Em 2012, o correspondente da VICE Aris Roussinos viajou até a região do Nilo Azul no Sudão, onde passou um mês fazendo amizades, jogando damas e sendo bombardeado junto com os caras do SPLA (o Exército Popular de Libertação do Sudão, sua ala política é o SPLM, o Movimento Popular de Libertação do Sudão, juntos atendem pela sigla SPLA/M) – um grupo rebelde que continua combatendo o presidente Omar al-Bashir, que quer transformar o Sudão num estado islâmico árabe. No artigo abaixo e no vídeo acima ele conta como foi esse mês.
NA ZONA VERMELHA COM OS REBELDES DO NILO AZUL DO SUDÃO
Videos by VICE
Enquanto os conflitos em andamento na Líbia, Egito e Síria têm atraído centenas de correspondentes de guerras estabelecidos e também jovens freelancers, outras guerras, como a rebelião no estado do Nilo Azul no Sudão, são completamente ignoradas pela mídia mundial. Acho que algumas guerras são mais fáceis de vender que outras – a Líbia tem todo o brilho de Nicola Formichetti, enquanto o Sudão só tem a breguice do velho John McCririck. Passei um mês morando com os rebeldes do Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA) na linha de frente no Nilo Azul, onde eu era o único jornalista que eles já tinham visto.
O Nilo Azul é uma das regiões mais isoladas da Terra. Não há nenhuma estrada pavimentada entrando ou saindo da província, então os rebeldes precisam entalhar trilhas de terra com tratores no meio da floresta fechada, mudando as rotas a cada duas semanas para estar sempre à frente da Força Aérea do Sudão, que curte bombardear literalmente qualquer veículo que avista. Entrar de carro no território rebelde significa sofrer um dia inteiro por uma rede de trilhas lamacentas, através de paisagens destruídas de vilas queimadas e abandonadas, e se esconder sob as árvores sempre que um bombardeiro do governo voa acima. Uma vida tranquila.
Todos os rebeldes carregam amuletos mágicos, saquinhos de couro com ervas sagradas que, segundo eles, podem desviar as balas dos inimigos. Mas todos vão dizer que não há mágica que possa proteger uma pessoa dos Antonovs, os aviões de carga feitos na Rússia que o governo sudanês usa como bombardeiros improvisados. Sempre que veem qualquer alvo, os aviadores rolam bombas para fora da rampa traseira dos Antonovs em direção ao alvo muitos e muitos metros abaixo. Um meio bastante impreciso de matar e destruir, já que os pilotos são incapazes de distinguir entre alvos militares e civis – um meio tão impreciso que é considerado crime de guerra pela lei internacional, mas coisas assim aparentemente são assuntos menores para o governo sudanês.
É uma experiência estranha ser bombardeado. Quem diria, né? Uma manhã eu estava tomando café com os oficiais quando ouvi o ronco lento de um Antonov acima. Os rebeldes congelaram. Com as xícaras de café ainda na mão, eles escaneavam o céu acima com uma curiosidade quase profissional, como se estivessem do lado de fora de um estádio olímpico antes da cerimônia de abertura, esperando pelo começo da apresentação dos fogos de artifício. Aí, sem uma palavra, todos correram para as trincheiras rasas em volta do acampamento. Quando as bombas – nove delas – explodiram inofensivamente na floresta alguns metros além do acampamento, eles saíram das trincheiras chacoalhando a poeira das fardas e voltaram calmamente para o café e seus jogos de baralho.
“É um risco da profissão”, disse um deles dando de ombros antes de me perguntar se eu sabia onde eles poderiam comprar mísseis antiaéreos, porque conseguir alguns explosivos militares letais de superfície-ar não deve ser problema para um jornalista freelacer, certo?
Os civis são um alvo mais fácil para os Antonovs do que os rebeldes e, para o governo, um alvo legítimo. Como todo exército de guerrilha, o SPLA depende dos poucos civis que sobraram no Nilo Azul para cultivar e criar sua comida, cortar lenha para a fogueira e fornecer água. O governo tem respondido a isso com uma lógica militar brutal e efetiva: bombardeando civis e queimando seus vilarejos, tentado, assim, matar os rebeldes de fome até a rendição. Quase toda a população civil do Nilo Azul fugiu para a segurança dos campos de refugiados da ONU além da fronteira.
Sem querer, a ONU se viu agindo como a única fonte de suprimentos dos rebeldes. As distribuições de comida para os civis desesperados nos campos são requisitadas pelos combatentes, que vivem numa dieta escassa de sorgo da USAID (a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e qualquer bicho selvagem que consigam acertar com suas Kalashnikovs. Quase todos os rebeldes vivem com suas famílias nos campos de refugiados e voltam para a guerra no intervalo de alguns dias.
Comboios de Toyotas Land Cruiser pesadamente armadas rugem pelos campos, mas os trabalhadores humanitários fazem vista grossa. Quem ia querer notar um caminhão cheio de rebeldes armados saindo para matar pessoas? Oficialmente, o SPLA não tem presença no Sudão do Sul. Na realidade, os rebeldes é que controlam os campos de refugiados.
A fronteira entre o Sudão do Sul e o Nilo Azul é simplesmente uma corda esticada através de uma trilha de terra, ocupada por alguns rebeldes entediados. Uma vez dentro do Nilo Azul, a guerra começa. Com pouco combustível, munição, comida e transporte, os rebeldes marcham pelas trilhas lamacentas para emboscar comboios do governo sempre que eles se movem, capturando sua preciosa carga de suprimentos. Os soldados do governo, a maioria deles recrutados na parte mais plana e árida do norte do Sudão, tentam ao máximo evitar qualquer confronto. Eles se amontoam nas bases cercadas de minas terrestres e atiram cegamente contra a floresta densa sempre que suspeitam de um ataque.
“Eles têm medo do mato”, um dos oficiais rebeldes me disse. “Eles acham que há rebeldes escondidos atrás de cada árvore. Se pelo menos eles saíssem dos acampamentos e nos enfrentassem como homens na floresta, nós venceríamos a guerra numa semana.” Mas as forças do governo continuam nos acampamentos, os rebeldes se movem entre as bases secretas e a floresta, e assim a guerra se arrasta. Como você deve ter percebido pela falta distinta de qualquer luta de verdade, há poucas baixas militares nos dois lados – os civis carregam todo o peso dessa pequena guerra cruel.
Em um dos vilarejos, Bellatoma, os rebeldes me mostraram o túmulo de 11 civis mortos quando os Antonovs do governo bombardearam o movimentado mercado local. Os sobreviventes despejaram os corpos dilacerados na cratera de uma das bombas, cobrindo a cova improvisada com galhos cheios de espinhos para deter os animais carniceiros, e depois fugiram para o outro lado da fronteira. Agora Bellatoma jaz abandonada, com suas cabanas de palha desmoronando com as chuvas de verão e as árvores pesadas com frutos que ninguém vai colher.
“O que as pessoas do Ocidente acham do Nilo Azul?”, um dos generais me pergunta. “Eles acham que estamos vencendo? Eles acham que estamos certos?” Não, eu disse, ninguém no Ocidente sequer pensa no Nilo Azul.
More
From VICE
-

Lectric XP4 750 folding ebike in Pine Green – Credit: Matt Jancer -

VICE -

(Photo by Al Pereira/Getty Images) -

(Photo by Chris DELMAS / AFP via Getty Images)