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Desporto

Os piores e os melhores equipamentos de guarda-redes

Tipo, de todo o sempre.
27.3.13

O mundo dos guarda-redes é um sítio estranho — ou melhor, kafkiano com toques de Hollywood — que conta, frequentemente, com um nível de absurdo à escala de um Ricardo “Labreca”. Estou a falar de um guardião mediano a tender para o fraco (parafraseando um amigo) que, de repente, se torna no maior Rocky do universo, ao defender, sem luvas, o penálti contra a Inglaterra no Euro 2004. Ilógico e eficaz, tais como estes equipamentos de guarda-redes. “Do you think I’m loco, pendejo?” JORGE CAMPOS
Uma das figuras mais singulares do desporto-rei, este mexicano conseguia iniciar a primeira parte como guarda-redes e acabar a segunda como ponta de lança. Não sei se era ele que decidia isso — ou se o treinador ainda tinha uma palavra a dizer —, mas, até me deparar com este Jorge, nunca tinha visto tal coisa. Tudo era extremo no seu jogo, principalmente os equipamentos. A fazer lembrar a já desaparecida bola de praia Balzac, estes guarda-roupas são os anos 90 na sua toada mais psicadélica. Era perfeitamente capaz de funcionar hoje em dia. Mais duas curiosidades sobre El Brody: marcou 34 golos em 433 jogos (o que não é mau para um guarda-redes) e nasceu em Acapulco, o que me parece um excelente local para se nascer. Woooof wof wof. DIMITRI KHARINE
Kharine foi um senhor fora do seu tempo, uma carta soviética fora do baralho ocidental dos anos 90, que só queria esquecer os 80s. De cima a baixo, todo ele é um resquício do bloco de Leste, seja na mullet — que faz adivinhar uma cozinha com os tampos em fórmica —, seja porque jogou por três selecções diferentes. Na realidade, a sua nacionalidade russa coincide com as transformações da gigante União Soviética (seis internacionalizações) em Comunidade de Estados Independentes (11) e, finalmente, em Rússia (23). Em 1992, quando foi jogar para o Chelsea, Kharine não se transformou, mesmo tendo passando todos os anos 90 na capital londrina. Continuou o mesmo rapaz soviético dos anos 80 e nem mesmo Londres o conseguiu mudar. Todo ele é uma personagem de Dostoiévski e tenho fé que o fantasma do escritor já tenha redigido uns dois livros assombrados sobre este jogador. O equipamento também é estupendo por ser a antítese do homem. Da marca Umbro (na onda “estupidez capitalista em equipamentos de guarda-redes”), a vestimenta mistura cores que, à partida, parecem compatíveis mas que, devido à profusão de linhas e traços, se tornam totalmente impossíveis de ligar. Ah, e prestem atenção ao pormenor de escada de Escher, bem junto ao coração. O patrocínio é do mais fixe que por aí andou, já que se trata da primitiva consola Commodore — sim, aquela que fez as delícias e as tardes de tanto jovem adolescente. Videojogos, arte, capitalismo, comunismo e Chelsea de Zola num só. Obrigado, Dimitri Kharine. DAVID SEAMAN
Quem foi a pessoa que contratou a Umbro nos anos 90? Provavelmente, alguém daltónico. Este artigo poderia ter sido totalmente dedicado à referida marca inglesa de desporto (vá, de certa forma até é), mas por agora fiquemos por David Seaman. Uma das razões da sua popularidade foi, sem dúvida, o estilo próprio: uma mistura de "senhor do banco" com um rabinho de cavalo rebelde — party in the back, business in the front. Figura mítica do Arsenal e da selecção inglesa dos anos 90, Seaman era um daqueles jogadores à Nené: o tempo podia estar sempre uma merda, podia levar com lama na cara, mas o cabelo e o bigode estavam sempre impecáveis. Assim como os seus equipamentos. Por mais horríveis que fossem. “Eh pá, já disse! Três frangos, uma dose de costeletas e um pequeno-almoço britânico com tudo!" NEVILLE SOUTHALL
Se o Tom Selleck tivesse um sósia com mais 30 quilos, essa pessoa seria o Neville Southall. Guardião numa altura em que os redes podiam ser gordos, o Neville passou todos os anos 80 em Goodison Park, casa do Everton FC, e na (poderosa) selecção galesa, na qual ganhou a admiração de todos. Hoje em dia, grande parte dos jogadores de futebol assemelha-se a concorrentes de um reality show: parecem o Ed Hardy e têm as sobrancelhas feitas. Mas nos anos 80, os jogadores queriam-se homens a sério: peludos, com perda de cabelo e com um bigode a enfeitar. Ou seja, o Southall seria o mais aproximado que teríamos do amigo do pub que passa a noite a jogar setas e a emborcar cerveja morna. Só que este gajo ganhou dois títulos de campeão inglês, duas taças de Inglaterra e ainda uma Taça das Taças. Desde que bazou, em 1997, o Everton nunca mais ganhou nada — a não ser um afro à At The Drive In, propriedade de Marouane Fellaini. O Southall terminaria a carreira aos 44 anos, percorrendo as divisões inferiores das ligas inglesas e amealhando 92 internacionalizações pelo País de Gales. Bravo! PABLO AURRECOCHEA
O mais desconhecido de todos estes guardiões afirma-se por ser o mais excêntrico. O Pablo Aurrecochea é um uruguaio que decidiu desenhar os seus próprios equipamentos. Até aqui nada de mais — o Jorge Campos fazia o mesmo, para desespero dos avançados contrários, que tinham de levar nos olhos com as cores mais garridas que o ser humano já conheceu. A diferença entre este medíocre guarda-redes (que defendeu clubes como o Cerro Porteño ou o Talleres de Remedios de Escalada) e os demais é o facto de só utilizar figuras do universo da BD e desenhos animados nos seus equipamentos. Num jogo, é o Batman, noutro é o Krusty e no seguinte pode bem ser o Taz. Duvido que pague os direitos de autor respectivos, mas também duvido que a Marvel e a DC saibam da existência do Pablito. É melhor assim.