Entrevista

"Uma comunidade, quanto mais estrangulada é, mais resiste"

Pedro Miguel, colaborador da VICE Portugal, é autor do livro "Uma Cena Ao Centro", que aborda o boom musical dos anos 90 na região centro do País.

Por Cláudio Garcia
14 Setembro 2018, 2:32pm

"Pedro Miguel mergulhou nos arquivos do JORNAL DE LEIRIA e no meio do pó encontrou algumas surpresas: Podia ser agora". Foto por Ricardo Graça/Jornal de Leiria

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

Nas páginas de Uma Cena ao Centro: Música Moderna Portuguesa 1990-1999, o autor [e habitual colaborador da VICE Portugal], Pedro Miguel, mergulha nos "loucos anos 90" para assinar a fotografia definitiva da primeira vaga de explosão de bandas em Leiria, Marinha Grande, Alcobaça e Caldas da Rainha. Estão lá os Silence 4 e os Gift, mas também outros projectos que deixaram marca, mesmo sem chegarem à primeira liga da fama.

Informações, entrevistas e análises sobre discos e concertos de projectos tão influentes para uma determinada cultura alternativa e independente como foram Phase, Alien Squad, Injusticed League, CARF, Sarna, Canker Bit Jesus, Flower Mind, Id Portico, Malevolence, Ode Filípica, Estado Sónico, Mentes Podres, No More Rock N Roll Business, Tina And The Top Ten, Red Beans, Pigs In Mud, Loto, entre tantos, tantos outros, como Dramafall, Capricious, Wicked Lounge, Us Forretas Ocultos, Paranóia, Mikroben Krieg, Virtualma, Meninos Ruins, 605 Forte ou Big Me.

Mas, como naquelas séries de televisão que reabilitam um imaginário perdido no esquecimento, o livro é também um relicário de modas e tendências, dos bares Ben e Opus às discotecas Alibi, Storm Zone e Casino, da editora Nova Independência às lojas de discos (Alquimia, Auditu) e até de roupa (Tucha, Garagem) leirienses. Uma caixa do tempo que se abre, 20 anos depois. O Jornal de Leiria falou com ele.

JORNAL DE LEIRIA: Vinte anos depois, porque é que vale a pena falar das bandas de Leiria que nasceram nos anos 90?

Pedro Miguel: Porque não estava escrito. Quer dizer, estava escrito no Jornal de Leiria, mas estava no arquivo. Aconteceu tudo na era pré-internet e não havia um suporte físico contemporâneo. Quando está a acontecer esta segunda vaga, chamemos-lhe assim, achei interessante falar da primeira.

Muito tempo em arquivos com pó. Alguma surpresa?

Sim, a contemporaneidade. Os mesmos temas, as mesmas preocupações, o mesmo pânico moral. Para algumas autoridades parece que está tudo na mesma.

Parece que nada mudou?

Principalmente, quase que ganhou um certo reforço com os últimos acontecimentos, com o Metadança e com o Entremuralhas e a Igreja da Misericórdia, sendo que na altura não se tocava de todo no centro, salvo raras excepções. E essa era a grande crítica.


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No livro Uma Cena Ao Centro sublinha-se que a maior parte dos concertos aconteciam fora de Leiria cidade.

Não existia o diálogo que existe hoje com a Câmara e, na altura, as pessoas viraram-se para outro lado. De repente, numa associação recreativa e nos clubes eram recebidos de braços abertos. E obviamente o circuito ficou por aí.

Os momentos mais urbanos aconteciam nas aldeias.

Exactamente. Uma Cena Ao Centro acaba até por ser um título irónico, porque foi a periferia que desempenhou o papel de maior importância.

O livro lista mais de 200 bandas. O que explica esta explosão de criatividade?

Vários factores, entre os quais a descida do preço dos instrumentos musicais. Com a CEE, abriu o mercado. Alguma pujança económica, também. E o efeito contágio. Se o amigo tem uma banda, também quero ter uma. E não só. A auto-estrada entre Lisboa e Porto abriu nessa altura e, de repente, quem ia para a universidade ou trabalhar vinha aos fins-de-semana. Aparece um bar como o Opus, que era bastante cosmopolita e vivia muito de pessoal que estava fora durante a semana e trazia uma cassete ou um CD.

A explosão de bandas reflecte uma abertura de mentalidades?

Acho que sim.

Mas, não podia ser maior o contraste entre uma sociedade conservadora e uma comunidade de músicos interessados em abrir novos horizontes.

É sempre assim em todo o lado. Uma comunidade, quanto mais estrangulada é, mais resiste.


Vê: "Devoção, entusiasmo e loucura. Um documentário sobre o que é ser fã de música"


Há traços que caracterizam a geração?

Uma atitude rebelde. Mais uma vez, é o contexto social que te molda. As bandas da Marinha: muito contestatárias, a crise da indústria vidreira. Nas letras das bandas, mesmo que não explicitamente, havia essa insatisfação.

E as bandas de Leiria, protestavam porquê?

Bandas de Leiria, cidade, havia poucas, o pessoal era todo dos arredores. Os Phase iam ensaiar à Barosa. Estou a lembrar-me dos Sarna, que estavam muito politizados. Falavam sobre o aborto, com letras bastante focadas em fracturas sociais. Os Alien Squad falavam sobre luta de classes, também. Havia um núcleo que ensaiava na Estação, depois muita banda nas garagens fora da cidade, os próprios Silence 4 foram para a Reixida, depois os Canker da Maceira, os Dramafall nos Marrazes, era tudo aqui à volta. Punk e metal, essencialmente, os Phase vão um bocado mais para o rock shoegaze e bandas pop, realmente, era Silence 4 e pouco mais.

A estética mais alternativa vem de onde?

Duas coisas importantíssimas em Leiria: a Garagem e a Alquimia, que eram pontos de encontro. E gravitava muito aí. Depois, muito, muito importante, a Alibi, com o DJ Trigo, que já passava os Jesus and Mary Chain, os Pixies, os Clash, os Nirvana, os Joy Divison. Ao mesmo tempo que a cidade estava fechada a concertos, tinhas uma discoteca que passava do melhor rock alternativo. E além disso tudo, os concursos de música moderna. O do Bar Ben ganhou contornos nacionais.

O livro vai buscar também a história de Alcobaça, Peniche e Caldas da Rainha, estava tudo a acontecer ao mesmo tempo. Era impossível de conter?

A partir do momento em que envolvia tanta gente, tinham de tocar em algum lado. E, assim como começou, acabou. As pessoas ficaram mais velhas, uns foram para a universidade e já não voltaram, outros começaram a vida adulta. Os projectos acabam naturalmente. A década seguinte é muito mais pobre.

Que herança fica?

As pessoas continuam ligadas, já não em cima de um palco, mas produzem festivais, estão em associações culturais, continuam a fazer coisas.

E quem é que podia ter sido e não foi?

Os Canker. Não podem ser todos, há projectos de qualidade que não vingam e às vezes não há justificação.

O sucesso dos Silence 4 e dos Gift era inevitável?

Sim. Além do talento, tinham uma preocupação que não era só local. O grande pecado de muita banda era pensar pequenino. Os Silence 4 e os Gift tiveram desde o primeiro momento a consciência de sair da zona de conforto.

A geração dos anos 90 abriu as janelas, deixou entrar ar fresco, o que pode a geração actual fazer por Leiria?

Pode pegar nas fraquezas dos poderes instaurados e fazer disso forças. Agora que estão a ter sucesso fora de Leiria, podem por arrasto suscitar o interesse, que ainda não há, das forças vivas da cidade e fazer com que haja um planeamento e investimento maior na cultura. Continua a haver um grande conservadorismo dos poderes institucionais, que já nem se percebe porque persiste.


O livro Uma Cena Ao Centro é apresentado este sábado, 15 de Setembro, às 18h00, na Livraria Arquivo, em Leiria e tem como convidados o presidente da associação cultural Fade In, Carlos Matos, e o radialista Nuno Calado, da Antena 3.

Cláudio Garcia é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.

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