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Cultura

"Game of Thrones" arruinou quase todos os personagens

Em "The Bells", o penúltimo e chocante episódio da série da HBO, grande parte dos personagens chegam ao fim da sua jornada, mas de formas que não fazem sentido.

Por Noel Ransome; Traduzido por Madalena Maltez
14 Maio 2019, 4:13pm

Todas as imagens cortesia HBO.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Atenção: é só spoilers.

Nos últimos minutos de vida de Cersei, há um momento em que ela diz a frase que resume perfeitamente este episódio: "Assim não".

O que posso dizer sobre o quinto episódio da oitava temporada de Game of Thrones, "The Bells", que não seja equivalente a um "roast" do tamanho de Drogon. Essencialmente, prometeram aos espectadores um episódio de 80 minutos que, por fim, aproximaria Daenerys do Trono de Ferro. Mas, os primeiros 30 minutos foram marcados por uma traição em lume brando, que levou à execução - por dragão - de Lord Varys. Esses minutos também contribuíram para o fim do romance (agora incestuoso) entre Daenerys e Jon Snow. E, mais tarde, Tyrion libertou o seu irmão Jaime e sugeriu-lhe que fosse ao encontro de Cersei, de forma a escaparem para uma nova vida, como se essa não fosse a pior ideia de sempre.

Depois, temos a introdução a Mad Queen Daenerys, que deixa King's Landing em cinzas - incluindo crianças -, para além de uma série de mortes anti-climáticas que conseguem envergonhar a derrota do Night King. Foi uma sequência impressionante, brilhantemente filmada, infernalmente perturbadora, bem representada… mas terrivelmente mal escrita.


Vê: "Cozinhámos a empada de pombo de 'Game of Thrones'"


Ao longo dos anos, os fãs de Game of Thrones habituaram-se a uma série que aprofunda todas as coisas boas de um personagem, espremendo o pior de cada um. Já passou quase uma década desde Ned Stark, por isso é justo. Mas, até à sétima temporada, essas decisões foram justificadas com arcos de personagens que eram consistentes e seguiam uma lógica interna.

Tudo bem se cortassem a cabeça a Ned, porque ele era um nobre tonto, que esperava que o estado de direito salvasse o dia. Robb Stark foi assassinado porque era um romântico (e também porque esperava que o estado de direito salvasse o dia). Cersei era uma grande vilã, porque se percebia porque é que era como era. Caraças, até mesmo o puto que matou Jon Snow teve vários episódios dedicados ao seu raciocínio e traição final.

Não consigo ser suficientemente enfático sobre o quão desapontante tem sido esta temporada, limito-me a deixar abaixo as imperdoáveis decisões que Game of Thrones tomou relativamente a algumas personagens.

Daenerys Targaryen

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Por fim, chegaram a Daenerys. Daenerys Targaryen atingiu a sua forma final ao abandonar o conselho de não usar armas de destruição em massa - que é o que um dragão é - sobre os inocentes de uma surpreendentemente grande King’s Landing. Apesar da vitória óbvia contra os Lannister, Dany ouve os sinos da rendição e, em vez de oferecer misericórdia, levanta-se e incendeia tudo o que lhe aparece à frente - crianças incluídas. Já se andava a insinuar que Dany se estava a tornar demasiado obsessiva com o trono e tinha algumas das características do seu pai, Mad King, mas esta reviravolta foi mais tipo chicotada.

Uma Mad Queen Daenerys não é credível.

Lembra-te da altura em que torcer por Daenerys era a coisa mais fácil nesta série. Ela era boa, mas dura, "Breaker of Chains", que podia mediar a paz tanto com bárbaros, como com escravos. Nós chamámo-la de “Dany” e vimos o seu talento para fazer churrasco de escravos e inimigos tornar-se uma demonstração de satisfação. Desde o primeiro episódio, a série fez-nos testemunhar as suas provas - criar dragões, libertar cidades, salvar o idiota do Jon Snow e ajudar a derrotar o Night King. Mas, agora, é suposto acreditarmos que a protagonista mais razoavelmente adorável é, afinal, a vilã mais irracional da série?

Durante umas boas sete temporadas e muitas mudanças, a série tem mantido a ideia da importância da justiça para Dany; uma rainha interessada em igualdade, tendo a lealdade como único requisito - ajoelha-te e não teremos problemas, dizia ela. O paradoxo disso vem da constante advertência de que o sangue Targaryen é susceptível à instabilidade mental. Como Varys disse, “cada vez que nasce um Targaryen, os deuses atiram uma moeda ao ar”. Esperar-se-ia que tivessem começado a estabelecer pontes para esta transição ao longo do tempo - houve uma pequena tentativa de mostrá-la cada vez mais isolada -, mas, de repente, o que acontece é que nos pedem que ignoremos quase tudo o que sabemos sobre a personagem. Só porque a nossa rainha está sozinha e foi novamente traída, abate milhares de pessoas que são prisioneiras por direito próprio. Como se os sons dos gritos não a fizessem parar? Vá lá.

É possível que este arco tivesse funcionado se as sementes da transição tivessem sido plantadas antes e cultivadas. Talvez se terminar os livros, George RR Martin seja capaz de mostrar a sua descida à loucura de uma forma que evidencie a tragédia de tudo e o que acontece a uma pessoa consumida pela ânsia de poder. Mas, a série fez mal a esta Daenerys.

Jon Snow

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Graças a Jon ter aberto demasiado a sua nobre boca em The Last of the Starks, a sua identidade Targaryen torna-se o assunto do dia por toda a cidade, resultando na execução de um dos personagens mais intrigantes de A Guerra dos Tronos, Varys. Até Jon testemunhar Daenerys a incendiar uma cidade, praticamente negligencia cada sinal de loucura de que Daenerys se está a transformar numa pessoa alucinada com um dragão. "Ela é a minha rainha", diz repetidamente. A série diz-nos que ele é a melhor opção para o Trono de Ferro, mas devemos confiar num homem ingénuo que nem sabe dizer quando a sua amante/tia é a má da fita?

Jon Snow ainda não fez nada.

Já percebemos, Jon é a personificação de tudo o que é nobre, corajoso e bom. Está claro que o seu valor, humildade e honestidade fazem dele melhor do que todos nós. Mas, o seu arco, como o de Ned, tem o hábito de o mandar para sítios estúpidos.

Este é um homem que tem todos os ingredientes de um herói clássico - as mesmas características que levam as pessoas a morrer em Game of Thrones. Morreu uma vez, mas somos constantemente relembrados de que ele é o grande - agora maior do que Dany, se tiveres em conta as recentes acções que envolvem queimar uma cidade - futuro governante.

Mas, isso é ignorar o facto de que Jon falha como se, para ele, falhar fosse um desporto, arrastando-se de um cenário para outro, até que alguma mulher - Arya, Daenerys, Sansa, Ygritte ou Melisandre - o salve. O que é que ganhámos exactamente com o seu status de super-homem? Ele não matou o Night King. Ele não derrotou Cersei. Ele não ganhou uma única guerra através da sua própria estratégia militar. Que tipo de arco de pescadinha-de-rabo-na-boca é este?

Cersei Lannister

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Nos momentos finais, Cersei é despojada de todo o seu narcisismo à medida que se vai abaixo. King's Landing começa a cair sob as chamas de Daenerys. Nos momentos finais de The Bells, ela já não é a mulher calculista e de ferro que conhecíamos. Em vez disso, está assustada e a choramingar, "Não quero morrer", antes da citação à Matrix, "Assim não". Jaime abraça a sua irmã pela última vez enquanto um telhado desmorona sobre os dois.

Cersei morreu de uma maneira muito pouco Cersei.

Esta é difícil de engolir para um personagem que é consistentemente o jogador mais esquivo e inteligente da série. A rápida destruição do Night King sugeria um encontro final épico com características finais épicas - planos A, B e C. Em vez disso, tivemos uma continuação das duas últimas temporadas de Cersei, uma personagem que não fez nada de muita importante, enquanto sacrificava a sua dignidade com um personagem ridículo como Euron Greyjoy. Há muito pouco de complexo numa mulher assustada a chorar nos braços do seu irmão-amante. E agora, acaba sem um plano B, graças aos bons velhos danos colaterais. Só faltava uma música de fundo da Celine Dion como cereja no topo deste bolo anti-climático.

Jaime Lannister

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À boa maneira tradicional de Jaime, ele é apanhado por Daenerys a caminho de se encontrar com a irmã Cersei. O irmão Tyrion safa-o depois de uma troca de palavras reconfortantes de irmão para irmão. Ele luta contra Euron, que sai directamente do mar, vence e volta para Cersei enquanto tentam escapar pelos túneis subterrâneos para começarem uma nova vida. Obviamente, isso não acontece e ambos morrem num abraço sepultado pelas pedras que caem do tecto.

Ele ainda está apaixonado.

A única coisa que parece diferente em Jaime é que ele já não é um irmão a tentar assassinar crianças, mas ainda é um irmão que ama a sua irmã. É como se ter nomeado Brienne cavaleira, dormido com Brienne e manter a sua promessa de lutar pelos vivos, afinal não significasse grande coisa. Deixou em lágrimas uma mulher honrada e voltou para uma irmã que fez coisas impensáveis a inúmeras pessoas e planeou o seu próprio assassinato. Neste ponto, o seu amor parece irracional e desprovido de qualquer pensamento relevante para o crescimento moral que esta série passou temporadas inteiras a estabelecer para Jaime. Ele ganhou o direito de viver, mas afinal morreu de maneira merdosa às custas e ao lado da irmã.

Tyrion Lannister

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Tyrion tinha outra escolha neste episódio. Podia ter ficado do lado do seu amigo de longa data, Varys, ou podia ir com a rainha e, essencialmente, condenar Varys à morte. Numa outra escolha, imprópria de alguém supostamente inteligente, escolheu Daenerys e assistiu estupidamente surpreendido enquanto ela incendiava King's Landing, matava inocentes e, posteriormente, matava o seu irmão e irmã.

É suposto que Tyrion seja esperto.

O clássico Tyrion tinha que ter antecipado isto. Tinha que ter considerado o crescente isolamento de Daenerys combinado com o seu sangue Targaryen para entender que ela não estava bem da cabeça. O homem mais sábio continua a mostrar-se um idiota. Um fracasso enquanto mão direita da rainha. Uma posição em que continuamente forneceu conselhos táticos terríveis - é como se não conhecesse as tácticas de Cersei Lannister de toda a vida.

O Tyrion da oitava temporada é também um homem de estúpido optimismo. É um tipo que tenta convencer a irmã a parar uma guerra com palavras. E é um tipo que convence o seu irmão a começar uma nova vida com a mesma irmã que tentou assassinar os dois. O idealismo é muito bom, mas não há nada sobre as experiências de Tyrion do mundo que sugiram que o idealismo tenha trabalhado a seu favor. Um homem tão inteligente como ele não tem motivos para confiar nessa ideologia como se fosse um benefício.

Arya

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Mais tarde, encontraremos The Hound e Arya em King's Landing, em busca de vingança. Ele está focado em Mountain, ela está focada em Cersei. Mas, assim que chegam, o inferno desce à terra quando Dany toma a sua decisão de Mad Queen e The Hound salva Arya ao dizer-lhe para sair da cidade. Pessoas ardem, merdas acontecem e ela é deixada numa cena excessivamente dramática com cinzas a cair do céu e um belo cavalo.

Uma Arya não-vingativa não faz sentido.

A vingança deve ser má, certo? É a lição que supostamente devemos tirar, porque matar é mau. Mas, Arya é diferente, não é? Passámos temporadas de desenvolvimento de personagem e momentos em que ela está interessada em apenas uma coisa: a morte. De acordo com as próprias palavras de Syrio: "Só há uma coisa que dizemos à morte: hoje não" e ela assume isso tanto como um meio de a explicar, como de a evitar. Vamos contar os factos:eEla assassinou os guardas de Lannister. Ela assassinou homens Frey. E ela assassinou o velhote que matou a sua mãe e o seu irmão. Mas, de repente, porque Hound o diz, a vingança agora é má e ela tem uma epifania porque um dragão incendiou uma cidade? É melhor pegar num cavalo branco e partir para o pôr-do-sol cinzento. Para ser justo, pelo menos este arco quase funcionou para mim.

Drogon

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Drogon quase foi destruído por flechas que matam dragões há apenas um episódio atrás, as mesmas flechas que mataram o seu irmão, Rhaegal. Neste episódio, ele arrasa com todos sozinho.

Derepente, Drogon é outra vez super poderoso.

Alguém me pode dizer como é que este dragão passou de mal ser capaz de detectar navios à distância, a rebentar sozinho com uma frota inteira de barcos que disparam flechas? Os dragões são super poderosos ou não? Bem, isto pelo menos seguiu o que as temporadas anteriores nos disseram sempre: os dragões são as bombas nucleares deste mundo.

Euron

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Este gajo mata um dragão num episódio e vê toda a sua frota esfumar-se no seguinte. Mais tarde, morre às mãos de um já muito esfaqueado Jaime.

Euron morreu como vilão simbólico.

Euron sempre foi uma espécie de lixo simbólico por default. O pirata punk entesado estava destinado a ser alguém que se aproximava de personagens adorados através de tácticas que faziam pouco sentido. A dada altura, de alguma forma esgueirou-se até à frota de Yara, derrotando os aliados de Dany, Dornish, num único golpe. Ele era um instrumento barato para dar a um amado vilão como Cersei competição à altura. Por isso, naturalmente, saiu da maneira mais merdosa possível, com uma espada no estômago, para ser esquecido para sempre enquanto fala consigo próprio.

Pelo menos tivemos finalmente o Clegane Bowl, que foi bastante decente.


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