A indígena Hushahu Yawanawa

Conheça a indígena que quer levantar a bandeira do feminismo no Acre

Ela batalha pela criação de um espaço físico para acolher e fortalecer as mulheres da sua comunidade e também as não indígenas.
13.12.18

Sentada em meio a outras indígenas, uma mulher conduzia uma roda de rapé (medicina feita com tabaco e casca de árvore), no Espaço Luzeiro, no bairro do Paraíso, em São Paulo. Pequena, com o tom de voz baixo e sereno, pedia desculpas pelo cansaço físico e emocional. Ela havia acabado de voltar de um evento na Europa com autoridades do mundo todo, no qual ela atuou como uma das representantes de um dos povos indígenas brasileiros, os Yawanawas, do Rio Gregório, no Acre.

O clima da terra e o climão entre aqueles que ela dizia “se acharem os donos do mundo” baqueou a guerreira, mas não a derrubou. Ela estava firme, cantando e assoprando rapé em cerca de cem pessoas que participavam da cerimônia. E fez isso por pelo menos duas horas até passar a função para sua filha.

Benoit Fournier

A indígena Hushahu Yawanawa. Foto: Benoit Fournier/Divulgação

Eu era uma das pessoas que estava na roda. Somente a presença daquela indígena e a força do seu canto já me chamaram a atenção a ponto de, inclusive, eu mudar meu destino de férias para o Acre. Mas eu não tinha ainda a menor ideia da história de luta e de protagonização do movimento feminino indígena que aquela mulher estava à frente. Seu nome? Hushahu Yawanawa.

Depois de enfrentar um casamento aos oito anos de idade, filhos antes dos 12 anos, uma dieta espiritual quase que mortal – a dieta do Muka feita pela primeira vez por uma mulher (mais informações no decorrer do texto) – e anos de estudo com o pajé Tatá, Hushahu se aprofundou nos saberes de seu povo, que adormeciam em meio a pressão do homem branco. Foi na espiritualidade e na força da mulher que ela viu um caminho para manter sua cultura viva e pulsante. Então o levante começou.

Mulheres começaram a ter encontros nos quais elas eram as protagonistas, porém, com a presença masculina muito bem-vinda, uma vez que o feminismo indígena busca o equilíbrio das forças. Com os conhecimentos que teve depois da dieta, com os kenes (grafismos indígenas) que recebeu, segundo ela, dos espíritos femininos da floresta, o artesanato ganhou fôlego. Então, na mesma toada, os cantos se fortaleceram, os homens passaram a fazer homenagens às mulheres e, enfim, a mulher começou a ter poder de decisão sobre suas funções na aldeia, antes ligadas somente aos deveres do lar.

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Hoje, graças a esse processo, elas podem optar por estudar, escolher com quem e quando se casar e se querem se dedicar à espiritualidade. “Antes da dieta da minha mãe, as mulheres viviam pra lavar a roupa, cuidar da casa e ter filhos. As mulheres despertaram para o seu valor”, conta Hukena Yawanawa, filha de Hushahu.

Mas para esses estudos ganharem força, surgiu um sonho em Hushahu de fazer uma casa de arte na aldeia Mutum. Um complexo para mil pessoas poderem fazer uma imersão artística e espiritual. Indígenas e não-indígenas, juntos, buscando a cura, principalmente a cura do feminino, totalmente distorcido na construção da sociedade atual.

Para realizar esse sonho é preciso de grana. Hushahu e seus apoiadores estão fazendo uma vaquinha on-line para arrecadar R$ 80 mil e tirar esse projeto do plano onírico. No site, a liderança espiritual deixa clara sua intenção: “Estou sonhado em construir um espaço onde posso estar com as mulheres dentro da floresta. O meu sonho é construir uma casa, que não será só minha, onde possamos receber as mulheres e homens do meu povo e de outros povos para conversar, estudar a espiritualidade, fazer as dietas e trabalhar com a arte e com as medicinas yawanawa. Lá, vamos buscar um empoderamento da nossa própria força, do nosso espírito, de nós mesmos”.

Quem colaborar com a campanha ganha recompensas que vão de agradecimentos, passando por adesivos, artesanatos até cerimônias com as medicinas da floresta no Rio de Janeiro e São Paulo.

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Foto: Benoit Fournier/Divulgação

Quem estiver com a bala e doar R$ 5.000, ganha cinco dias de vivência na aldeia Mutum. De acordo com Hukena, o projeto vai ajudar, primeiramente, as mulheres da aldeia. “Hoje, as mulheres têm voz e sustentam suas casas com a venda dos artesanatos. A casa de arte vai ajudar a manter esse processo de empoderamento. O projeto também vai ajudar as mulheres brancas, que estão perdidas, sem caminho, não se conhecem. A ideia é ajudar as mulheres a encontrarem seus caminhos”, explica Hukena, que também promove cerimônias com medicinas da floresta no Brasil e na Europa.

Levante feminino

Com a figura de Hushahu como líder espiritual, as mulheres yawanawas passaram a protagonizar suas histórias e a transformarem a cultura do seu povo. Crianças, a partir dos três anos, e jovens meninas já tomam o Uni (ayahuasca). Elas cantam e dançam nas cerimônias, trazendo a força da mulher em vários estágios da vida. E foi quando as mulheres entraram fortemente nesse processo que os homens sentiram esse estímulo e voltaram a ter um compromisso com a retomada da cultura yawanawa, que se renovou e ganhou força.

A confecção de artesanato empoderou financeiramente as mulheres. São colares, brincos, tepis e curipes (aplicadores de rapé), pulseiras e outros itens que correm o Brasil e o mundo nas comitivas ou visitas individuais que indígenas fazem em outras cidades promovendo cerimônias com as medicinas da floresta.

Muitas mulheres estão à frente de várias áreas de atuação dentro da comunidade. A aldeia Mutum já se destacava por ser liderada pela cacica Mariazinha, que passou recentemente o lugar para um homem, mas por questões pessoais. Porém, ela segue como uma liderança política. Julia, irmã de Hushahu, é liderança na cooperativa que faz a ponte das artes yawanawas com o mundo. Hukena, filha de Hushahu, promove cerimônias dentro e fora do Brasil. Todas essas frentes tem a mesma mãe: a espiritualidade. E todo esse processo de autoconhecimento tem impactado diretamente no crescimento da aldeia.

Casamento aos oito anos de idade

Hushahu enfrentou um casamento aos oito anos de idade. Teve dois filhos: um aos 11 anos e outro aos 12. Viu a história, a cultura e a espiritualidade do seu povo definhar com a presença de missionários cristãos, que montaram acampamento em terras indígenas com o propósito abominável de catequizar o povo indígena.

Mas Hushahu, juntamente com sua irmã Putany, decidiu enfrentar todo o preconceito dos homens e o medo das mulheres e fez a dieta do Muka, feita por aqueles que desejam se aprofundar nos conhecimentos e sabedorias ancestrais da espiritualidade por meio de um processo que pode até matar. São 12 meses de alimentação restringida a pequenas quantidades de caiçuma (bebida feita de milho), pequenos peixes e banana verde. A dieta é sem doce, sem sexo e sem contato com filhos ou companheiro, mas com muita medicina da floresta, como Uni (Ayahuasca) e rapé, além de saliva de jiboia.

E foi na volta dessa dieta que a história do povo Yawanawa começou a mudar. Sua força e coragem impactou todos da aldeia. Então ela decidiu se tornar uma aluna do pajé Tatá, que ainda detinha os saberes indígenas, mas que o povo havia perdido o interesse. A cultura se enfraquecia, mas ganhou respiro com a força da mulher, e a revolução da aldeia pela força do feminino começou.

Hushahu passou a ser vista como liderança espiritual, como pajé, título que se ganha por reconhecimento da comunidade. Em meio a sua dieta e na força da ayahuasca, ela recebeu instruções do mundo espiritual, de seres femininos, sobre a retomada da arte yawanawa por meio dos kenes (grafismos). Logo ela canalizou o desenho awavena, uma borboleta, que hoje está presente em pulseiras e pinturas corporais de toda a arte produzida pelas mulheres de seu povo, assim como a runua mapu, o grafismo da cabeça de uma jiboia. Os kenes canalizados por Hushahu passaram a ser considerados figuras sagradas pelos yawanawas.

Para colaborar com a criação da casa de arte, visite o site da vaquinha online.

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