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O que aprendi com Kim Gordon depois de ler “A Miúda da Banda” em dois dias

Kim Gordon toca baixo em cima de uns saltos altos como ninguém. Com uma pinta estratosférica e power em doses proporcionais à dissonância do som dos Sonic Youth, aos 60 anos ainda tem uma silhueta de fazer inveja a muita moça de 30. Mas tem muito mais do que isso, como se comprova no livro que escreveu em 2014 e que acaba de sair em português: A Miúda da Banda.

Desde logo, marca pontos pela escrita: uma espécie de raio-X às suas memórias e emoções mais profundas. Afinal, não será estranho que escreva como toca, com as vísceras todas ao barulho. Depois, destaca-se pelo seu percurso, nem sempre fácil, mas – como vamos percebendo pelas páginas fora – com a cabeça e a coluna vertebral bem no sítio, sem se deslumbrar nem distrair pelo caminho. 

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A miúda da banda referida no título tornou-se mulher e revela-se uma senhora. Nunca lhe interessou o showbiz e menos ainda o show off: só queria fazer a sua cena – e fez. O que, no caso dela, se foi dividindo (multiplicando) entre a música e as artes visuais.

Kim no baixo. Um clássico intemporal. Foto via Wikimedia.

É dos 30 anos que passou com a banda (27 dos quais casada com Thurston Moore, guitarrista e também ele membro fundador dos Sonic Youth) que fala este livro. Mas não só: da infância e juventude na Califórnia dos anos 60 e 70 à relação complicada com o irmão, a ida para Nova Iorque, os homens da sua vida, os amigos e os livros que a marcaram (ou não tivesse sido o seu primeiro trabalho numa livraria), as histórias por detrás das canções, a sua relação aberta com a música, a pintura e a moda, e a arte mais difícil de todas que foi conciliar a maternidade com os Sonic Youth, os sucessivos discos e digressões, e, como se não bastasse, ainda uns quantos projectos em paralelo. Por fim, e mesmo só no fim, desvenda a traição que acabou com o seu casamento.

It’s only rock’n’roll but she likes it. Bem, quase sempre. Embora tenha havido momentos em que não estava a gostar assim tanto como poderiam pensar os milhares de olhos postos nos Sonic Youth, em cima do palco, quais deuses do rock mais experimentalista e senhores do alargamento de fronteiras sónicas. Um desses momentos foi o que Kim Gordon escolheu para começar este livro: o derradeiro concerto da banda dela e de Thurston Moore, Lee Ranaldo e Steve Shelley, após três décadas a fazerem música juntos.

E NÃO FORAM FELIZES PARA SEMPRE

São Paulo, Novembro de 2011. “Ao entrarmos em palco, para o nosso último concerto, a noite era toda em torno dos rapazes. Exteriormente estava toda a gente com o mesmo aspecto dos últimos trinta anos. Por dentro, era outra história”. 

São estas as primeiras linhas do livro, que já fazem suspeitar que nem tudo é o que parece. Mas a revelação bombástica vem umas páginas adiante: “O casal que era visto por toda a gente como algo precioso, o casal que dera esperança a jovens músicos, fazendo-os acreditar que era possível uma relação sobreviver ao mundo louco do rock’n’roll, era agora mais um lugar-comum das relações falhadas: um homem com uma crise de meia-idade, outra mulher, uma vida dupla”.

Ui, a coisa promete. Já se sabe que não é fácil escrever sobre o fim de uma história de amor, sobretudo quando é a nossa. Mas Kim Gordon consegue e até o faz com bastante classe. Mais difícil ainda: com uma integridade notável, sem cair na maledicência nem autocomiseração, juízos morais reduzidos a mínimos olímpicos, num esforço por se cingir aos factos e ao impacto que tiveram nela.

E se nesse momento inicial fica bem clara a tensão e a raiva que lhe chispava dos olhos à simples visão do ex-marido, com as feridas da recente separação ainda em carne viva e o palco a tornar-se de repente demasiado pequeno para os dois, por outro lado, ao longo de todo o livro, não deixa de mencionar a cumplicidade que a uniu a Thurston Moore em tempos idos, as afinidades estéticas e a admiração mútua, o pai dedicado que ele foi para a filha de ambos. 

Há que lembrar que isto não são mexericos: são memórias. Contudo, no fim de contas, a conclusão é inevitável: o menino bonito da banda não fica muito bem na fotografia. Ironias da vida: Kim é a little trouble girl, mas pelos vistos Thurston é que arranjou sarilhos. E dos grandes.

Kim Gordon começa, então, pelo fim. Mas depois volta atrás, com a agilidade de quem não só é capaz de transmitir o que lhe vai na alma através das cordas de uma guitarra como também domina as técnicas da narração para manter os leitores agarrados à sua prosa.

E já não é de agora que Kim trata a caneta por tu: desde o dia em que assinou o seu primeiro artigo para a revista Real Life – acerca dos laços masculinos criados em palco pelos músicos – e em todas as letras dos Sonic Youth que ainda viria a escrever foi dando provas nessa arte de bem juntar palavras. Nestas 300 páginas, que passam quase à velocidade de um refrão, vamos mergulhando com gosto nos seus sentimentos e vivências. Num estilo escorreito e visual q.b., apanha as várias camadas desse mil-folhas que é a vida, sem se ficar pela cobertura de açúcar.

Little Troube Girl? Foto via Wikimedia.

UMA FAMÍLIA ON THE ROAD E A DOENÇA DO IRMÃO

Há muito mais história para contar, além da sua relação com Thurston Moore. A começar pela infância. A combinação entre um irmão mais velho que lhe fazia a vida negra e uns pais adeptos da educação com rédea solta pode dar mau resultado. A pequena Kim que o diga.

Atrás da imagem todo-poderosa em palco, Kim confessa-se, afinal, tímida e hipersensível. Foi esse o trampolim que encontrou para sair da sombra de Keller, personagem cativante e intrigante com quem criou uma relação tão difícil como intensa. Kim descreve vários episódios marcantes ocorridos até se descobrir a doença mental do irmão e a forma como isso abalou a família.

Durante a adolescência, a vida de Kim Gordon foi enriquecida com sucessivas viagens, saltitando de país e de escola: até à Secundária deixou a sua Los Angeles natal para ir viver com os pais e irmão, primeiro no Hawaii, depois em Hong Kong, expandindo o seu mundo conhecido muito para além da Califórnia. Não admira que quando se mudou para Nova Iorque, em 1980, já levasse o bichinho cosmopolita na bagagem.

VÊ TAMBÉM: Ian Svenonius entrevista Kim Gordon e Thurston Moore

AS HISTÓRIAS POR DETRÁS DAS CANÇÕES

Estiveram para se chamar Male Bonding, Red Milk ou Arcadians. Felizmente não aconteceu e, graças a Thurston Moore, podemos todos suspirar de alívio. “Assim que o Thurston se lembrou de Sonic Youth, soubemos simultaneamente que tipo de música queríamos fazer”, conta. E se um verso é capaz de prever o futuro, The days we spend go on and on seria, sem dúvida, premonitório dos 30 anos seguintes da banda.

O que não invalida que lá para 1995 não tenham decidido mudar de nome para Washing Machine. A editora achou que tinham enlouquecido e, como era previsível, recusou. Então, usaram-no como título de um álbum.

Boa parte deste livro é dedicado à música: disco a disco, vai-se traçando o percurso dos Sonic Youth, as circunstâncias que estiveram na origem de cada registo e o onde, quando, como e porquê de algumas músicas: quem é a Karen de “Tunic (Song for Karen)”, por exemplo; em homenagem de quem foram escritas “JC” e “100%”, ou de onde veio o título “Bad Moon Rising”.

E se, por esta altura, já estão a desconfiar que a “Little Trouble Girl” possa ser Coco Gordon Moore, a filha do casal sónico-já-não-tão-jovem-assim… enganam-se. Mas para ficarem a saber vão ter mesmo de pegar no livro e ler. É da maneira que descobrem também as maradices de Courtney Love que deixaram Kim Gordon desde logo com os dois pés atrás em relação a ela, a embirração crónica que sempre teve com os Smashing Pumpkins, ou a inesperada confidência que lhe fez Kurt Cobain pouco antes de morrer.

COCO, UMA BEBÉ ROCK’N’ROLL

Coco Gordon Moore nasceu a 1 de Julho de 1994. “Sim, mudou as nossas vidas e, para mim, não existe ninguém mais importante. Mas a banda continuou a tocar”. Kim Gordon tinha 40 anos (Thurston Moore tinha 35) e os Sonic Youth estavam em grande forma, a arrebatar plateias e a proporcionar muito e bom mosh por esse mundo fora. Resultado: fizeram digressões inteiras com a garota atrás e siga para bingo. Roquenrol a quanto obrigas.

A catraia tinha apenas dois meses quando voaram os três para Los Angeles para filmar o vídeo da cover dos Carpenters, “Superstar(“Pingar leite durante a filmagem de um videoclipe não é muito rock!”, confessa Kim Gordon). Aos 10 meses lá levaram a gaiata até Memphis para começarem a trabalhar num novo álbum; para o Lolapalooza, a banda viajou com um berço portátil na parte de trás do autocarro; estava a minipessoinha a dar os primeiros passos quando teve início a digressão com os R.E.M. E aos 18 meses andou pelo Sudeste Asiático, com a pandilha dos pais e os Beastie Boys. Não é para todos. A sério que ainda se queixam da logística quando vão de férias para o Algarve uma semana?

“Vocês não sabem o que é ser vossa filha”, queixou-se Coco à mãe, quando andava na escola preparatória. E ela também não fazia ideia que, meia dúzia de anos volvidos, já estaria no mesmo caminho, a dar a voz à sua própria banda. Se alguma vez a entrevistarem, fica o conselho: não lhe perguntem como é ser uma rapariga no mundo do rock. Nunca se sabe se herdou o sangue-frio da mãe ou o sangue quente do pai.

“A Miúda da Banda”, de Kim Gordon (tradução de C. Santos), acaba de ser editado em Portugal pela Bertrand Editora.

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