o Egyptians Act de 1552, que deu ao governo o poder de remover os ciganos da Inglaterra "por qualquer meio violento necessário", a história dos ciganos e viajantes no país tem sido de opressão e exclusão quase ininterruptas. O modo de vida deles é tão perseguido que até a Associação de Chefes de Polícia do Reino Unido admite que a lei virtualmente "criminaliza mesmo o ato de se morar num trailer". Os comentários da matéria anual do Daily Mail sobre o lixo deixado para trás em Appleby revelam um subtexto muito mal escondido: ciganos são imundos.

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Quando chegamos a Appleby nas primeiras horas mortas da madrugada do segundo dia da feira, os presságios não são bons. Dois cavalos já morreram, e a cidade está fechada. O dono do hotel onde esperávamos ficar faz uma breve aparição. "Não temos quartos, seus fodidos!", ele grita alegremente antes de bater a pesada porta de madeira na nossa cara.

Andando em busca de um lugar calmo para descansar, a única coisa que encontramos emanando luz é uma cela móvel da polícia, estacionada ameaçadoramente na base do acampamento cigano, uma inversão perversa da liberdade oferecida por uma cama sobre rodas. Nosso carro para fatalmente perto de um camburão estacionado. Sombras se movem lá dentro. Um policial verifica nossos documentos e depois acena para entrarmos no campo gelado de trailers e cavalos.

Desde o reality show Meu Grande Casamento Cigano, que, de acordo com Yvonne MacNamara, chefe-executivo do Traveller Movement, "prejudicou crianças, promoveu discriminação, racismos, incompreensão, bullying e hostilidade" contra ciganos e viajantes, essas comunidades se tornaram, compreensivamente, desconfiadas de jornalistas.

"Isso definitivamente mudou desde Meu Grande Casamento Cigano", afirmou Le Bas. "Minha mãe costumava tirar muitas fotos, e eu herdei isso. Eu estava em outra feira de viajantes dois anos atrás, e uns caras começaram a jogar pedras em mim e no meu amigo. E nós dois éramos viajantes, mas o fato de termos câmeras deixou as pessoas nervosas."

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"Já consegui entrar em Downing Street e em festas no Havana Club com Fidel Castro", informa a fotógrafa Amelia Troubridge, que mostrou a vida de jovens viajantes irlandeses na série premiada de 1996 Urban Cowboys. "Isso vai ser moleza."

Todo quarto num raio de 15 quilômetros de Appleby é reservado, às vezes com um ano de antecedência, pelos 30 mil visitantes que o evento atrai. Porém, de algum jeito, conseguimos colocar os pés num lugar chamado Tufton Arms, o hotel mais chique da cidade. No bar, dois homens olham sérios para a janela, ocasionalmente alcançando suas cervejas no balcão. Isso é um lembrete de que, apesar de toda cor e caos lá fora, ainda estamos no norte escuro industrial. As reações locais são variadas, para dizer o mínimo. "É um saco por três dias; depois, isso acaba", frisa um dos homens. "Então, não é tão ruim quanto um parto."

Apesar de todo o barulho feito sobre Appleby, isso não é muito diferente de qualquer outro grande evento equestre na Grã-Bretanha. Homens e meninos, principalmente, mostram seus cavalos, enquanto jovens mulheres fazem o melhor para distraí-los. Os cliques afiados dos saltos se misturam aos trotes dos cascos.

Muitas vezes, os jornais dizem que a feira é de ascendência antiga e real. A Carta Régia entregue pelo rei James II em 1685 tornaria Appleby uma tradição britânica mais antiga que a Royal Ascot, fundada apenas por volta de 1700 pela rainha Caroline.

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"Sinto dizer, mas isso simplesmente não é verdade", corrige o historiador local e, até recentemente, prefeito de Appleby, Andy Connell. O mito da carta nasceu em 1945 durante um dos vários atentados contra a feira; segundo Connel, "até os anos 70 isso já tinha se tornado uma carta entregue pelo bom rei James aos próprios ciganos – um cenário totalmente impossível por várias razões, principalmente porque o Egyptians Act tornou ilegal ser cigano até 1783."

Mesmo assim, o ex-prefeito me leva para conhecer o rei. No topo de Fair Hill, Billy Welch, "rei dos ciganos do norte", está realizando uma audiência em seu trailer impecável.

"Sempre que saímos pelo mundo, temos a sensação de que não pertencemos", lamenta Welch. "Mesmo em Darlington, onde vivemos há quase 200 anos, você sente que a comunidade não nos quer ali. E estamos ali há 200 anos! Até hoje, as pessoas me dizem: 'Por que vocês não voltam ao lugar de onde vieram?'. No entanto, quando estamos em Appleby, não ouvimos isso. Por uma semana, temos uma sensação de pertencimento, de ser e de ancestralidade. Esse pequeno pedaço de terra é sagrado para nós."

"Oitenta por cento das pessoas moram em casas agora", ele continua. "É importante para essas pessoas virem para cá e trazerem os filhos, porque essa é a herança deles: eles precisam conhecer e entender isso, não esquecer. É uma ilustração perfeita da nossa cultura, do nosso modo de vida, das nossas tradições: o jeito antigo."

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Em 2010, talvez como um presente para o governo anticigano de Cameron, a polícia fez de tudo para acabar com a festa.

"Em toda esquina", lembra o antigo prefeito, "em vez de policiais amigáveis dizendo 'Como vai?' e sorrindo para todo mundo, você tinha esses autômatos vestidos de preto carregando fuzis. Os rostos congelados encarando as pessoas."

"Eles escoltavam meu povo para fora da cidade depois das nove da noite", conta Welch. "Jovens, velhos, todos arrebanhados como ovelhas. Eles agarravam nossas moças e as maltratavam. Isso não se faz…"

"Em 2010, deixamos que eles vissem que estávamos mais organizados", ele continua. Um protesto – "sem violência, sem palavrões" – foi conduzido contra a polícia. "Posso organizar esse lote. Fizemos isso em cerca de duas horas. Se eu tivesse algumas semanas ou meses para arranjar tudo, eu poderia ter feito um espetáculo."

Desde então, a polícia – apesar de ainda numerosa – se converteu praticamente em guardas de trânsito armados.

De volta à cidade, a feira de cavalos termina e a festa começa. Há problemas em um dos pubs. Alguém com um chicote está gritando com uma fileira de policiais. Cassetetes e tasers devem ser usados em segundos. Mas não. Em vez disso, algo que nunca vi numa "situação de ordem pública" acontece. Os policiais se afastam. A paz volta. As pessoas retornam aos seus copos de cerveja e jogos com moedas.

"Esse lugar é sagrado para nós" diz Welch. "É literalmente nossa Meca. Nosso último lugar na história." Durante uma semana por ano, Appelby é a Cidade dos Viajantes, e ninguém – nem a polícia, nem a prefeitura, nem o Daily Mail – pode tirar isso deles.

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Tradução: Marina Schnoor