sexualidade

O que aconteceu quando fiz um workshop de "squirting sagrado"

Assisti a uma aula com o objectivo de libertar alguma emoção da minha vagina.

Por Susanna Freymark
10 Agosto 2017, 2:12pm

Foto por Aleksandra Kovac via Stocky.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Broadly.

"Que levante a mão quem já teve uma ejaculação feminina". Cerca de 50 mulheres estão espalhadas pelo chão, sentadas sobre as toalhas que nos pediram para trazer. Umas oito levantam a mão. A nossa instrutora, Christine, que fez a pergunta, abana a cabeça com um ar sábio.

Estamos numa sala quente e abafada num salão comunitário, num workshop dedicado à arte do "Squirting Sagrado". Há uma relação ancestral entre mulheres e água, diz o site do festival Taste of Love, que prometia uma "sessão cerimonial", com espaço para "explorar a nossa natureza feminina e libertar emoções armazenadas na vagina".

O festival acontece em Byron Bay, epicentro australiano de todas as coisas New Age.. e aceitavam cartão de crédito. Christine é uma bailarina, cantora, compositora, "parteira espiritual" e "guerreira da luz" dinamarquesa, que mora num yurt na ilha de Møn na Dinamarca. Portanto, se há alguém capaz de ensinar mulheres curiosas a ejacular - e como o fazer espiritualmente - provavelmente é ela.

Depois de nos sentarmos, Christine começa a falar numa voz suave sobre ejaculação feminina. Prestamos atenção, tentando absorver todos os seus segredos de squirting. "O vosso ponto G é uma porta para a vossa alma", diz. Uma mulher levanta a mão: "O que sai é água ou urina?". "É água dos grandes tecidos que cercam o ponto G", responde Christine. E acrescenta: "Ejaculação feminina é uma questão da conexão e das vossas águas sagradas".

O squirting, ou ejaculação feminina, tem sido um foco de curiosidade intensa ao longo da história da humanidade. O tema foi abordado pela primeira vez no Ocidente por Hipócrates e Aristóteles e aparece em textos taoístas do século IV, que destacam as propriedades místicas e medicinais do líquido.

No século XIX, no entanto, a coisa era menos celebrada. "Richard von Krafft-Ebing - o primeiro 'médico de sexo' moderno - descreve a ejaculação feminina como algo relacionado quase que exclusivamente à homossexualidade das mulheres", salienta Alex Dymock, professor da Edge Hill University de Lancashire, em declarações à VICE. E refere: "Era algo ligado ao medo de pessoas degeneradas, cuja 'fraqueza' se devia a aberrações sexuais".

Hoje, já não. A palavra "squirt" é, agora, o terceiro termo porno mais procurado na Austrália e este workshop faz parte de um movimento global para ajudar mulheres a explorarem a sua sexualidade e espiritualidade. Atribuir espiritualidade a experiências sexuais tornou-se um movimento, ou indústria, com festivais e aulas a ocorrerem por todo o Mundo, que oferecem desde "Dança Eros" e "Ioga Yoni", a "Arte do Spanking Zen".

Enquanto isso, aqui no "Squirting Sagrado", estamos a tentar imitar Christine, que está a girar os quadris e a instruir-nos a sentir a nossa preciosa energia feminina. Momentos depois, está no chão, nua para além de uma saia longa e esvoaçante enrolada até as coxas. Desliza dois dedos para dentro da vagina e explica como encontrar o ponto certo para estimular. "É diferente para cada mulher", explica. "Agora tentem!"

Em menos de um minuto, a maioria das mulheres já se despiram. Christine continua os seus movimentos e descreve o que está a fazer. Depois de algum tempo começa a fazer algo que só pode ser descrito como um guincho; então, inclina a pélvis e, com um grande sorriso no rosto, liberta uma fonte da sua vagina, que - sem qualquer tipo de piada - acerta nas mulheres da primeira fileira. As mulheres gritam e riem. O fluído continua a sair. Uma mulher da primeira fileira está com água sagrada nas asas de anjo tatuadas nas suas costas. "É uma libertação!", diz Christine.

De seguida, uma conversa de dois minutos sobre técnica e, de repente, é a nossa vez. Cinquenta mulheres começam a masturbar a área ao redor do ponto G; algumas deitadas, outras agachadas ou de joelhos. "Uau!", grita uma mulher, levantando a mão enquanto as contas do seu colar balançam à volta do pescoço. "Primeira da turma!", diz alguém em resposta.

Foto por HOWL via Stocksy.

Nesse momento, já eu tinha tirado a roupa. Com a sala abafada, foi um alívio. No entanto, as minhas medidas tornavam o meu ponto G difícil de alcançar: tenho mais de 1,80 metro e um torço longo.

"Sintam as partes ásperas - vão mais além", encoraja-nos Christine. "Sintam as ondulações nas vossas vaginas". Ela chama mulheres para a frente e guia-as no processo, cantando e fazendo barulhos com a boca como uma mãe pássaro. De repente, atira uma caixa de luvas de borracha e óleo de coco para o centro da sala e sugere casualmente que cada uma "encontre uma parceira e o faça uma com a outra".

O barulho na sala vai aumentando. Algumas mulheres gemem, outras riem. "Mantenham a voz suave", lembra Christine, acrescentando que as bocas das mulheres relacionam-se com as suas vaginas. Diz: "Se a vossa boca estiver macia, a vossa vagina vai libertar-se".

Outras mulheres parecem vir-se, consigo ouvir os seus gemidos semiconscientes a pontuarem a sala abafada. Outras continuam a tentar fazer acontecer, como se estivessem num tipo de corrida. Ao meu lado, duas mulheres revezam-se tocando uma na outra: uma deita-se e a outra entra com os dois dedos na luva de borracha. Uma diz que sentiu o orgasmo, mas, infelizmente, não havia nenhum líquido.

Se ejaculação feminina "existe", à falta de uma palavra melhor, há décadas que não é tema de debate entre especialistas, com apenas alguns estudos a procurarem explicar a sua mecânica. Em 2015, uma investigação publicada no The Journal Of Sexual Medicine investigou as secreções de sete mulheres que diziam emitir cerca de um copo de fluído durante o sexo. Depois de analisar o fluído, os investigadores descobriram que o líquido de todas elas era, principalmente, composto por urina - apesar de que em cinco das amostras também havia um pouco de enzima antígeno (PSA), localizada na próstata do homem e nas glândulas de Skene nas mulheres.

Portanto, quanto à questão se a ejaculação feminina é apenas xixi, a resposta é sim. Mas, também é não. Embora seja principalmente sim. Claro que ninguém está a pensar nisso quando a segunda hora chega ao fim e Christine pega na sua guitarra para cantar uma música na sua língua nativa. Enquanto passeia pela sala e toca, as mulheres terminam as suas tentativas de ejacular. Um casal ao meu lado beija-se, chora e ri ao mesmo tempo.

Quando Christine termina a música e as cortinas se abrem, toda a gente se senta direita e veste-se. Todas prontas para se irem embora. "Isto foi espectacular", diz uma participante, apertando a mão da professora em sinal de gratidão. "És uma inspiração. Obrigada por partilhares o que sabes".


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