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A Ucrânia está a ferro e fogo e nós andamos desatentos

Há dois meses com as barricadas erguidas.

Por Pedro Soares
28 Janeiro 2014, 11:00am

A Ucrânia está a ferro e fogo, mas aqui, deste lado do mundo, parece que estamos a prestar pouca atenção. Pelo menos, aparentemente, não há por parte do mundo ocidental a mesma euforia de quando estalou a Primavera Árabe. O pessoal que curte teorias da conspiração defende que é por causa de um acordo implícito que há entre os Estados Unidos e a Rússia: o Obama aceita entregar a Ucrânia ao Putin, que continua a tentar criar o seu bloco euro-asiático, e em troca recebe benefícios na Síria e em pontos estratégicos no Médio Oriente. A sustentar esta teoria está o facto dos membros do governo de Viktor Ianukovitch poderem viajar para os 

states sem visto, enquanto o cidadão comum tem de pagar 35 euros.

Atento a esta situação, decidi armar-me ao pingarelho e mostrar-vos de forma presunçosa que sou um tipo cosmopolita, com amigos em todo o lado, incluindo a Ucrânia. Mandei uns emails, fiz um par de chamadas de skype e falei com malta suficiente para tentar entender algumas coisas que nem sempre chegam à comunicação social generalista.



Ora bem, a primeira coisa que devemos perceber aqui é que estes conflitos não têm propriamente a ver com motivos pró-europeus, como tem passado nos jornais habituais. É certo que o facto do presidente ucraniano, Ianukovitch, ter recuado na intenção de assinar o acordo de pacto económico com a União Europeia em detrimento da aproximação à Rússia levou o povo a manifestar-se na rua, mas o que fez o barril de pólvora explodir foi a repressão policial brutal dos Berkut, a polícia especial ucraniana. Cansados da corrupção, do tráfico de influências, dos favorecimentos ou do clima de insegurança (um pouco como em Portugal, mas ainda mais desavergonhadamente), o copo transbordou e os ucranianos saíram para a rua.



Uma das coisas que se lêem amiúde por aí é que, o que está a acontecer na Ucrânia, não é nem de perto nem de longe uma revolução, mas antes um bando de arruaceiros que andam a destruir Kiev e a impedir que as pessoas vão trabalhar. Se virmos o livejournal de Ilya Varlamov, um dos muitos blogues que tem acompanhado o conflito por dentro e que é, muito provavelmente, o que tem melhores fotos, percebemos facilmente que o que se passa é muito mais que isso. Ilya explica: há cerca de dois meses que o centro de Kiev está nas mãos dos protestantes, vários edifícios oficiais estão ocupados, o governo está semi-paralizado e a polícia não consegue desmobilizar as milhares de pessoas que se mantêm na praça central da cidade, a Maidan Nezalezhnosti — praça da Independência em bom português. Se isto não é uma revolução, então enganaram-me bem. Por isso, o que se passa é mesmo grave. E em grande.



Falei com o meu amigo Michael Mysiura, que me confirmou o cenário de guerra civil em Kiev. Depois de passar dias em Lviv, uma das maiores cidades ucranianas — e que foi o quartel-general de Portugal durante o Euro —, a impedir que os Berkut locais pudessem viajar para Kiev, reforçando o contigente na capital, Michael foi ele próprio para a linha da frente dos confrontos, decidido a acender uns cocktails molotovs se tivesse mesmo que ser. Também em Lviv — aparentemente à semelhança de outras grandes cidades, como Donetsk, já que o interior continua às escuras e à mercê do que vai ouvindo numa comunicação social parcial e controlada pelos oligarcas cheios de papel —, as pessoas têm-se mobilizado para recolher medicamentos, comida, roupa quente e até capacetes para enviarem para Kiev. Tudo isto, segundo Svitlana Rodnyenkova, que também conheci em Lviv, e que acrescenta que a maioria dos seus amigos já estão em Kiev.

No entanto, apesar de alguns protestos, a situação é pacífica fora da capital. Isso não impediu que milhares de pessoas saíssem para a rua, em Lviv, fazendo com que o governador da região, Oleg Salo (um dos apoiantes da facção pró-Rússia) apresentasse a demissão. Svitlana explicou-me que isso deu a esperança de que a seguir podia vir o resto do governo de Ianukovitch, mas apenas poucas horas depois ele deu o dito por não dito e voltou atrás, reforçando o apoio ao presidente. Alegadamente, o seu pedido de demissão tinha sido forçado por terceiros. Exacto, era essa a intenção da manifestação.



Em Kiev as coisas estão pretas na Maidan Nezalezhnosti. Mesmo com a aprovação, em Janeiro, de um pacote de 20 leis antidemocráticas que procuram proibir os protestos — é ilegal montar palcos ou altifalantes, o governo reforçou os seus poderes de controlo sobre a imprensa e passou a poder limitar o acesso à internet. Michael explica-me que ninguém liga a isso; nem sequer a polícia. Porque senão já estava metade da Ucrânia presa. Mesmo assim, continua a intimidação. Como os sms que alguns manifestantes têm recebido por parte das autoridades a identificá-los — Big brother is watching you.

A intimidação é mesmo uma das ferramentas que o governo de Ianukovitch tem usado e abusado. Além da força bruta dos berkut — com relatos, inclusive, de ataques a jornalistas, por exemplo -, existem também os titushky, grupos patrocinados pelas autoridades com duplo objectivo: infitrarem-se nas manifestações com o intuito de as descredibilizarem, criando desacatos e pilhando indiscriminadamente; e encher de porrada os manifestantes, desencorajando-os. O nome dos titushky deriva do de Vadym Titushko, um lutador de artes marciais, que em Maio do ano passado foi apanhado a espancar jornalistas. Classe.



Do outro lado estão os radical maidan, os manifestantes comuns que se organizam nas barricadas erguidas na Maidan Nezalezhnosti e que ocupam os edifícios governamentais, mas também os auto maidan, os protestantes que se deslocam de carro, distribuindo os mantimentos e dando em primeira mão notícias das movimentações da polícia. É uma autêntica guerra civil que já dura há quase dois meses na Ucrânia, nma escalada de tensões que continuam a acumular um pouco por todo o espaço europeu. Não deixa de ser assustador que, no ano em que se assinala o centésimo aniversário do assassinato do arquiduque Francisco Fernando, em Sarajevo — e consequente início da primeira Grande Guerra —, oiçamos os politólogos mais pessimistas dizerem cada vez mais que hoje se vive na Europa uma situação socio-política em tudo semelhante à de 1914. E que basta uma faísca para fazer o barril explodir outra vez. Para já, na Ucrânia é o que se vê.


Fotografia por Ilya Varlamov