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A história do DJ que jogou dinheiro pro público em uma apresentação num campo de refugiados

O norte-americano radicado em Barcelona, Filastine apresentou um DJ set na Selva de Calais, na França, e jogou notas de Euro pra cima na intenção de questionar o valor do dinheiro em papel.
All Photos by Tolvan Gallego

Mais de um milhão de pessoas ultrapassaram as fronteiras da Europa em 2015, e em Calais, na França, as manchetes sobre refugiados não são novidade. Desde 2002, a cidade costeira francesa possui um campo de refugiados (muitas vezes chamado de "Selva de Calais"). Aqui, em uma colônia de tendas e cabanas sem água encanada em um dos países mais ricos do mundo, cerca de sete mil pessoas fazem o possível para se aquecer, comer e manterem-se seguras.

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Ativistas britânicos tomaram medidas para mudar essa realidade no último outubro, quando abriram o Good Chance Calais, uma estrutura com programação completa de teatro, arte e música. Enquanto uma balada improvisada com um pequeno alto-falante foi vista na Selva durante o verão, a Good Chance trouxe uma curadoria mais pesada, com o objetivo de chamar artistas em turnê para dar aos moradores do campo de refugiados alguma esperança e algum alívio por meio da arte.

Foi assim que no último 14 de dezembro, o DJ e produtor que mora em Barcelona Filastine foi até Calais com recursos do seu próprio bolso para fazer um set ao vivo ao lado de Nova, sua vocalista-colaboradora da Indonésia. Nascido em Los Angeles, Filastine tem um histórico de combinar música e ativismo. Quando morava em Seatle, por exemplo, ele fundou a Infernal Noise Brigade, uma banda marcial radical, para se apresentar em protestos ao redor das manifestações sobre a ministerial conference em 1999 feitas pela World Trade Organization.

Filastine tocou em squats ao longo da Europa, andou com o Sound Swarm — uma orquestra de bicicletas montadas com megafones conduzida por trasmissões de rádio pirata — em demonstrações pelo velho continente, e foi visto quebrando barricadas durante o protesto dos indignados em Barcelona em 2011.

Com esse histórico, dar algum entretenimento para as pessoas na Selva de Calais parecia um passo lógico para um artista que prefere apresentar seu set em um carrinho de compras como forma de críticar a globalização e o consumismo. Nós fomos atrás do produtor para discutir suas experiências no campo de refugiados — e sobre como ele quase deflagrou uma revolta (duas vezes).

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THUMP: Como você e Nova foram convidados para tocar em um lugar tão underground quanto a Selva de Calais?
Filastine: É basicamente o trabalho de uma mulher destemida, Severine Sajous. Ela trabalha no lugar com os moradores em um projeto fotográfico chamado Jungleye. Ela nos encorajou a ir lá e nos apresentarmos no domo do Good Chance Calais, e conseguiu um sistema de som doado por uma companhia de produção chamada Relief Asso.

Quais foram as suas impressões da sua breve estadia na Selva?
Eu esperava que o camp em si fosse mais caótico, o que eu presenciei na minha breve visita à Selva de Calais foi um sentimento de vago otimismo em relação à raça humana—impressionado que milhares de pessoas desesperadas que sequer dividem uma língua ou religião pudessem criar um vilarejo que funciona em uma poça de lama congelada na beirada da Europa.

E como foi o show? Descreva o sentimento para quem não estava por lá.
Intenso. Não era um público casual, eles estavam lá para ver, ouvir e reagir ao que estávamos apresentando com toda sua atenção. O espaço em si era uma estrutura de domo de metal coberta de plástico, com um palco baixo feito de pallets. Algumas centenas de pessoas lotaram o domo, cobertos de várias camadas de roupas contra o frio. Eles vieram do Sudão, Afeganistão, Síria, Eritréia, e uma dezena de outras nações que deixaram para trás. Estava lotado, eles estavam pressionando o nosso equipamento, um moleque passou o show inteiro atrás de mim, estudando o equipamento e escrevendo furiosamente em um bloco de anotações.

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Você já tocou em muitos lugares improvisados, como foi isso em comparação?
Foi um dos sets mais tensos da minha longa carreira, nós tivemos muito pouco tempo para instalar e testar o sistema de som e geradores. Eu pensei que nós pudéssemos começar o show um pouco mais tarde para conseguir ajustar tudo, mas o público se juntou do lado de fora do domo ao ponto onde começou a ficar perigoso, o empurra empurra e a gritaria chegou ao nível que eles tiveram que entrar, e tivemos que começar imediatamente, mesmo que só metade do sistema de som estivesse pronto. Nós tocamos em mono, em metade dos altos-falantes. É claro que não tinha backstage, banheiro, mas também não tinha água encanada e, o mais único: nenhuma lei.

Mad visuals. Huge thanks to @Filastine for coming all the way from Barcelona and cutting through this winter air. pic.twitter.com/PQTHu15UTE
— Good Chance Calais (@GoodChanceCal) December 14, 2015

Por que a urgência de começar o show se você e Nova eram os únicos artistas?
Me disseram que ele estavam impacientes para começarmos na hora porque eles precisavam passar o resto da noite tentando pular cercas para tentar pular dentro de trens ou caminhões.

Que tipo de música você apresentou para os refugiados?
O termo curto e preguiçoso para nomear nossa música seria "global bass", mas eu acho que com menos bundas e mais cérebro. Nós somos uma dupla no palco, e nós fazemos uma pequena apresentação audiovisual: Nova canta e toca alguma percussão, eu bato em umas baterias e pads, lançando as sequências de audio e fragmentos de uma narrativa em vídeo. A "vivacidade" e conteúdos dos visuais funcionou bem para a Selva.

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E como o público reagiu — alguma coisa em especial parecia ressoar?
De certa forma foi a plateia perfeita, porque a música é eletrônica, mas feita fora de um castelo angloamericano. Com isso eu quero dizer que alguns ocidentais podem ouví-la como um tipo vago de "world music" onde podem ver várias referências reconhecíveis, das batidas do norte da África aos tipos de notas e escalas que usamos. Em algumas músicas eu toco darbuka, que é um tambor de mão árabe. Toda vez que eu pegava ele, as pessoas comemoravam.
Eu preciso confessar, pessoalmente, a experiência foi intensamente gratificante, porque enquanto projeto Filastine costuma parecer um pouco sem lar, desconfortável em lugares ortodoxos da música eletrônica (festivais, baladas), e visto fora da cena folk da world music, nesse campo de imigrantes nossa arte pareceu totalmente apropriada.

Tirando o princípio de revolta antes do show, você disse que teve outro problema. O que aconteceu?
Acidentalmente provocamos um tumulto. Jogamos pra cima £00T, nosso dinheiro utópico do futuro, na hora de fechar nosso show. £00T é algo para as pessoas levarem para casa, para brincar com a ideia do valor do dinheiro em papel. Então percebemos imediatamente como a nossa atitude foi imbecil, enquanto brigávamos pra não sermos atropelados. Falha nossa, jogar dinheiro no ar é algo idiota, ainda mais em um espaço pequeno e lotado com pessoas desesperadamente pobres. Parecia uma cena do Apocalypse Now quando o show se transformou em uma rebelião, a menos que tivéssemos um grupo de segurança ou um helicóptero para fugir.

A dance music não se envolveu, amplamente, nas políticas da crise de imigração, com a notável exceção do DJ e produtor Lamin Fofana. Você acha que mais artistas deveriam tocar de graça na Selva de Calais?
Eu adoraria ver mais pessoas, especialmente as influentes que têm a atenção de milhões de fãs, responderem a essas outras realidades do mundo onde vivemos. A música eletrônica é agora a maior forma da música pop, ela cresceu para se tornar musicalmente rica em pouco tempo, mas ainda está travada na adolescência intelectualmente.
Tocar na Selva de Calais, ou em algum outro campo de imigrantes, é apenas um jeito de abordar [a crise da imigração], artistas também poderiam responder juntando fundos, compartilhando informações nas mídias sociais. Os refugiados definitivamente gostariam de mais shows, apesar de eu não ter certeza como outros tipos de música eletrônica funcionariam. Richie Hawtin tocando techno minimalista pode ser péssimo, mas seria ótimo ver ele tentar!

Como ver a Selva de Calais ao vivo afetou sua visão de mundo?
Eu não acho que seja um problema temporário. Esse é o futuro distópico que os esquerdistas vem falando sobre há décadas, a resposta a longo prazo do colonialismo, e o resultado direto da globalização corporativa. Uma diferença de riqueza cada vez maior, guerras por recursos e desastres climáticos estão fazendo as pessoas migrarem para algumas fortalezas estáveis, ou morrer tentando [migrar]. A única solução é construir um mundo melhor, não muros melhores.

Em uma ironia do destino, fiquei sabendo que Nova tem problemas de visto.
Um advogado nos avisou que Nova precisa deixar a Europa essa semana. Nós passamos a noite procurando um vôo de última hora para ela ir pra Indonésia. Sempre essa luta contra essas fronteiras filhas da puta.

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