Matéria originalmente publicada noWaypoint.Há muitas razões para gostar de Life Is Strange, o jogo de aventura sobrenatural da Dontnod de 2015. E apesar de a história principal ser muito boa, o verdadeiro show estava no relacionamento sincero e emocionante de Max Caulfield e Chloe Price. Além da novidade de ver duas mulheres jovens protagonizando um jogo, Life Is Strange ficou conhecido por estar cheio de subtextos LGBT. Esses subtextos são explícitos ocasionalmente (por exemplo: na cena do beijo), mas era só no finalzinho que se revelava um romance aberto, e trágico, entre as duas.
As escolhas de Max estão nas mãos do jogador – também é possível investir num romance com um personagem homem – mas o jogo contém várias referências à sexualidade de Chloe. (Em certo ponto, ela menciona ter relacionamentos com garotos, além de "outras coisas".) Mas por mais que Life Is Strange fosse celebrado por fazer referência a um relacionamento homoafetivo num videogame, o jogo foi criticado por demorar muito para chegar lá. (Também há críticas legítimas sobre como o jogo trata o lado LGBT, de queerbaiting a como os personagens não-héteros morrem rapidamente.)Life Is Strange: Before the Storm, a "prequela" em três episódios passada alguns anos antes dos eventos do jogo original, foi anunciada na E3 e estreou na última semana, no dia 31 de agosto. O jogo não apresenta poderes sobrenaturais e a Max quase não aparece na história (ela só está num episódio bônus). Em vez disso, o jogo foca no relacionamento entre Chloe e Rachel Amber, uma personagem que desaparece no começo de Life Is Strange e serve como gatilho pro enredo.
O primeiro Life Is Strange insinua que Chloe e Rachel eram próximas, mas deixa o relacionamento das duas bastante ambíguo. Before the Storm vai tentar preencher essas lacunas. O jogo está em desenvolvimento na Deck Nine de Denver, não na Dontnod de Paris, que já disse estar trabalhando num numa continuação da história de Life Is Strange.
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A filmagem mostrada na E3 parece muito com Life Is Strange, mesmo que a falta da voz de Ashly Burch para Chloe, devido à greve da roteirista, seja notável.Depois de mostrar uma breve sequência jogável durante o evento, mostrando como Chloe vai tomar decisões permanetes, em vez de usar a habilidade de voltar no tempo e tentar de novo, a Deck Nine mostrou alguns minutos das filmagens de Before the Storm. O trecho é uma cena bem familiar, em que Chloe e Rachel estragam o próprio dia rapidamente quando começam a brigar. Quando a discussão esquenta, Rachel pergunta a Chloe qual é o status do relacionamento delas. O jogador então recebe duas opções. Uma insinua que elas são amigas. A outra? "Algo mais."No vídeo que assisti, o jogador escolhia amigas, o que fez o público só de homens assistindo dar sinais de frustração. Mas dentro dessa escolha, Chloe admite que não tem certeza sobre como se sente. Os desenvolvedores me disseram depois que o jogador terá várias oportunidades para trabalhar o relacionamento entre as duas.Parece que a cena, e essa conversa em particular, foi incluída por uma boa razão: Before the Storm não apenas reconhece como Life Is Strange explorou relacionamentos LGBT, mas, em vez de subtexto, a coisa toda será explícita.Depois da demo, pude falar com o roteirista principal de Before the Storm, Zak Garriss, que tem 35 anos e definitivamente não é um adolescente tentando entender a própria sexualidade. Na conversa, destacamos como a Deck Nine está abordando Before the Storm para fazer justiça a certos temas e ideias com que a Dontnod apenas flertou, e como Life Is Strange fez as pessoas se sentirem representadas no jogo.
Waypoint: A comunidade LGBT adorou Life Is Strange. Além de ser um game sobre uma mulher jovem, o que é raro no meio, a história também era sobre uma mulher jovem entendendo sua sexualidade. Pelas prévias que vi do novo jogo, isso é claramente algo a que vocês pretendem responder. Você pode falar sobre como as comunidades responderam – especificamente a LGBT – ao jogo? Zak Garriss: Acho que, como criadores, nós da Deck Nine admiramos o que a Dontnod fez em abrir caminho aqui, nas maneiras que você acabou de descrever: contando histórias da perspectiva de garotas adolescentes, contando histórias sobre garotas adolescentes que podem ser gays.Questões de representatividade são altamente importantes agora no geral, e são altamente importantes para nós quanto estúdio, são o coração dessa franquia. Quando estávamos examinando o tipo de história que queríamos contar no universo de Life Is Strange, acho que essa parte nem podia ser negociada. Isso será parte da história porque é um componente muito importante de como o primeiro jogo ressoou de maneira tão forte com os fãs.Quanto a nós como artistas, olhamos pro que a Dontnod fez aqui e dissemos, "Isso é algo muito bom. Precisamos fazer mais disso. Mais de nós precisam fazer isso". Isso nem estava em questão. Queríamos continuar essa coisa infelizmente corajosa [que a Dontnod fez com a história]. Digo infelizmente porque gostaria que fosse algo normal.
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A sexualidade era um tema sobre o qual o jogador podia agir, mas não era algo realmente reconhecido até o final da história, pelo menos não explicitamente. Parece que o que vocês estão abordando em Before the Storm será mais direto nesse ponto.
O momento da filmagem que você assistiu foi um ponto de, hum, polêmica entre os roteiristas. E digo polêmico de um jeito bom. Examinando o momento específico na história do primeiro episódio – esse lugar específico é aquele ferro-velho, aquela conversa, aquela escolha, e o que estamos fazendo no arco maior do relacionamento entre as garotas. Analisamos várias maneiras diferentes de explorar isso, maneiras de fornecer a oportunidade para o input do jogador.No final das contas, decidimos – e fiquei muito feliz com isso – explorar um relacionamento que é como um relacionamento real, no sentido que não é estático. Não há um momento em particular no tempo onde você toma uma decisão sobre se está ou não com alguém, ou mesmo sobre como você se sente.Acho que uma das principais questões de ser adolescente é não estar no controle. Tentamos criar uma variedade dinâmica de interações entre Chloe e Rachel, para que o jogador se sinta de um jeito num dia e de outro no próximo. Vai haver uma resposta inteligente e pensada dos personagens com quem você está interagindo de acordo com o que você escolhe. Achamos que isso vai render um trabalho interessante em deixar o jogador construir e se ligar aos personagens com quem está interagindo, como a Rachel, através da ação que estamos te dando.
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Como estúdio, como roteirista, escrever sobre adolescentes é obviamente diferente. Escrever sobre adolescentes potencialmente queer é obviamente muito diferente. Que tipo de trabalho de pesquisa vocês fizeram para entender essa perspectiva e escrever algo de acordo?
É difícil fazer muita pesquisa. Acho que é algo que você simplesmente faz? [Sorriso] Para mim, isso teve muito a ver com autobiografias. Gosto de ler histórias autobiográficas de perda, de identidade, porque esses são relatos das experiências em primeira pessoa.Temos uma equipe de roteiristas diversa. Temos homens e mulheres. Temos pessoas de todas as origens. Temos algumas pessoas quase tão velhas quanto eu. Sou o mais velho, claro – sou um homem de 35 anos. Não sou uma garota de 16 anos. Nossa roteirista mais jovem é uma mulher de 20 que ainda está na faculdade. Tentamos ter uma pluralidade de perspectiva na nossa equipe.Mas outra crença central – ou eu deveria dizer minha crença central, como principal roteirista. Não quero falar pela minha equipe inteira aqui. Não estamos tentando falar por nenhuma comunidade. Não queremos dizer, "É assim que é ser uma garota de 16 anos queer". Estamos buscando criar a Chole, e estamos realmente focados em quem a Chloe é. Ela tem muitas facetas, e não é definida por qualquer aspecto único de seu caráter – sua sexualidade, sua identidade de gênero. Ela é um agregado de tudo isso.Se disséssemos, "A comunidade está respondendo a esse arquétipo, então vamos construir algo que responda a isso", estaríamos construindo um arquétipo, não um personagem real. Tentamos não fazer isso deliberadamente, e ouvir as vozes daquelas experiências para mapear o que estamos dizendo sobre as experiências da Chloe, e escrever desse ponto. E sermos atentos e críticos enquanto a escrevemos.Siga aVICE BrasilnoFacebook,TwittereInstagram.