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A história do futebolista-bruxo que deu nome aos charros em Málaga

Conquistar a eternidade através de feitos futebolísticos é algo que poucos conseguem, mas ficar conhecido por dar nome às ganzas numa cidade está apenas ao alcance de mitos, como Cyrille Makanaky.

Por Pau Riera
27 Novembro 2017, 2:46pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE Sports.

Poucas personalidades no Mundo têm a categoria suficiente para influenciar a transformação de uma sociedade. O futebolista camaronês Cyrille Makanaky é uma delas... ainda que não propriamente pelas razões que seriam de esperar.

Makanaky, nascido em Douala, em 1965, tem um palmarés desportivo muito pouco apelativo, mas não deixou por isso de se tornar uma personagem amplamente reconhecida. No campo futebolístico, o jogador dos Camarões venceu duas vezes o campeonato do Equador, conqustopu uma Liga em Israel e uma Taça das Nações Africanas.


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Em 1988, Makanaky alcançou o seu pico desportivo ao marcar o golo dos "leões indomáveis" na semi-final da Taça das Nações Africanas contra a selecção de Marrocos, que valeu aos Camarões a classificação para a final com a Nigéria, jogo que viriam a vencer. Foi o melhor momento da carreira de Makanaky, que durante a primeira metade dos anos 90 jogou em Espanha, depois de passar por várias equipas francesas.

Mas, se o melhor momento da carreira de Makanaky aconteceu com a sua selecção, o melhor momento da vida de Makanaky aconteceu no futebol espanhol, mais concretamente quando vestia as cores do CD Málaga.

Makanaky aterrou na capital da "Costa del Sol" em 1990, com o epíteto de mega estrela, que iria devolver ao clube andaluz a glória da Primeira Divisão. E não era em vão. Cyrille vinha de um bom Mundial com a sua selecção. Os "Leões Indomáveis" tinham derrotado, por exemplo, nem mais nem menos que a Argentina de Maradona.

Ao chefar a Espanha, Makanaky começou por assinar quatro contratos antes de se estrear pelo Málaga. Com estes documentos - um oficial, outro "por fora", outro com o seu agente e o último com o seu anterior clube -, assegurou-se de que cobraria muito dinheiro... mas fez com que as Finanças pensassem o contrário.

Makanaky conseguiu conquistar o carinho dos adeptos, apesar de jogar pouco e mal. O camaronês não só não ajudou a equipa a subir à categoria máxima, como na sua segunda época o clube acabou na Segunda B. Todavia, não importava: os adeptos continuavam a gostar muito dele.

E perguntas: como é possível que um "perneta" que tinha chegado com estatuto de estrela, conseguiu ganhar o respeito dos fãs mais acérrimos de um clube histórico? Era precisamente essa a nossa pergunta e, por isso, decidimos investigar a história por detrás do mito... e é incrível.

À chegada ao Málaga, Makanaky ficou amigo dos pequenos traficantes que "trabalhavam" nos arredores do Estádio La Rosaleda. Generoso como era, o camaronês ajudava-os no negócvio, comprando-lhes a erva que vendiam. Pouco a pouco e como não podia deixar de ser numa cidade mais ou menos pequena, não tardou até que toda soubesse que Makanaky gostava de fumar os seus canhões.

Cromos do Mundial Itália '90 e EUA '94, de Cyrille Makanaky. Imagen via Fútbol Waltrapa

Ao que parece, Makanaky fumava tanta ganza durante a sua estadia em Málaga, que os jovens que o encontravam pelos bares e festas começaram a referir-se aos charros como "makanakis". Ao fim de um tempo, o futebolista deixou o clube e a cidade, mas o seu legado permanece até hoje entre essa geração de adeptos que desfrutou do jogo e da personalidade do camaronês entre muito riso e fumo aromático.

A história deste craque, todavia, não acabou no Sul de Espanha. Depois de deixar o Málaga, Makanaky foi para o Villarreal, onde quase ninguém se lembra dele, daí para Tel Aviv, onde conquistou o campeonato e, mais tarde, para o Barcelona... de Guayaquil, no Equador. Em duas temporadas, ganhou duas ligas, 1994-95 e 1996-97. Entre ambas ainda passou por um curto período pela Liga francesa.

Ao terminar a segunda temporada, tornou-se público que o Barcelona de Guayaquil lhe devia muito dinheiro. Reza a lenda que ele não foi de meias medidas e contactou um bruxo para que lançasse uma maldição sobre o clube. Makanaky garante que a história não é verdadeira, mas o que é certo é que a equipa passou os 15 anos seguintes sem qualquer título.

Um pouco como o que aconteceu com Béla Guttman no Benfica - o húngaro garantiu que, depois de se ir embora o clube lisboeta nunca mais ganharia títulos europeus, o que, até agora, é absolutamente verdade - a lenda de Makanaky foi crescendo à medida que os anos passavam e o Barcelona continuava à míngua de títulos. Um enguiço apenas quebrado em 2012, quando o clube equatoriano voltou a conquistar o campeonato e a maldição desapareceu.

O mito de Makanaky, no entanto, continua vivo hoje em dia. Demos, pois, graças eternas ao Deus do Futebol por nos providenciar personagens como este.


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