Cultura

Como é saberes que vais morrer de cancro aos 35 anos

Recentemente, alguém me disse: “A dor é uma bela professora, mas só depois”​.

Por Gideon Jacobs; ilustração por Lia Kantrowitz
19 Novembro 2018, 4:12pm

Ilustração por Lia Kantrowitz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Não sei como abordar isto de uma forma melhor. Nos dias entre a entrevista com Katia Bozhikova para este artigo e a sua publicação, Katia morreu. Tinha 35 anos e sabia que o fim estava próximo. Era algo que já tinha aceitado há algum tempo. Katia foi diagnosticada com cancro há quase uma década e este ano os médicos disseram-lhe que a doença se tinha espalhado pelo fígado, costelas, nódulos linfáticos, pulmões e cérebro. Ainda assim, a morte dela chocou-me, talvez porque é isso que a morte faz em sociedades como a nossa, onde uma das únicas duas certezas da vida – nascemos; vamos morrer – não está muito bem integrada na nossa consciência.

Conheci Katia através da minha irmã, uma psicóloga que estuda a morte e a mortalidade. Depois de ouvi-la explicar como a proximidade da morte tinha mudado o seu entendimento da vida, pedi-lhe uma entrevista. O que se seguiu foi uma conversa curta, enquanto ela tirava um dia de folga de uma ronda de tratamentos experimentais extremamente dolorosos. Entre ataques de tosse e goles de água, ela falou com uma confiança e clareza que me desarmaram – não porque não tivesse medo, porque não estivesse triste ou com raiva, mas porque, pareceu-me, tinha vivido suficiente tempo com o espectro da morte a pairar sobre si para conseguir fazer dele o seu professor. Como disse à minha irmã na noite em que Katia faleceu: morrer parece assustador, misterioso, difícil e estranho, mas se alguém sabia como o fazer, era a Katia.


Vê: "Matar o Cancro"


VICE: Uma vez ouvi-te responder a uma pergunta de alguém sobre se a tua condição era terminal e disseste algo como “Bem, toda a nossa condição é terminal”. A resposta realçava o quão pouco tendemos a considerar a nossa mortalidade. Como é que o reconhecimento da tua mortalidade evoluiu com o tempo - antes do cancro e agora - e como é que isso afectou os teus sentimentos em relação à morte?
Katia Bozhikova: Quando fui diagnosticada tinha 26 anos. Não é uma idade em que as pessoas sejam encorajadas a olhar para a morte. Há tanta coisa que vem da comunidade médica, especialmente quando és jovem, que te faz não pensar sobre a morte. Esse era o grande tabu. Só o simples facto de fazer a pergunta, era como se estivesse a fazer algo errado.

Qual pergunta?
Tipo, o que acontece na morte? E se eu morrer? Estava constantemente a ser puxada para fora disso. Mas, acho que a minha exploração realmente aprofundou-se quando o diagnóstico de estádio quatro chegou, porque não senti de imediato um medo insano da morte. Senti medo de passar pela parte da morte da vida.

Então, a morte não era assustadora? Morrer não era assustador?
Sim. Fiz algumas experiências psicadélicas com um guia espiritual - não num ambiente de festa - e isso retirou-me muito do medo da morte. Esse tipo de tratamento não é para toda a gente, mas a minha experiência foi semelhante àquela que muita gente descreve como uma dissolução do ego.

Mas, num nível mais consciente, vi um amigo próximo morrer de cancro há uns dois anos e havia muitas máquinas a apitar, ele não estava em casa e, honestamente, isso aterrorizou-me mais que o momento da morte. Esse é meu maior medo. Há cerca de seis meses fui diagnosticada com estádio quatro e tive muitas ondas de experiências diferentes, algumas muito positivas e outras muito negativas. Como não moro no meu país natal e estou longe da minha família, tive medo de ser cuidada por estranhos.

No entanto, os meus amigos e a minha comunidade provaram-me que estava errada. Não sei onde estaria agora sem eles. Encontro sempre pessoas que me ajudam a cuidar de mim. Há muitos dias em que sinto dor em todo o corpo, portanto é muito complicado pedir a alguém com um emprego para ficar acordado comigo durante a noite inteira para que possa ir à casa-de-banho, beber água ou tomar a medicação. Para mim, isto parecia um fardo, mas nenhum dos meus amigos fez com que alguma vez o sentisse como um fardo. Em nenhum ponto me abandonaram.

Pensar muito sobre a morte e considerar a sua possível iminência mudou a forma como te sentes sobre estar viva? Mudou a qualidade da tua consciência?
Muitas coisas pequenas que sempre me preocuparam, como a minha aparência e certos padrões sociais, caíram um pouco. E isso removeu muitos filtros, pelo que sou muito mais autêntica comigo mesma. Já não tenho em conta outras pessoas como parte da minha própria imagem.

Descreverias isso como sentires mais clareza que no passado?
Certamente que sim e isso teve repercussão na minha relação com a minha mãe e outras pessoas que não viam necessariamente vida e morte como eu. Percebi que não é a minha função fazer quem quer que seja sentir-se bem. A minha função é ser honesta.

Como é que retiras sentido do papel da dor na vida? Vês isso como uma parte valiosa da experiência humana?
É uma boa altura para fazer essa pergunta, porque acabei de passar por umas duas semanas de dor. Quase perdi a cabeça. Não foi bonito. Não é o tipo de dor que permite sabedoria. Recentemente, alguém me disse: “A dor é uma bela professora, mas só depois”. Não havia um ponto nessa dor que garantisse que qualquer meditação ou afirmação pudesse funcionar, porque a dor leva-te até às raízes de uma forma que, realmente, te mostra os limites onde corpo, alma e espírito se juntam.

A dor é uma força muito restritiva, certo? Deixa-te de uma forma que não permite perspectiva e abertura.

A única coisa que me ajudou foi focar-me na minha respiração e não lutar. Mas, isso não fez a dor desaparecer ou diminuir. Os seres humanos fazem muito essa coisa de puxar e empurrar e, em certos momentos, aprendi a parar de o fazer, só permitir a experiência estar ali. A maior lição disso é que me privo da vida que ainda tenho a tentar afastar a dor, porque a dor é uma grande parte da minha vida agora, não há como o negar. Mas, puxar e empurrar tira-me toda a minha energia.

Voltando à morte, falas sobre esses temas pesados com reverência, mas também com uma certa leveza, como se não fosse algo tão sério. Como é que encontraste esse equilíbrio?
Já não desperdiço tempo a comparar-me com os outros. Parar de o fazer tira-te muito sofrimento desnecessário. Quando sentimos que estamos a ser privados de algo que supostamente deveríamos ter, algo que decidimos que deveríamos ter, porque achamos que os outros têm, é quando as coisas tendem a tornar-se “sérias”. A vida é demasiado séria para ser levada a sério.

Claramente, ser diagnosticada com cancro tem sido uma experiência transformadora para ti. Uma mudança real exige eventos tão enormes e cheios de consequências na vida? O que é que permite essa mudança real?
O que nos faz mudar é quando algo nos é tirado, algo que sentimos que temos direito. Os nossos corpos são alugados. Este dia é alugado. Nada vai ficar. E, se vivemos com uma mentalidade de “tenho direito a isto”, “mereço isto”, em algum ponto vamos ficar atolados a tentar agarrarmo-nos a algo que não é nosso, que já não está lá e temos que mudar.

Como é que uma pessoa existe mais ou menos bem?
Rodeares-te de amor é importante. Somos criaturas tribais. Mas, isso não é algo que venha de uma obrigação. Vem de nutrir relações. Estou a fazer os tratamentos mais loucos agora que, sozinha, nunca seria capaz de aguentar. Ter o apoio e o amor da minha tribo significa tudo.

A entrevista foi editada para maior clareza.


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