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Sexo

Porque é que quando tu não queres um compromisso, ele se apaixona?

O que a inversão dos papéis de género pode fazer a uma relação heterossexual.

Por Madalena Maltez
26 Abril 2019, 10:43am

Uma pessoa é obrigada a comer só um cachorro? Foto por Annie Spratt no Unsplash.

Dizem-me que esta minha premissa não é generalizável – ou melhor, nada indica que o possa ser. Mas, eu sou teimosa e mantenho-a, porque a vi acontecer a muitas e porque, só comigo, já aconteceu várias vezes. A verdade é que é assim que se constrói a sabedoria popular, com base no costume, por isso foi também assim que eu construí este meu leque (ainda que possivelmente enviesado) de conhecimento sobre relações heterossexuais.

Diz o povo que queremos sempre o que não podemos ter, que o fruto proibido é o mais apetecido e que quanto mais me bates mais gosto de ti. Assim sendo, faz sentido que isto aconteça nas relações: quando um dá mais o outro dá menos e, quando um pára de dar, o outro quer mais do que alguma vez quis. É um fenómeno injusto da natureza humana, mas está presente nos recantos mais obscuros das nossas mentes, naqueles que escondemos dos outros com a mesma veemência com que omitimos as mensagem que mandamos depois do quinto vodka. É assim mesmo: queremos sempre o que não devíamos querer.


Vê: "O que é que se passa com o amor?"


É a clássica história da mulher solteira. Decides soltar-te dos preconceitos sociais, desta ideia de que a busca pelo casamento é o pináculo e o objectivo derradeiro das relações heterossexuais e que a monogamia é a única resposta certa e lanças-te aos lobos - vais em dates, sacas o Tinder ou começas a sair do Lux com uma companhia diferente a cada fim-de-semana. Seja qual for a tua técnica, deixas-te sucumbir ao pecado social do sexo sem compromisso. Largas as supostas regras de conduta feminina e decides que é só isto que queres, que já não estás para aturar discussões e ciúmes, que não queres dar justificações ou que o teu coração não está ainda pronto para outra. Abres as pernas a este novo mar de possibilidades sem rumo algum, porque a beleza está na viagem e não no destino.

Até que encontras um que te satisfaz melhor que os outros. Que te faz rir pelo caminho e com quem a manhã de domingo é tão boa quanto o sábado à noite. Decides que com este queres repetir, ir repetindo. Como um novo hobby ou um mau hábito. Explicas ao sortudo que isso não muda nada, que continuas com a certeza de que não te vais apaixonar, de que não queres nada sério, que disto não passa. Dizes-lhe as palavras que te levaram a crer que qualquer homem ficaria feliz de ouvir: “É só um caso. Nada de sério, nada de exclusivo, sem compromisso nem obrigações”.

E não é que, depois de uma vida repleta de desgostos amorosos, de relações falhadas e amores não correspondidos (como é a vida de todos nós), é logo este o homem que se apaixona por ti? Apesar dos avisos, apesar da ausência de compromisso, apesar de nunca lhe teres dito nada sentimental… ele apaixona-se e estraga o caso desprendido que andavas tão feliz por ter encontrado. Porque, lá está, queremos sempre o que não podemos ter. Ele quer-te, mais que nunca e com todas as forças, porque tu não o queres.

Sei que isto é assim porque me aconteceu e porque o vi acontecer e, de cada vez que acontecia, questionava-me como é que as coisas tinham chegado a este ponto. Sempre me perguntei como é que era possível que, com tantas mulheres à procura de um marido e tantas com o coração despedaçado, eu fosse logo das que não querem nem um “Dorme bem” por quem eles se apaixonam. Porque é que os homens não acreditam quando dizemos que não nos vamos apaixonar? Que não queremos, nem vamos querer, uma relação séria?

Segundo vários estudos sobre sexo heterossexual, o problema começa no princípio: no papel que os homens e as mulheres desempenham na esfera social. O homem é o garanhão, o macho que não chora nem sente, o chefe de família. O que só pensa em sexo e não em amor, o que em tempos antigos podia cometer adultério sem ser apedrejado, o que diz ordinarices bem alto encostado ao balcão da tasca do bairro e que só sai à noite para se safar. A mulher é a inocente, a pura, débil como a hóstia sagrada, que não deve falar de luxúrias, mas sim dedicar-se à busca de marido e da maternidade.

No estudo Casual Sex as ‘not a natural act’ and other regimes of truth about heterosexuality, de Farvid e Braun em 2013, analisa-se a forma como o sexo desprendido é visto socialmente e o impacto que isso tem no mesmo. “É tido como especialmente desejável para os homens, como algo de que eles se gabam de conseguir. Os homens são vistos como garanhões e sortudos, como se estivessem a ganhar alguma coisa, enquanto as mulheres são vistas como se estivessem a dar-lhes parte de si e são, muitas vezes, chamadas de porcas”, lê-se.

E continua: “A sexologia mainstream continua a ser governada pela ideia de que há diferenças biológicas entre homens e mulheres no que toca à vontade de ter relações sexuais e ao modelo reprodutivo que querem seguir”, apesar de já ter sido provado, estudo após estudo, que isso não é verdade. Como bem explica Terri Conley, professora de psicologia e estudos femininos na Universidade do Michigan, na sua Ted Talk, os homens e as mulheres têm igual vontade sexual e estão igualmente dispostos a ter sexo casual, dependendo apenas da proposta que lhes é feita, (no caso das mulheres, deparam-se frequentemente com o medo de que o parceiro não lhes saiba dar prazer ou de serem faladas ou mal vistas).

Nas comédias românticas, nos contos de fadas, nas telenovelas… estamos rodeadas de histórias em que os homens são representados como engatatões natos, incapazes de controlarem os seus impulsos e pensamentos sexuais e as mulheres como sensíveis, que choram pelo amor não correspondido e pela relação falhada. E essa ideia que, tantas vezes, até nós temos de nós próprias, é também a que os homens têm - “tende-se a perpetuar a noção de que as mulheres são mais relacionais e os homens mais sexuais”, explicam as autoras no mesmo estudo.

Falei com Leonor de Oliveira, psicóloga clínica e doutoranda em Sexualidade Humana na Universidade do Porto - naquele que é o primeiro doutoramento europeu nesta área - que me ajudou a pesquisar e a reflectir sobre esta questão. “A tua experiência, não sendo generalizável, põe em causa os modelos vigentes de masculinidade e feminilidade”, realça a especialista por e-mail. E acrescenta: "Existe também a noção de que as relações monogâmicas são naturais e o sexo casual não, ainda que o que as pessoas parecem procurar no sexo casual seja precisamente uma naturalidade desprendida, apesar de até elas próprias o terem internalizado como não natural”.

Posto em palavras minhas, parece-me que uma mulher, ao vocalizar que aquilo que procura não é uma relação, está a pôr em causa dois modelos sociais - o de que as mulheres não são tão sexuais como os homens e o de que o casamento deveria sempre ser a nossa prioridade. Ao questionar esses modelos, explica-me Leonor, “o que está em causa no que me contas é uma inversão do papel de género”. E salienta: “Estás a comportar-te mais em conformidade com o papel ‘desprendido’ habitualmente atribuído aos homens, em vez de actuares sob as ‘regras do bom comportamento feminino’ de ser delicada, apaixonada e investida na família e descendência”.

“Uma evolução possível da tua teoria pessoal seria algo como: por ires contra o papel de género, por seres menos ‘domesticável’, acordas neles o movimento contrário do que é, supostamente, o esperado”, reflecte ainda Leonor. E conclui: “De alguma forma, activas a vulnerabilidade deles, que se demonstra pela procura de afecto e de tentarem selar a vossa relação com o compromisso”.

Ou seja, ao ser menos o que se espera que uma mulher seja, confundo-lhes o ego masculino, no sentido em que perdem o rumo daquilo que sempre lhes fizeram acreditar que eles deveriam ser. O que eu senti, na minha experiência pessoal, foi que eles esperavam - secretamente - que fosse tudo só conversa e que, como mulher que sou, iria acabar apaixonada que nem Cinderela à espera de ser salva pelo beijo do amor eterno. E, algures nessa espera pelo amor que nunca chegou, apaixonaram-se eles.

É importante desconstruirmos esta ideia de que o sexo sem compromisso vale menos que o comprometido, assim como é imperativo esbater as noções pré-concebidas sobre o que cada género deveria ou não ser na sociedade. A verdade é que os homens também choram e as mulheres também querem sexo. Só sexo.


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