Opinião

Caso Sócrates. A “banalidade do mal" entre nós?

Se tudo o que resultou até agora da Operação Marquês for verdade, estaremos perante um acto terrorista contra os portugueses? Se a acusação resultar em condenação, o PS também deve um pedido de desculpas ao País?
25.10.17
Sócrates e PS. Se houver condenação, aconselha-se intensa psicanálise ao envolvido e aos que o carregaram em ombros. (Foto via Wikipedia)

Há precisamente duas semanas, no âmbito da Operação Marquês, o antigo primeiro-ministro (PM), José Sócrates, foi acusado de 31 crimes (entre os quais, o de corrupção passiva) e de ter tido um benefício monetário de 34 milhões de euros.

Apesar de estarmos a toneladas de quilómetros de uma possível condenação - o julgamento talvez surja em 2019 -, há deduções que podemos retirar do maior escândalo de que há memória na política portuguesa deste e do passado século.

Uma montanha de trafulhices comparável a um acto terrorista?

A investigação do Ministério Público (MP) revela que algumas das altas figuras do regime de então, entraram alegadamente num conluio a desfavor da Nação e com ganhos pessoais. Um dos planos em questão foi evitar a OPA da SONAE à PT e o concretizar do mesmo foi a pedra de toque para o início do fim de uma das jóias da coroa (que, entretanto, virou Altice). O interrogatório a Hélder Battaglia e o que veio a descobrir-se nos Panama Papers, foram dois momentos cruciais para que se montassem os elos de ligação entre os vários envolvidos - personalidades da elite da política, das finanças e da vida empresarial. Podes, portanto, "agradecer" a José Sócrates, a Ricardo Salgado (BES), a Zeinal Bava e a Ricardo Granadeiro (ambos da PT), por nos terem tornado a todos mais pobres.


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No passado mês de Agosto, por causa de um dos terroristas ter ido à praia no dia anterior ao abalroamento de civis nas Ramblas, em Barcelona, houve quem utilizasse a expressão "banalidade do mal". Questionamos. E não é um acto terrorista e o mesmo tipo de banalidade (mesmo que não seja directo e sanguinário), ver esses senhores de gravata e cheios de paleio a andarem nos corredores do poder com uma normalidade do caraças, quando por detrás da sua "capa de gente respeitável e respeitada" faziam o que faziam?

Com os milhões que foram supostamente usurpados do erário público, jamais saberemos o número exacto de pessoas que sofreram directa ou indirectamente por isso. A quantidade de salários que foram cortados, os empregos que se perderam, os casamentos destruídos, as vidas que emigraram e os suicídios que se cometeram. Muito se tem falado que certos crimes de sangue deviam merecer a pena máxima. Será que processos como a Operação Marquês - caso haja condenações entre quem alegadamente cometeu corrupção - não mereciam o mesmo tratamento? Fica a sugestão.

Partido Socialista, "o que passou-se"?

Perante o relatório de acusação do MP, o Partido Socialista (PS) devia pôr a mão na consciência e não se esconder em palavras circunstanciais como a "vergonha" ou o "desconforto" dos portugueses. É inevitável que assim seja (mesmo que, hoje em dia, os ilustres do Partido se tenham afastado dele), pois a ascensão de Sócrates foi apoiada durante larguíssimos anos na sede localizada no Largo do Rato.

Como já aqui foi perguntado, será que o actual líder do PS e todos os que trabalharam com Sócrates, foram cúmplices, só suspeitavam, ou enfermavam de uma ingenuidade extrema? É de bradar aos céus que ninguém o tivesse posto em causa, mesmo após vários casos estranhos - como o Freeport - ou pela demora que levou a explicar a sua licenciatura. São demasiadas red flags que não foram tidas em conta… A propósito deste aspecto, há um texto da Sábado, bastante revelador e explicativo. Nele, a jornalista Maria Henrique Espada aborda a importância do termo "Wildfull Blindness", o que, trocado em miúdos, é conhecido entre nós por "cegueira involuntária".

Involuntária ou não, por causa dessa falta de fiscalização interna, a tentação deve ter-lhe subido à cabeça de tal maneira que o seu reinado como PM pode muito bem vir a ser considerado um filme "sicilianamente" rebuscado. Se for verdade o que vem descrito nas quatro mil páginas do processo, há muito corrupto que vai sentir-se um menino de coro perante o puzzle descrito.

Relativamente ao curso superior, tudo soou a esquisito e é, de certa forma, semelhante às explicações dadas sobre o dinheiro que pediu emprestado ao amigo e também arguido, Carlos Santos Silva. Incrivelmente, este último terá chegado a assinar uma declaração em que, se morresse, 80 por cento do saldo de uma determinada conta na Suíça revertia para um parente de José Sócrates.

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Pese embora tenha mostrado um pouco do seu lado de "animal feroz" na primeira entrevista televisiva após a acusação (nomeadamente ao mostrar-se convicto na amostragem de provas justificativas da sua inocência), quando veio à baila a estória das avultadas somas em numerário trocadas entre ele e Santos Silva - elemento chave do Grupo Lena -, o nervosismo e a falta de segurança nas respostas foram evidentes. Com tanta falta de clareza dada à RTP em redor deste assunto, até o próprio deve desejar que tivesse mesmo sido "um pobre provinciano que andou na política". Esta frase pomposa foi dita aos magistrados, num dos interrogatórios, ao prestar justificações sobre as suas dificuldades económicas. (Vê o vídeo abaixo do Governo Sombra a dissertar sobre esta friendship)

Naturalmente, com uma fonte inesgotável de rendimento, o seu estilo de vida – com passagem por Paris - não passou despercebido. Uma vaidade que confirma os tiques de saloio com manias de grandeza e que utiliza bens materiais para disfarçar a pobreza de espírito. Em cada esquina, em Portugal, deves encontrar um cromo destes. No caso do engenheiro (!?), a parolice vai ao ponto de [escrever livros](http://html http://observador.pt/especiais/quem-e-o-alegado-escritor-fantasma-de-jose-socrates/) (!?) e alegadamente ordenar aos seus apaniguados que comprassem inúmeros exemplares com o intuito de atingir o top de vendas. A sua megalomania e narcisismo levou-o igualmente, segundo avançam vários meios, a pagar a um blogger para elogiar as suas políticas e, claro, criticar os detractores.

Será que somos nós que estamos a ver mal, ou esta realidade não deve ser simplesmente considerada um simples erro de casting nas hostes socialistas? Bem, na verdade são dois erros se contabilizarmos Armando Vara que, através do desbaratar da Caixa Geral de Depósitos e o investimento desta no empreendimento de Vale de Lobo (e as produtivas luvas que supostamente daí resultaram), integra também a lista de acusados da Operação Marquês - são 28 ao todo. A sua amizade com Sócrates perdura desde a década de 1980.

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É caso para perguntar, por exemplo, a António Guterres (que o levou para o Governo), a Jorge Coelho (ex-estratega do PS), ou a Jorge Sampaio (que traiu Ferro Rodrigues e "rasteirou" Santana para entregar o País ao outro), "o que passou-se"? (caso não saibas, esta forma errada de perguntar, "o que se passou?", faz parte dos badalados e-mails do Benfica). Às tantas, eles e tantos outros - como muitos do actual executivo -, tinham medo de José Sócrates. Da forma como se mexia no caciquismo local e ainda mais quando chegou a líder e conseguiu a única maioria absoluta para o PS. Aliás, é sabida a pressão que exercia em tudo o que pudesse pôr em causa o seu poder, com contraditório ou questões sensíveis. Os media que o digam, com telefonemas a condicionar jornalistas, o "pontapé" que deu em Manuela Moura Guedes para fora da TVI, ou o alegado plano para dominar a Comunicação Social.


Vê também: "Como os narcisistas tomaram conta do Mundo"


Mais preocupante foi quando correram notícias sobre um eventual controlo da justiça e de nomes com o peso do ex-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento (que ordenou a destruição de escutas no Face Oculta), e do antigo procurador-geral da República, Pinto Monteiro (que almoçou com ele dias antes de se entregar).

Por estes motivos, é compreensível a prisão preventiva no início da contenda, a 21 de Novembro de 2014, e a permanência atrás das grades até Setembro do ano seguinte – a maior parte deste tempo em Évora. Com a sua rede de contactos, o rasto das provas poderia ser facilmente apagado. Chega a ser caricato que um dos computadores tenha sido colocado num apartamento vizinho, pela sua empregada de limpeza.

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Se José Sócrates for dado como culpado em tribunal, esperamos que o PS peça desculpas ao País. É o mínimo que pode fazer. De resto, aguardamos que numa futura revisão da Constituição seja inscrita a responsabilização dos partidos por danos infligidos à comunidade por um dos seus.


Notas finais

1. De todas as marginalidades em redor da Operação Marquês, como a quebra do segredo de justiça (tão usual nos casos mediáticos), ou a audição das escutas e dos interrogatórios, a mais infeliz prendeu-se com a entrevista dada por Carlos Alexandre à SIC, em que o juiz salientou ter de trabalhar por não ter "amigos" e "fortuna". Completamente evitável.

2. Na recente disputa de argumentos com o jornalista da RTP1 , Vítor Gonçalves, Sócrates afirmou diversas vezes que o dinheiro é do seu amigo. O que têm a dizer Carlos Santos Silva e a sua esposa sobre este "queimanço" na praça pública?

3. Este caso não iliba os outros "clubes" do arco do poder (pois também têm as suas figuras problemáticas) e deve constituir um exemplo para os partidos dentro e fora do Parlamento. O escrutínio aos seus militantes deve ser prioritário, para que não seja o "zé povinho" a arcar com as consequências de castings enviesados e incompetência quando toca a saber filtrar gente honesta.

4. Se por acaso conheceres um cineasta que queira avançar para um filme, diz-lhe para não se esquecer de personagens baseadas na mãe do principal arguido, na ex-namorada Fernanda Câncio, no advogado João Araújo, na ex-mulher Sofia Fava, e no motorista João Perna.

5. E há quem esteja já a "trabalhar" na banda-sonora e tudo…(ver vídeo abaixo)

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