Tecla Tónica: a electrónica portuguesa a gostar dela própria

Falámos com o realizador de "Uivo" e "Meio Metro de Pedra". Eduardo Morais está de volta ao grande ecrã e desta vez atira-se à electrónica na música feita em Portugal. Vê o trailer do novo documentário.

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mar 31 2016, 9:20am

Frame de Tecla Tónica. imagem cedida pelo realizador.

Tecla Tónica é um documentário sobre a história da electrónica na música em Portugal. O novo filme de Eduardo Morais tem estreia marcada para o Festival de Cinema Indie Lisboa, a 30 de Abril , tal como tem acontecido com os seus trabalhos anteriores, o realizador pretende depois correr o País, em formato tournée, para fazer a obra chegar a um maior número de pessoas.

Eduardo Morais tem dedicado os últimos anos aos documentários na área da música. O percurso começou com Meio Metro de Pedra, uma visão histórica e social do rock'n'roll feito em Portugal, dos seus primórdios nos anos 50 até aos dias de hoje. Seguiu-se Música em Pó, sobre o mundo do coleccionismo e dos apaixonados do vinil, tendo o terceiro trabalho, Uivo, obtido um maior mediatismo, pois fez o que precisava de ser feito: documentou a importância do radialista António Sérgio no panorama musical em Portugal.

Tecla Tónica está também estruturado sobre uma linha de tempo, como bem atesta o subtítulo, "A alquimia da música electrónica em Portugal (1968 - 2015)": desde as primeiras experiências nos anos 60, a importação dos primeiros sintetizadores, até à explosão das maquinarias, quer na pop, quer na dance music. A VICE falou com o realizador.

VICE: Continuas num circuito muito próprio de produção e circulação dos teus trabalhos. Tal como a eletrónica, "que tem o dobro da idade do Rock n' Roll", como dizes na apresentação do filme, também preferes aquela ideia de te movimentares quase como uma biblioteca itinerante, como se fazia antigamente?

Eduardo Morais: É curioso este jogo quase paradoxal entre orebuscar o passado e apresentá-lo de uma forma tão "retrógrada", com os conceitos tão recentes e revolucionários como o crowdfunding, ou DSLR. Cada vez mais parece que o cinema vive da premiação e a própria arte é cada vez mais competitiva (basta ligares a televisão e num zapping de 20 segundos passas por 10 canais com gajos a competir, seja a cantar, seja a dançar, seja a cozinhar), o que torna a essência da criação muito menos interessante.

O alcance do que crias está na forma como te apresentas e, muito mais que uma vontade em exibir os meus trabalhos em festivais de cinema nos grandes centros urbanos, tenho um prazer enorme em poder levar as histórias que monto pelo País e em conhecer pessoas interessadas e interessantes. Esse confronto positivo com o público é realmente bastante gratificante. Se conseguir que, por exemplo em Vila Real, ou na Guarda, um adolescente veja o Tecla Tónica e vá para casa pesquisar e ouvir a música do Nuno Canavarro, ou dos Poke, vou sentir que o objectivo foi, mais uma vez, cumprido.

Depois de documentários que privilegiam o rock - e um dedicado ao colecionismo de discos em geral -, como é que chegas a este território da eletrónica em Portugal?

Gerou-se à semelhança do Meio Metro de Pedra. Um gajo começa a perceber que há todo um leque de compositores que na década de 70 criaram peças sonoras de uma extrema qualidade e não consegue mais informação sobre eles, então toca a ir falar com as pessoas certas sobre isso. E já que a minha memória é péssima e certamente não vou conseguir reter a informação dessa conversa a longo prazo, levo uma câmara comigo. Depois as ramificações dessas áreas também são interessantes e a cronologia estende-se.
Tudo isto porque o próprio processo de síntese sonora é algo que me atraiu desde adolescente e, nos últimos anos, tenho sentido uma vontade de mergulhar ainda mais nesse pensamento, que é totalmente inerente à música electrónica, o aumento do léxico sonoro.
É um pouco como uma banda fazer um disco num registo totalmente diferente ao anterior... mas eu também nunca fui um gajo exclusivamente do rock'n'roll.

Eduardo Morais.

Deve ser sempre complicado selecionar uns e deixar outros de fora. Como chegaste a este naipe de convidados que aparecem no documentário?

Muito mais que a "história da música electrónica", vejo este documentário como "uma história da electrónica na música". Parece muito semelhante, mas é bem diferente, porque o termo "música electrónica" pode abranger tanta coisa, desde a vertente académica de composições mais sonoramente exploratórias, ao pop mais sintetizado que é criado hoje em dia. A minha intenção é contar o meu ponto de vista da história, mas pela evolução tecnológica das máquinas, sejam elas gravadores de fita, sintetizadores, drum-machines, até "aos pratos".
Não vejo um documentário de música como algo fechado em si mesmo, que represente uma verdade absoluta. Vejo como um produto pessoal de um autor, com escolhas nada imparciais, mas lógicas.

Podes muito bem perguntar o que é que o José Cid faz ao lado do DJ Vibe, por exemplo. O "Zé", com os Quarteto 1111, tinha na década de 70 uma coisa que nenhum outro compositor por cá tinha: a capacidade de gravar música electroacústica no estúdio da banda. Os compositores seus contemporâneos, como o Filipe Pires, ou o Cândido Lima, tinham de ir gravar ao estrangeiro e nisso os Quarteto foram pioneiros. Já o "Tó", quebrou a barreira fronteiriça com a sua electrónica de dança e também é de uma importância inquestionável.

Em cada trabalho uma pessoa aprende sempre coisas novas, toma contacto com outras realidades. O que é que não sabias e mais te surpreendeu ao ouvires todos estes contadores de estórias?

O conceito de contra-cultura, à semelhança do "chavão" no Meio Metro de Pedra, também está muito presente no Tecla Tónica. Descobrir, por exemplo, que o compositor Jorge Peixinho foi preso pela PIDE em 64 por causa da subversão das suas composições contemporâneas, é um facto curioso.
Por outro lado, descobrir que um sintetizador em 1971 custava 50.000 escudos (250 euros), enquanto um BMW custava 200.000 escudos (1.000 euros), ou uma Fender 3.000 escudos (15 euros) também surpreende um pouco pelo lado oposto, não?

Tens tido uma produção regular na última meia década. Bem sei que o Tecla Tónica ainda não estreou, mas é inevitável perguntar: que trabalhos se seguem?

Está um projecto novo em marcha, com a chave na ignição, mas a mudança ainda não está posta, por isso não quero adiantar ainda. Mas falta muito pouco mesmo.

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