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Zé Cláudio: Meu amigo, ela exala um cheiro quando está sendo cortada, que você sente. Quando vai cair, ai você escuta o gemido dela: ela range, no tronco. Aí você vê as folhas mexendo-se como quem vai dando adeus. Tshhhhh… Aí você escuta um estrondo: treummm…. E mais um gigante da selva tombou. Outro dia estávamos aqui e escutamos a moto-serra zunindo. E veio o estrondo. Falei para a dona Maria: "vamos lá?" "Vamos". Caiu bem perto do nosso lote, mas não chegou a cair na nossa terra. Eles iam derrubando tudo.

Eu sinto como se um cara matou alguém. Porque é um ser vivo. Tem uma música que diz que se a floresta tivesse pé para andar, ela não ficaria aqui. Se sentisse o perigo, saía. Mas daí o cara chega, limpa ao redor, acelera a moto-serra. Rom, rom, rom… E ela ta lá quietinha. No lugar dela. Só sentindo a dor. O que a natureza leva anos e anos para fazer, o cara acaba dentro de uma hora. Menos de uma hora, tudo isso, em nome do capital. Tudo em nome do “se dar bem”. Tudo em nome do “ah, eu sou o empresário fulano de tal”; “eu exportei 100m3 de madeira pros Estados Unidos, pro Japão, não sei pra onde”; “eu tive um lucro de tanto esse ano”. Às custas da floresta, de algo que ele não plantou, de algo que ele não gastou um centavo para fazer. É muito fácil ganhar dinheiro desse jeito. E nem as responsabilidades que ele tem, em pagar os impostos, nada ele cumpre. É sempre driblando fiscalização, fazendo as coisas ilegais, trabalhando ilegalmente. Só a ponto de enriquecer. Pode? Se ao menos fizessem as coisas dentro da legalidade… Porque a castanheira é proibida de ser cortada em todo o território. E por que cortam? E acham quem compra. Aí depois falam: não sei quem está trabalhando sobre meio ambiente. Mas esse alguém compra a madeira ilegal que sai daqui. De castanha, que é ilegal. Do mogno, que é ilegal. Da andiroba, que é ilegal. Da copaíba, que é ilegal. E por que compram? Por que não procuram a origem?