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Fotos

Drogadas de Vancouver dos anos 90

A sociedade ignorou-as mas o Lincoln Clarkes não.

Por Nadja Sayej
03 Dezembro 2013, 12:04pm
Em 1997, Lincoln Clarkes, um fotógrafo de Toronto, começou a trabalhar numa impressionante série de fotografias de viciadas em heroína do centro de Vancouver. Um ano depois, quando a série Heroines foi lançada e exposta pela primeira vez, surgiram reacções para todos os gostos: foi elogiado por humanizar um sector esquecido da sociedade, mas foi condenado por ser voyeur e explorador. Fosse como fosse, não há dúvida de que despertou a atenção da imprensa internacional e conseguiu que a sociedade se interessasse pelas mulheres que estavam em risco, sendo que algumas das quais até desapareceram (os restos mortais de cinco delas foram encontrados numa quinta do assassino em série Robert Pikton) e teve um papel importante ao ajudar uma comunidade que, até então, tinha sido completamente ignorada pela cidade.

VICE: Como começaste com esta série?
Lincoln Clarkes: Leah, uma grande amiga minha que morreu em 1999 depois de uma overdose de heroína, introduziu-me nesta subcultura de drogados. Tudo começou com uma manhã de Verão em que conheci a Patrícia Johnson, que desapareceu, e as suas outras amigas. Enquanto fotografava o tio, converteram-se numa espécie de drama. A fotografia que lhes tirei junto à escadaria do hotel Evergreen fez-me chorar. Foi assim que me obcequei a documentar o estilo de Lewis Hine e Jacob Riis e da restante comunidade de drogadas.

Foi difícil aceder ao meio?
No meio da heroína e do crack são todos muito desconfiados mas, ao mesmo tempo, acaba por ser um espaço de amizade. Caminhar pelas ruas e becos é como caminhar pelas suas salas ou pelas suas casas. Quando ia fazer as fotos ia acompanhado de uma assistente, alguém a quem elas respeitavam e alguém que se preocupava a sério com elas, que lhes dava comida. Estávamos sempre a tentar fazê-las rir, para que não nos contassem histórias tristes. Prometemos-lhes que lhes daríamos uma cópia de cada foto e também lhes prometemos que nunca revelariamos a sua identidade, a menos que morressem.

Mas já as conhecias?
Não conhecia nenhuma. Mas eram minhas vizinhas, literalmente, por isso via-as todos os dias. Falavam-me quando me viam pela rua. As suas vidas eram uma merda, por isso, entre tantas lágrimas, curtiam rir um bocado. Os homens eram sinónimo de más notícias: polícias, chulos, traficantes, assassinos, todos iam atrás delas. Por isso eram unidas e partilhavam o pouco que tinham. Se uma tinha sítio em casa, deixava que as outras ficassem lá a dormir, ainda que fossem cinco a dormir na mesma cama. Uma vez vi uma briga entre elas por causa de uma dose de cocaína (que não devia valer mais do de sete euros) e no dia seguinte já estavam contentes a fumar juntas e a mostrar as feridas de guerra.

Disseste que o que faltava a essas mulheres é amor. O que lhes faltava mais?
A maioria destas mulheres teve uma infância de abusos; tudo o que não tinham era uma história feliz. Acabaram por cair num poço fundo e ficaram deprimidas. Precisavam de terapia: limites para saber controlar a sua saúde e a sua nutrição, um lugar a que pudessem chamar de casa, escola e trabalho. Acho que tudo isto as teria ajudado muito. Quando chegavam à cidade não tinham as mesmas condições que tinha um local, quer dizer, os contactos para arranjar uma casa e um trabalho, por exemplo.



Que histórias ouviste neste período de tempo em que tiraste fotos? Sei que também existe um documentário.

Uma das histórias que me marcou mais foi a de uma mulher que acabava de chegar a Vancouver de autocarro e a sua filha tinha morrido num acidente de carro porque o seu marido conduzia bêbedo por uma estrada montanhosa. Tinha perdido o seu trabalho na padaria local e a seguir a sua casa. Tudo o que lhe sobrava era a lancheira da filha. Quando lhe perguntei o que tinha acontecido com o marido, disse-me que tinha sido assassinado. Perguntei-lhe como e ela respondeu-me, enquanto sorria, que tinha sido "de forma misteriosa".

Continuas em contacto com elas?
Sim, às vezes mandam-me e-mails um bocado estranhos. Por alguma razão que desconheço gostam de recordar aquela época e estão muito orgulhosas por continuar com a vida e terem sobrevivido à série de mortes do Robert Pickton. Quando alguma morre, os seus filhos escrevem para me informar da morte.

Fotografia por Lincoln Clarkes.