Relato

Tentei despertar emoções positivas com death metal, em nome da ciência

Investigadores australianos concluíram que muitas pessoas vivem sentimentos de alívio e transcendência quando ouvem metal extremo. Experimentei esta forma de redenção durante uma semana.

Por Julia Reis
26 Novembro 2018, 1:04pm

Uma dieta rica em proteínas e AHHHHHHHHH. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Começou assim: o psicólogo William Forde Thompson, da Universidade Macquarie, na Austrália, analisou os efeitos psico-emocionais do death metal nos seus ouvintes. Depois de um período de exames, descobriu que os fãs do género não curtem raiva; no meio de berros, pedais duplos e guitarras distorcidas, eles transcendem para emoções positivas como fortalecimento, paz e alegria.

Já tinha visto alguns estudos parecidos no passado, como um da Universidade Estadual de Humboldt, nos EUA, que revelava que os jovens que ouviam metal nos anos 80 se tornaram adultos felizes e responsáveis, mas nenhum me pareceu tão sério e completo como este novo.

Foi então que eu, uma jovem fã de trap, conquistei a missão de, em nome da ciência, ver se o meu humor melhorava um pouco. Não sei se, para os editores, andava a parecer muito triste, mas o facto é que eles fizeram uma lista com 52 músicas do estilo e pediram-me para eu ver o que sentia ao ouvi-las no decorrer da semana ao mesmo tempo que desempenhava variadas actividades.

Antes de carregar no play, segui os passos descritos pelo professor australiano. Para entender o que fãs de metal sentem, Thompson aconselha ouvir death metal pensando que é, realmente, apenas uma música e não um som violento que, de alguma forma,. aborda a violência, morte ou coisas do mal. Isso proporciona uma certa distância do mundo real, para “apreciar a música como uma forma de arte”.

O especialista explica que a alta amplitude, o ritmo acelerado e uma confusa discordância entre os instrumentos, estimulam a libertação de substâncias neuroquímicas que podem sustentar dois contrastes extremamente diferentes: sentimentos positivos de energia e poder ou tensão, medo e raiva. Aí está o segredo. É preciso concentrares-te e usares o som como uma forma de catarse.


Vê: "Heavy Metal In Baghdad"


O estudo envolveu 48 pessoas que são ouvintes fiéis do género e 97 que não curtem o ritmo. No âmbito da investigação, que só incluiu gente na faixa dos 20 anos, aplicou testes de personalidade e formas para detectar como essas pessoas se relacionam em questões interpessoais.

E eu, que estou à beira dos 20 e nunca dei hipótese ao injustiçado som, decidi analisar os efeitos da música em mim durante três momentos distintos: no trabalho, no transporte público e a limpar a casa.

Fase 1: foco no positivismo no trabalho

Não costumava ouvir muitas músicas no emprego, porque me desconcentrava bastante. Foi então que encontrei na música clássica uma boa escapatória para me distanciar do que acontece à minha volta e me focar no trabalho que estou a fazer. Imagino que tenho uma concentração maior, porque a maioria das músicas que ouço nesse ambiente são instrumentais e, principalmente, não as conheço. Achei que, com o death metal, também me sentiria mais concentrada - e um pouco mais revoltada com tudo -, por ter muito mais a presença de instrumentos e por eu não ter muita empatia com o som.

No estudo, por exemplo, os participantes que não tinham familiaridade com o som e que possuíam menos empatia com as letras em si, foram os mais propensos a experimentarem níveis mais elevados de poder e alegria, quando comparado com aqueles que tinham uma preocupação maior com o conteúdo e os detalhes.

Comecei por ouvir "Symbolic", dos Death (há uma banda com o nome do género, vê bem). E é uma música bem fixe, confesso. O problema é que a ansiedade e o sentimento de revolta acordaram em mim logo no exacto momento em que o ritmo aumenta e os instrumentos ficam mais confusos, sujos e dessincronizados. Senti bastante agonia, mas tentei concentrar-me para seguir as dicas do investigador.

No momento das batidas marcadas do baterista e dos riffs de guitarra, senti um grande alívio, uma impressão totalmente contrária àquela sentida nas partes aceleradas. Senti que as músicas são feitas de picos de ansiedade e alta tensão, com sentimentos de alívio e organização. O que me causou bastante estranheza foi no momento dos vocais, dependendo da maneira em que esses ruídos chegam. Não é como se não soubesse o que estava por vir, mas quando estás a tentar meditar e te surge um grito meio satânico em alto e bom som nos phones é inevitável assustares-te. Mas, sempre com positivismo, encontrei um tom vocal que me agradou.

Concentrei-me muito em prol da felicidade, mas também precisava de trabalhar. Por ser algo muito surpreendente e inédito para os meus ouvidos, não consegui concentrar-me tanto nas partes mais agitadas, por causa da ansiedade que batia.

Por isso, peço desculpas a todos os meus editores que estão agora a ler este texto, porque na verdade não rendi muito. Estava bastante concentrada nos pontos altos das músicas que me fizeram passar da esperança à tristeza e vice-versa. Portanto, em prol do meu emprego, durante o horário de expediente continuarei fiel ao meu piano instrumental ao vivo no YouTube.

Fase 2: a administrar más emoções nos transportes públicos

No regresso a casa, apanho um autocarro bastante cheio, num percurso com muito trânsito, o que me faz ficar mais de uma hora em pé. Ou seja, um ambiente perfeito para tentar atingir o positivismo por entre o caos urbano. Comecei a ouvir novamente a playlist e adoptei um outro sentimento em relação ao ritmo. Talvez por estar mais revoltada com tudo num ambiente que fazia florescer o meu stress, consegui curtir bastante.

Os gritos aleatórios e sinceros, cujo conteúdo não consegui identificar e, sim, bastante sentimento, são coisa pontuais. Quando me concentrei em depositar toda a minha raiva, senti-me contemplada pelos gritos de revolta.

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A paz de espírito de quem ouve uma britadeira. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Sei que parece que estou a viajar, mas até entendo os metaleiros. Nesse momento em que só queria chegar a casa, o death foi bem-vindo ao absorver a minha revolta em forma de música. Ao mesmo tempo, senti uma vontade absurda de correr sem parar pela rua a gritar muito, com a minha maquilhagem de lápis de olhos e um delineador muito foda.

Ah, e não posso esquecer que diante de todo esse mix em que incorporei totalmente o metaleiro urbano revoltado, as velhinhas do lugar preferencial do autocarro olhavam para mim com um ar estranho. Os meus phones são uma porcaria e estavam demasiado alto. Além disso, acabei por me empolgar com a cara de gótica má.

O momento em que me senti mais contemplada foi também o que me senti mais stressada e agressiva e o som só me ajudou a depositar tudo isso em forma de catarse, como aconselhou Thompson. Usar os transportes públicos em São Paulo, tem tudo a ver com death metal.

Fase 3: a relaxar (ou quase) na limpeza de casa

Para aproveitar o feriado como uma mulher workaholic, decidi substituir a Marília Mendonça por Cryptopsy. Fora dos auscultadores e em alto e bom som para quem quiser ou não quiser ouvir, experimentei dar "aquela relaxada" enquanto fazia a limpeza da semana. Adicionei os meus vizinhos à experiência e, com todo o clima de rock pesado para contemplar o dia de folga, não recebi nenhuma reclamação. Ponto para o death metal.

No amplificador, a bateria pontual e um ritmo mais lento, contemplou-me da mesma maneira que os vídeos de ASMR com slime no Instagram. Na limpeza, foi óptimo. Mas, como não sou fã de sons sujos e pesados e o meu amplificador minha também não é dos bons, os momentos de alta intensidade incomodaram-me bastante.

Contaminada pela velocidade da música, fiz todas as coisas a alta velocidade. A verdade é que, nesse requisito, tenho que agradecer aos músicos, pois, se estivesse a ouvir um sertanejo, além da dor e sofrimento, também demoraria uma hora a mais do que a ouvir death metal.

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Levemente desesperada para terminar rapidamente. Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Na concentração ajudou: o mood em que estava no dia mudou completamente. O sentimento de revolta e tensão nos momentos mais agitados também se manifestou quando estava em casa. Antes, sentia-me bastante tranquila, mas, quando carreguei no play, entrei na energia do metal e fiquei super agitada, como aconteceu no trabalho.

No final, não é como se estivesses a ouvir um Marley clássico enquanto encontras a tua mais profunda felicidade. Para um momento introspectivo, em que sentes que estás a acumular sentimentos de agonia, o metal deixa tudo mais à flor da pele, permitindo-te lidar com essas questões de modo catártico. Talvez o death metal tenha transcendido as minhas emoções - boas e más - e isso, ao fim e ao cabo, até tenha sido bom. Mas, vou voltar a ouvir o meu trap.


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