O que gastam realmente os países europeus em “copos e mulheres”

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Alemanha e adaptado pela VICE Portugal.

E foi uma bomba! Já todos ouvimos, lemos e comentámos (e partilhámos memes) as palavras do senhor doutor presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, sobre os terríveis e esbanjadores europeus do Sul. No que toca a encontrar uma forma de irritar o maior número de pessoas ao mesmo tempo só com uma frase, este holandês obviamente arranjou a fórmula certa: “Não posso gastar todo o meu dinheiro em bebida e mulheres e depois pedir ajuda”.

Videos by VICE

As declarações foram prestadas ao diário alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung e, nas mesmas, Dijsselbloem assegurava que quem exige solidariedade “também tem obrigações”. “Não posso gastar todo o meu dinheiro em bebida e mulheres e depois pedir ajuda. Este princípio aplica-se a nível pessoal, local, nacional e inclusive a nível europeu”, defendeu o responsável.

As reacções dos países do Sul, a quem, claramente, o presidente do Eurogrupo se dirigia, não se fizeram esperar e foram pautadas por um misto de choque, repugno e pedidos de demissão imediata, principalmente depois do também ministro das Finanças da Holanda ter recusado, em pleno Parlamento Europeu, apresentar desculpas.


VÊ TAMBÉM: “A Comissão Europeia e o lobby da indústria da Defesa


Em Portugal, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse à RTP que considerava “estas declarações muito infelizes e, do ponto de vista português, absolutamente inaceitáveis”. E acrescentou: “Jeroen Dijsselbloem continua, passados estes anos todos, sem compreender o que verdadeiramente se passou. O que se passou com países como Portugal, Espanha ou Irlanda não foi termos gasto dinheiro a mais. Nós, como outros países vulneráveis, sofremos os efeitos negativos da maior crise mundial desde os tempos da grande depressão e as consequências da Europa e a sua união económica e monetária não estar suficientemente habilitada com os instrumentos que nos permitissem responder a todos aos choques que enfrentámos”.

Para além disto, claro, choveram acusações de xenofobia e machismo, em Itália chamaram-lhe estúpido e na Grécia acusaram-no de estar a “aprofundar o fosso entre o Norte e o Sul”. Nos últimos dias, Dijsselbloem tem tentado apaziguar os ânimos e já veio dizer que as suas declarações não se referiam apenas aos países periféricos e alvos de ajuda comunitária em anos recentes. 

No entanto, sendo a União Europeia um grupo de amigos (é não é?), não é também sabido que, por vezes, cabe aos amigos dizerem-nos a verdade? Mas será a verdade do holandês mesmo verdadeira? Para além do gritante sexismo e do preconceito nível máximo, como incansáveis colectores de dados que somos, atirámo-nos à investigação. Qual seria o país da União Europeia a gastar mais dinheiro em álcool? E em mulheres?

Depois de horas de complicadas escavações arqueológicas nos arquivos provincianos da sabedoria medieval europeia, que envolveram análises a números da agência Eurostat, OMS e Federação Alemã da Indústria de Bebidas Espirituosas, podemos agora apresentar alguns resultados. Infelizmente, nem todos são fiáveis e nem todos os países estão representados, mas foi o que se conseguiu.

“COPOS”

Consumo de litros per capita (2014) via CrazyPhunk | Wikimedia | CC BY-SA 3.0

“MULHERES”

Percentagem do impacto de actividades ilegais, como a prostituição e o tráfico de drogas no PIB. Infelizmente, foi impossível obter números absolutamente confiáveis relativos à economia paralela gerada pela falta de legalização. CrazyPhunk | Wikimedia | CC BY-SA 3.0

CONCLUSÃO

Dijsselbloem devia ter vergonha. Não só pela tentativa de generalizar, fazendo-se valer de preconceitos misóginos, mas também porque, na verdade, está mesmo enganado. Não é, afinal, assim tão linear que sejas um europeu do Norte, trabalhador e sóbrio, e um bêbado do Sul todo fodido a viver de subsídios. A verdade é, como sempre, muito mais complexa.

Ou, simplificando, de acordo com os dados que conseguimos recolher, a coisa divide-se: mais copos no norte, mais mulheres no Sul. E é provavelmente por isso que o holandês Dijsselbloem é uma pessoa tão mal-humorada e ressabiado em relação aos povos cá de baixo. 

Thank for your puchase!
You have successfully purchased.