Fotografia por Marta Parszeniew
No teatro, os papéis que cada actor interpreta marcam a sua vida. O miúdo de Hamlet de hoje será o velho devastado do Rei Lear de amanhã. Se os actores mais velhos gostam de contar histórias, bem, é porque tudo passa demasiado rápido. O Philip Seymour Hoffman, que foi encontrado morto, no domingo, na sua casa em Nova Iorque depois de uma presumível overdose de heroína, era um actor que cresceu no teatro, um homem que conseguia conquistar a audiência e mostrar-lhes algo real. Aposto que teria interpretado o Rei Lear como ninguém.
O Seymour Hoffman surgiu numa altura em que parecia obrigatório ter três nomes para que um actor fosse considerado verdadeiramente promissor. Ao lado de John C. Reilly e William H. Macy, participou no Boogie Nights de Paul Thomas Anderson, onde interpretou o papel de Scotty J, o puto pouco cool apaixonado pelo Dirk Diggler de Mark Wahlberg, a estrela porno com uma pila do tamanho de um pitão. Foi o primeiro sinal de que estava ali um actor disposto a mostrar, chegando a limites por vezes quase insuportáveis, aquilo que é inato ao seres humanos considerados outsiders, e aquilo que é a luta com problemas de comunicação e a inabilidade para encontrar a felicidade.
Nesta cena, o Scotty mostra ao Dirk o seu novo carro, que comprou só para o impressionar e depois atira-se aos beijos para cima dele. Fala muito rápido, tropeça nas palavras, e nesses momentos antes de ser delicadamente rejeitado, o Seymour Hoffman consegue encarnar qualquer pessoa que tenha gostado de alguém e cujo amor não foi correspondido. Está bêbado e desesperado e acaba a justificar a investida na bebedeira e no desespero, como se aquele acto não significasse nada — quando na verdade significa tudo. Mais do que isto, é a sexualidade da personagem – um segredo difícil e solitário – e o medo e a fantasia que daí advém, que o Seymour Hoffman nos mostra enquanto está sozinho no carro, com o queixo caído, a lamentar-se enquanto se chama de “idiota” vezes sem fim. Somos todos idiotas quando tentamos mostrar o nosso amor às pessoas de quem gostamos, e ninguém nos poderia mostrar isto como o Philip Seymour Hoffman.
Um ano depois, no Happiness de Todd Solondz, interpretou Allen, que era tipo a sua personagem de Boogie Nights, mas mais tarado. O Allen telefonava a mulheres — a uma em particular — obsessivamente, enquanto batia uma numa épica demonstração de autoflagelação. Esta personagem está tão triste e distante da felicidade como o Scotty J., mas é tão creepy e sinistro como desesperado. Dizem que os actores devem usar todas as suas armas, e o Seymour Hoffman — com a sua pele clara, barriga e um ar vagamente ruivo — conseguia usar as suas características físicas como ninguém. Parece suar constantemente e respirar profundamente durante todo o filme. Nesta cena, a mulher que assedia constantemente descobre-lhe a careca e convida-o para o seu apartamento, apenas para lhe dizer que ele não faz o seu género — depois de o ver a arrastar as mãos pelo sofá, num ritmo agonizante, ao encontro dela.
O Seymour Hoffman consegue, no entanto, reverter a quase inimaginável frustração que encarnou em Happiness no seu papel do assistente Bradnt em The Big Lebowski. Aqui está ele a mostrar ao Dude a casa do verdadeiro Lebowski, emitindo frases do género “sem os meios necessários para um meio necessário” com a ajuda das suas firmes bochechas, como se nada fosse. Em The Talented Mr. Ripley dá um salto para o folião snob Freddie Miles. Aqui apanha o Matt Damon a espiar o Jude Law enquanto este se enrosca com a Gwyneth. O brilhante desta cena é que, por um segundo, parece genuinamente preocupado. Depois, volta ao seu estado, como um tipo de Harvard a desgarrar um coitado qualquer, atirando um riso antes de lhe perguntar — duas vezes —, “então Tommy, como vai a espreitadela?”, levantando o copo como sinal da humilhação final do pobre Damon. É o tipo de coisa que nos faz contorcer de felicidade.
O PSH sempre conseguiu ser tão engraçado quanto desconcertante. Podem dizer o que quiserem sobre os “grandes homens” da interpretação, mas ninguém conseguia provocar tantos LOL como o Marlon Brando. O Robert De Niro gosta de se armar em engraçado mas não há um único Meet The Parents / Fockers que nos consiga entreter com o Ben Stiller por ali a murmurar no background. Mais valia ter tirado algumas lições do livro do Phil. Aqui está ele em Along Came Polly, a berrar “Dança da Chuva!”, “Chocolate Branco!”, “Deixa que chova!” até começar a arfar por uma pausa no jogo numa das mais engraçadas cenas de basquete do cinema. O Along Came Polly pode não figurar na lista dos grandes feitos da brilhante carreira do Seymour Hoffman, mas é a prova em como qualquer filme pode ser muito melhorado — e neste caso ser arrastado para o reino do entretenimento — pelo grande Hoffman.
Enquanto foi envelhecendo, foram-lhe dados papéis maiores que o mostravam ainda mais. Em The Master chegou a mastigar o cenário, levando o teatro ao cinema na pele de Lancaster Dodd, inspitado em L. Ron Hubbard. Nesta cena, encarna uma aura de Stanley Kubrick ao cantarolar uma musiqueta, ao estilo de uma velha estrela de bar comandando a plateia. Essa dimensão teatral está presente aqui em Charlie Wilson’s War, no qual ele diz ao seu chefe que sabe que ele anda a “dignificar” a mulher de outro homem “no rabo”, antes de partir a janela do escritório e sair porta fora.
Em Synecdoche, New York, o Seymour Hoffman carrega um filme longo, sinuoso, ocasionalmente brilhante e várias vezes surpreendente do início ao fim, carregando-o aos ombros como Atlas carrega o mundo.
Apesar de ser conhecido pelos quilos a mais, o Seymour Hoffman tinha um talento que poucos actores possuem. Conseguia quase miraculosamente alterar o corpo ajustando-o a cada papel. Não através de dietas radicais que ganham Óscares, mas sim através da interpretação. Há uns anos atrás, enquanto via o pequeno e delicado Mark Rylance em Jerusalem, questionei-me sobre o que o fazia parecer o homem mais alto do mundo em palco. Tanto é que o grande Seymour Hoffman ganhou o Óscar por interpretar o pequeno e atrevido Truman Capote com uma perícia física e emocional tamanha que acreditaríamos que ele era um rapazito em vez de um urso.
No papel do grande crítico de música Lester Bangs em Almost Famous, o Seymour Hoffman afirma: “a verdadeira arte baseia-se em culpa e saudade”. Muitas vezes, era nisso que se baseavam as interpretações do Seymour Hoffman. “Autenticidade” é uma palavra atirada ao ar muitas vezes no mundo do teatro; é um conceito vago que engloba muitas coisas, incluindo a capacidade de não dramatizar demais, de não ser artificial ou demasiado preocupado com o que os outros possam pensar. É difícil chegar lá, mas muito fácil perceber quando está mesmo à nossa frente. Quando vemos o Philip Seymour Hoffman, estamos a ver algo verdadeiro. Em relação à sua carreira, afirmou uma vez: “só queria ir de bicicleta para o teatro. Isso é que era romântico para mim”. É uma frase que resume a possibilidade da criação, do optimismo de fazer com que algo artístico nasça. Pensar que ele nunca mais o vai fazer é mesmo muito triste.
O Philip Seymour Hoffman deixou a sua namorada Mimi O’Donnell e três filhos, Tallulah, Willa e Cooper. Tinha 46 anos.
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