O Belo Inferno Distópico de uma Inglaterra Pós-levantes


Todas as fotos são cenas diferentes do projeto “The Aftermath Dislocation Principle Part One” de Jimmy Cauty.

Jimmy Cauty tem uma história e tanto. Como parte da dupla de The KLF nos anos 1980, ele e seu parceiro Bill Drummond tiveram dois discos no topo das paradas de sucesso; ele escreveu um livro como sobre fazer isso; torrou seu sucesso disparando uma metralhadora com tiros de festim sobre as cabeças da indústria da música reunida no Brit Awards de 1992, e acabou queimando £1 milhão em dinheiro – quase todos os seus ganhos – na remota ilha escocesa de Jura.

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Pelo tanto que se falou dessa história desde então, esse golpe provavelmente teria valido dez vezes essa fortuna em publicidade, mas, em vez disso, Cauty tem se mantido discreto, trabalhando em seus projetos pessoais de arte. Seu novo trabalho é “The Aftermath Dislocation Principle Part One: A Small World Re-Enactment” (algo como “O Princípio do Deslocamento do Rescaldo Parte Um: Uma Encenação Num Mundo Pequeno”). Trata-se da ressaca de uma revolta, construída numa escala de 1:87 (mas que cobre 136,5 metros quadrados) – uma paisagem urbana desolada com escombros espalhados, carros queimados, restaurantes fast food destruídos e quase inteiramente sem vida, fora um enxame de policiais em seus coletes amarelos, que parecem estar imaginando para onde todos os revoltosos foram.

Antes de Aftermath, Cauty trabalhou numa série de peças individuais menores chamada “A Riot in a Jam Jar” (“Uma Revolta Num Pote de Geleia”), construídas em potes de geleia com bonequinhos de ferrorama personalizados. Cauty explicou que a inspiração para a série veio enquanto ele estava num varejão Tesco, observando uma enorme fila de pessoas esperando para passar pelo caixa automático. “Lembro de ter pensado: se eu fosse 20 anos mais jovem, eu estaria pegando um monte de produtos, destruindo as coisas e fugindo. Mas todo mundo era muito passivo”, ele disse. “As pessoas só queriam comprar suas refeições congeladas, jantar, ir pra cama e voltar ao trabalho no outro dia. Ninguém parecia interessado em se revoltar.”

Mas então os tumultos começaram. Primeiro, caos nos protestos de estudantes em 2010, depois, os saques espontâneos que varreram o Reino Unido depois que a polícia atirou em Mark Duggan em 2011. Esses eventos da vida real alimentaram as criações em miniatura de Cauty, batizadas com nomes como “Off Wiv Their Heads” (o Príncipe Charles e sua esposa Camila sendo arrancado de um carro pelos manifestantes, prontos para a execução), “Edward Woollard Thinking” (com o estudante, que atirou um extintor de incêndio do alto de um prédio na polícia, usando uma balaclava sentado sozinho no topo de uma torre) e “The Ritual Hanging of Nick Clegg” (com o político britânico sendo enforcado).

Eu me encontrei com o Jimmy na L-13 Gallery em Hoxton, Londres, onde “The Aftermath Dislocation Principle Part One” ficou em exposição até domingo passado. Agora, a peça será levada para a Galeria Piet Hein Eek em Eindhoven, Holanda, onde ficará em exposição pelos próximos quatro meses.

VICE: Suas obras da série “Riot in a Jam Jar” são em geral muito engraçadas, mas há algo perturbador na escala de “The Aftermath Dislocation Principle”. É opressivo.
Jimmy Cauty: Bom, há algumas piadas ali – não consigo parar com as piadas. Mas, sim, a Jam Jar era ligeiramente mais divertida. Essa série é diferente, não há violência acontecendo. Obviamente, alguma violência aconteceu, mas você não sabe o que exatamente, ou como tudo começou.

Como é trabalhar com miniatura?
Enlouquecedor. Absolutamente enlouquecedor. Que dizer, estou velho – mal consigo ver. Tenho dois modelistas treinados, caras jovens formados nisso, trabalhando comigo. Uma garota chamada Sophia pintou todos os policiais. Outro dia, estávamos fazendo uns cabos elétricos e eu estava fazendo isso [imita segurar um fio]: “Pega isso aqui pra mim?”, porque eu não estava vendo. E ela disse: “Você não está segurando nada, Jimmy”.

O que atrai você no tema da insurreição civil?
Sempre pensei em mim mesmo como uma pessoa anti-establishment, mesmo nunca tendo participado de um tumulto desses. Sempre tive a sorte de evitá-los. Mas sempre gostei da ideia da dissidência. Ou simplesmente de dizer não para O Sistema. Acho que eu devia ter crescido e superado isso, porque não existe um Sistema.

Existem vários.
Bom, exatamente. Mas ainda gosto da ideia de dissidência, e essa é uma maneira de fazer isso sem acabar sendo espancado ou preso. Não sou um ativista de verdade – sou meio que um ativista de sofá, em escala 1:87.

Notei que as lojas de fast food se deram mal – há um McDonald’s destruído, um Burger King, um Chicken Cottage…
[Risos] Não sei por quê. Alvos fáceis, suponho. Mas há algo de satisfatório nisso, especialmente em destruir o Chicken Cottage. Eles raramente se destacam, né? E você vê as lojas deles por toda parte. Eles nem parecem uma cadeia de restaurantes, mas, provavelmente, sejam propriedade da Tate & Lyle ou da Coca-Cola.

De onde veio o título?
O Steve [Lowe, dono da galeria L-13] pensou no título. Eu não conseguia lembrar disso por nada, tive que decorar. É estranho – por muito tempo não tive um nome porque não tinha uma narrativa. Passei a maior parte dos nove meses construindo a paisagem e a narrativa só veio no final, quando comecei a colocar as pessoas. Acontece que todos os revoltosos tinham desaparecido – não sabemos por quê – e toda a polícia estava do lado de fora da mesa, olhando por cima da borda.

Eles estão conscientes, pela primeira vez, de que há um fim para o mundo deles. Eles derrubaram o quarto muro. Nas peças da Jam Jar, o mundo está contido, eles não estão interessados nesta dimensão. Mas no rescaldo da revolta, eles estão subitamente conscientes da realidade em que estão. É possível chegar a um lugar onde todos os dissidentes foram destruídos. Então, eles se veem vivendo num perfeito estado policial. Mas isso na verdade é muito chato; não há nada para fazer.

Parece que você tem pena deles.
Sim, há um certo pathos aqui… bom, eles são pessoas no final das contas. Não tenho nada contra a polícia, na verdade – eles estão cientes de sua situação.

É a Rainha ali?
Bom, ia ser a Rainha, mas digo que é a Kate Middleton. Ela está sendo evacuada de helicóptero. Ela está tentando sair, mas não há esperança, porque o helicóptero é somente um brinquedo – não funciona de verdade. Mas é fácil imaginar um cenário de revolta onde a família real está sendo levada para alguma base em outro lugar.

Isso é o purgatório na verdade, não?
Exatamente. Não há escapatória. Ela nunca será evacuada. Ela vai ficar naquele estacionamento para sempre, esperando.

As coisas que acontecem nas ruas hoje parecem ter perdido um pouco a veia utópica.
Sim. Minha enteada estava no Occupy. Ela saiu de casa para morar na St. Paul, mas isso se deteriorou muito rápido e, em seis semanas, estava tudo acabado. A coisa – a parte empolgante do que eles estavam fazendo – mudou, foi para outro lugar. Mas foi incrível. Ela ficou lá até o final, quando eles mudaram da St. Paul para outra praça. Era horrível lá, um lamaçal, e havia todo tipo de brigas internas entre as diferentes facções – os jovens e os velhos. Uma vergonha, mas isso acontece.

Há espaço para o otimismo?
Há sim, há muita esperança. Essa coisa brilhante e incrível pode aparecer em qualquer lugar. Nos 1960, isso continuou por muito tempo. Algo vai emergir dos escombros do Occupy, algo bom. [Minha enteada] viu muita coisa. Era tudo uma questão de ideias – conversar com as pessoas, fazer as coisas acontecerem. Mas você tem que seguir em frente, sempre.

O que vai acontecer com o “The Aftermath” depois? Não parece uma coisa muito fácil de vender, imagino.
Você quer comprar?

Quanto é?
Bom, não sei! Quando isso voltar da Holanda, quero arranjar um lugar legal para deixá-lo. Não quero que isso vá direto para um depósito – quero que isso dê um bom passeio por aí, faça algumas coisas. Vá para algumas outras galeiras. Falamos em montar uma vila modelo de verdade em algum lugar. Sabe, um lugar com uma catraca – as pessoas iam poder entrar, por cinco pratas cada, em dias determinados. Só estou pensando alto. O que você faz com uma coisa dessas? É meio que um monstro, na verdade.

Sim. E quanto custam os Jam Jars?
Esses custam 250 libras (pouco mais de 880 reais). Algumas pessoas – pessoas do mundo da arte, ou quem sabe quanto trabalho coloquei nesses potes – dizem que está barato demais. Mas minha irmã veio me visitar outro dia e perguntou por quanto eu esperava vender essas obras. Eu disse que por algo entre 250 e 400 libras. Ela começou a rir: “Você espera que alguém pague tudo isso por um pote de geleia?”.

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