Música

O J Mascis Consegue Tocar os Instrumentos Mais Bananões Sem Ser Um Banana Completo

Com o seu novo disco solo, Tied to a Star, lançado pela Sub Pop Records, 2014 prova-se como um ano muito atarefado para J Mascis. Seguindo o lançamento de The Golden Age of Glitter do Sweet Apple e o LP colaborativo do Heavy Blanket com o Earthless, In a Dutch Haze, o álbum é o lançamento mais íntimo e pessoal que J fez este ano. Tied to a Star dá seguimento ao seu disco solo de 2011, começando praticamente onde Several Shades of Why terminou. O que marca Tied to a Star – algo que combina com seu nome – é sua aura meio viajandona perdida no espaço. Atmosférico sem uma saturação exagerada de reverbs, o álbum de dez faixas flui sem muito esforço de faixa a faixa, resultando em modestos 41 minutos de música. Enquanto Several Shades of Why contava com oito colaboradores além de J, o novo disco é quase que completamente um trabalho só dele. Conhecido por suas entrevistas esquisitas e indiferentes, arriscamos adicionar mais um item a essa longa lista de conversas estranhas e batemos um papo com o J sobre equipamentos, hardcore e sua carreira recorrente fazendo pontas em filmes.

Noisey: Em entrevistas mais antigas você afirmou que “a guitarra é um instrumento tão bananão” e que tocar em volumes altíssimos é “o único jeito de tornar a coisa semi-tolerável”. Você ainda pensa assim ou tem passado a gostar mais?
J Mascis: Hm, não. Ainda penso do mesmo jeito.

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Mas seus discos solo são predominantemente acústicos. Como você lida com isso já que não dá pra tocar tão alto assim?
Ah, cê sabe, acho que é só outra pegada. Não encaro tudo do mesmo jeito. Tá ligado que eu gosto mais de música acústica?

Você acha que música acústica é coisa de banana também?
Com certeza.

Quanto a tocar ao vivo, o que você acha de seu trampo solo? Com isso que você disse do volume nem consigo imaginar você curtindo tocar esse material.
Não, eu prefiro tocar com uma banda. É mais complicado tocar sozinho porque o som não é tão alto e você acaba se responsabilizando por entreter todo mundo por conta própria.

As pessoas te identificam mais como guitarrista, mas você já falou sobre curtir mais bateria do que guitarra. Você ainda se sente assim ou passou a gostar da mais da guitarra?
É, acho que curto mais a guitarra agora.

Você prefere a guitarra? Quando você acha que–
[Interrompendo] Não, não. Gosto mais dela do que antes. Mas bateria é só bem mais divertida de tocar.

Você se sente restringido pela bateria?
Não. [pausa] O que você quer dizer com isso?

Conversei com alguns bateristas que também tocam guitarra, e geralmente eles dizem que tocar guitarra é mais libertador pra eles.
Ah não. Eu toco bateria mais ou menos do mesmo jeito que toco os leads de guitarra. Meio como se fossem “leads de bateria”. Não quero ser responsável por todo o ritmo. Gosto de tocar com bons baixistas ou guitarristas que possam segurar a bronca. Não curto ser responsável por isso.

Você sempre foi bem sincero sobre como, antes do Dinosaur Jr., você não sabia tocar guitarra, e só pegou o instrumento para começar a banda. Como você se ensinou a tocar?
Acho que simplesmente comecei a compor, sabe. Onde quer que meus dedos fossem na hora. Eu não usava muitos acordes com barra, de primeira eu nem sabia tocá-los. Eu só colocava meus dedos ali e achava uns acordes. Estava mais interessado em fazer a coisa rolar, botar a banda pra frente, compor alguma coisa.

Além dos acordes, seu estilo é marcado por uma noção forte de escalas de blues. Você se viu simplesmente seguindo esse rumo ao só juntar notas que soavam bem em uma corda?
Sempre toquei solos assim que comecei a tocar guitarra, ao invés de acordes. Mas antes mesmo de começar a tocar, como quando emprestava a guitarra de alguém, eu meio que só tocava solos acompanhando alguns discos. Meio que fuçando ali, pra ver o que achava que soava bem.

Quem eram os guitarristas que você tomava como inspiração até criar seu próprio estilo?
Ron Asheton e Greg Sage [pausa] e Keith Richards e Mick Taylor eram meio que o que eu mais curtia quando comecei a tocar. Coisas que pareciam ao meu alcance, que podia tentar e aproveitar uns elementos e criar meu próprio estilo. Um cara tipo Hendrix parecia bom demais até pra eu entender o que ele fazia, saca?

Em termos de equipamento, você obviamente é um entusiasta de material vintage – Marshalls, Hi-Watts – que é uma coisa meio complicada no meio das turnês, já que são tão frágeis. Você costuma ter problemas com isso durante as turnês?
Acho que os equipamentos novos também não são tão duráveis. Acho que as coisas velhas, assim que você já as tenha amaciado o bastante, funcionam bem. Parece que, tipo, não usam elas há muito tempo pra tocar alto como eu toco, então você tem que sacodir a poeira dali de alguma forma e se livrar dos pontos fracos. Se fizer isso umas três vezes e fazer funcionar direito, parece que tá tudo bem.

Seu esquema atual é bem complexo, com quatro amplificadores diferentes para chegar no seu tom. Como você chegou a essa configuração?
Eles são todos parte do quebra-cabeça, saca? Todos só acabaram ficando equilibrados de um jeito que eu curto com o passar dos anos. Quando tocamos e preciso alugar amplificadores, o som sempre piora muito, porque é difícil conseguir amplificadores bons mesmo. Sempre é meio deprê tocar num ampli diferente.

Quando você começou na guitarra, pegou de cara um ampli valvulado dos bons ou começou com algo mais barato?
Tive uma longa sucessão de equipamentos, no começo. Tipo, não me sentia digno de ter um Marshall ou qualquer coisa dessas. Eu ainda não era bom o bastante. Não tinha o dinheiro também, mas não me sentia digno. De primeira eu tinha um V4 Ampeg e estourei ele umas três vezes no primeiro mês de uso. Então o devolvi e peguei um Yamaha que era horrível. Eu pensava “o Husker Du usava um desses, então talvez seja bom”. Foi aí que comecei a usar tampões nos ouvidos porque o bagulho soava tão mal que me machucava. Aí consegui esse ampli bizarro da Acoustic, meio que uma cópia de um Boogie. E então um Carvin, que também era péssimo. E finalmente, um Marshall, que combinei com o Acoustic. Era meio que uma boa dupla.

Você começou tocando em bandas de hardcore, mas se afastou desse mundo desde então. Você ainda escuta algo do gênero?
Escuto as mesmas bandas da época em que era moleque. Nada de novo, na real. Digo, eu tenho milhares discos. Eu comprava qualquer coisa de hardcore que saía na época. Então tenho mesmo uma tonelada de coisas pra ouvir.

Quando você percebeu que estava se afastando dessa cena?
Foi meio que abrupto. Parecia que a coisa tinha acabado. Em 83, eu acho. Parecia que todo mundo tinha parado, cê sabe, o Minor Threat virou o Fugazi e o Negative Approach virou o Laughing Hyenas. Parecia que a coisa tinha parado um dia e acabou, era hora de algo novo.

Então, pra você, a cena hardcore atual só regurgita aquilo que deveria ter acabado?
É, não sei nada do que tá rolando. Como se de um dia pro outro fosse como um momento no tempo que se reverteu. Então, é, sei que o hardcore seguiu em frente, musicalmente, mas eu não o acompanhei.

Há algum tipo de música moderna que você escute, ou, como no caso do hardcore, você só ouve os clássicos?

Sim, escuto muita coisa com a esperança de achar algo bom. Sempre tem coisa boa saindo. Ultimamente eu tenho ouvido o disco do Luluc. É a coisa mais recente que tenho ouvido e antes disso foi o Steve Gunn. São as duas coisas novas que curti mesmo.

Saindo do tópico música, como você começou a atuar?
Sabe como é, alguém me convidou aqui e ali, e eu o faço só porque alguém me convidou e… Não sei, não acho que eu seja bom nisso. Não penso muito sobre, mas é divertido, se alguém me chama.

Então você é um puta cinéfilo?
Na real, minha atenção só funciona pra TV, ou algo assim. Sabe como é, a TV é mais longa e mais curta que um filme, já os filmes, pra mim, são muito curtos, mas muito longos.

Seu filho está entrando em uma idade em que se consome muita mídia, você tem tentado guiá-lo em seus gostos?
Eu tento influenciar ele nesse tipo de coisa, e então eu – é meio que uma via de mão-dupla – cê sabe, acabo aprendendo sobre Pokémon e coisas que nunca ouvi falar.

Siga Joe Yanick no Twitter – @JoeYanick

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Tradução: Thiago “Índio” Silva

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