Meio Ambiente

O capitalismo global está destruindo a biodiversidade do Cerrado brasileiro

Um novo estudo mostra que os mercados internacionais de soja estão degradando uma das regiões mais biodiversas do mundo, colocando em risco habitats de espécies raras.
28.11.19
O capitalismo global está destruindo habitats de espécies raras no Brasil
Um fazendeiro espalha herbicida num campo de soja no Cerrado. Yasuyoshi Chiba/AFP via Getty Images.

Mercados internacionais de soja estão levando à destruição de habitats de plantas e animais raros no Brasil e colocando espécies em risco, segundo um novo estudo. Além de confirmar que o capitalismo é uma merda mesmo, o estudo fornece um método para responsabilizar países e companhias em políticas de zero desmatamento.

O nosso Cerrado, que é lar de 5% das plantas e animais do mundo, perdeu quase metade da sua vegetação desde os anos 1970 para criação de gado e expansão agrícola. O Brasil é o maior produtor e exportador de soja do mundo, e mais da metade desta soja é produzida no Cerrado.

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Como um estudo publicado mês passado no jornal PNAS mostrou, todo esse desenvolvimento agrícola invade terras de que espécies de plantas e animais dependem.

“Muitas vezes, quando falamos sobre desmatamento e emissões de carbono, essas coisas parecem muito etéreas”, disse Paz Durán, coautor do estudo e pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Ecologia e Biodiversidade no Chile. “Um dos papéis da métrica do estudo é traduzir o desmatamento para outra coisa, que nesse caso é o risco de perder essas espécies importantes.”

As espécies em rico de perder seu habitat incluem os “Big Five” do Cerrado: o lobo-guará, o tamanduá-bandeira, o tatu-canastra, a anta e a onça-pintada, além de mais de 4.800 espécies de plantas e animais que não são encontrados em nenhum outro lugar. Perda de habitat afeta a habilidade de sobreviver de algumas espécies mais que outras, segundo o estudo.

O habitat do lobo-guará, por exemplo, não é afetado tanto quanto o do tamanduá-bandeira, que perdeu cerca de 40% de seu habitat no Cerrado desde a era pré-industrial.

Pesquisadores conectaram dois conjuntos de modelos – um ligando perda de habitat a implicações de biodiversidade, e outro ligando companhias que produzem soja ao desmatamento no Brasil – para medir os impactos que países e empresas individuais tiveram nas plantas e animais do Cerrado entre 2000 e 2010. Segundo o World Wildlife Fund, 75% da soja do mundo é usada como fonte de proteína na alimentação animal.

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“Há uma ingenuidade aqui porque a soja não é como o óleo de palmeira, onde você vê a origem no rótulo – ela está na sua carne, salsicha e frango”, disse Jonathan Green, primeiro autor do estudo e pesquisador sênior do Stockholm Environmental Institute da Universidade de York.

Diferente do óleo de palmeira, que ameaça diretamente grandes símios, a soja não é ligada ao bem-estar de espécies igualmente “carismáticas”, segundo Green.

Perda de habitat afeta especialmente espécies endêmicas que não evocam o mesmo nível de simpatia que os Big Five, disse Durán. Plantas abrangem grande parte dessas espécies endêmicas, mas um dos animais notáveis é o Gyldenstolpia fronto, que é considerado severamente ameaçado.

O artigo aponta que muitos dos países envolvidos no comércio de soja recentemente endossaram duas declarações se opondo ao desmatamento, mas dois países que o estudo descobriu que têm o maior impacto relativo na biodiversidade do Cerrado – China e Brasil – não assinaram nenhuma das declarações. Ainda assim, os autores esperam que os detalhes do estudo ajudem a responsabilizar países e companhias em políticas de zero desmatamento.

“Agora podemos começar a ajudar as companhias a entender o que elas estão fazendo contra seus compromissos e começar a responsabilizá-las”, disse Green.

Mesmo que os dados do estudo não sejam necessariamente novos, a combinação dos modelos “pintou os problemas em cores mais vivas” e destacou as espécies de plantas e animais encarando perda de habitat no Cerrado, disse o coautor do estudo Toby Gardner, pesquisador sênior do Stockholm Environmental Institute.

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Green disse que há uma chance de que destacar a destruição de habitat no Cerrado só fará a produção de soja mudar para outras regiões igualmente frágeis na América do Sul. “Você coloca a luz em cima disso e os ratos correm para o escuro”, ele disse.

Quanto ao que uma pessoa comum pode fazer para ajudar, Green disse que os consumidores podem prestar mais atenção ao tipo de carne que consomem e se os animais foram alimentados com soja. Mas os consumidores não devem ser totalmente responsabilizados por um problema que as grandes empresas agrícolas e a indústria de carne criaram, acrescentou Gardner.

“Não estou dizendo que todo mundo deve virar vegano ou vegetariano, mas eu diria que muitos de nós poderiam fazer melhor”, disse Green, acrescentando que cortou seu consumo de carne desde que começou a pesquisar sobre sustentabilidade.

Outras mudanças podem acontecer no nível dos produtores de soja. Segundo Gardner, uma coalizão de produtores, empresas e ONGs chamada Cerrado Working Group em breve vai implementar uma proposta para compensar fazendeiros de soja do Brasil por preservar plantas endêmicas em suas propriedades.

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