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Drogas

Como seria fumar erva em Marte?

Uma resposta muito difícil para uma pergunta muito canábica.

Por Mark Hay
24 Abril 2019, 10:44am

Evan Dalen / Stocksy

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

mais de um século que os humanos sonham com um futuro hipotético de colonização de Marte. Ao longo deste tempo temos vindo a pensar em tudo, desde formas práticas de criar habitats no planeta vermelho – cientistas têm pensado nisto detalhadamente há pelo menos uns 40 anos – até possíveis inovações políticas e sociais que poderíamos lá implementar. Mas, de toda a criatividade que a nossa espécie colocou em sonhos coloniais extra-planetários, ainda não examinámos em profundidade um aspecto do nosso futuro marciano: como seria fumar erva em Marte?

Pode parecer uma pergunta absurda tendo em conta que, apesar de todo o hype que rodeia gente como o fundador da SpaceX, Elon Musk, tão cedo não vamos colonizar Marte – se é que alguma vez vamos. E mesmo que, eventualmente, os humanos consigam construir uma colónia marciana, "esse assentamento será provavelmente pequeno e frágil", diz Mark Shelhamer, professor de otorrinolaringologia da Universidade Johns Hopkins e especialista nos efeitos do espaço no corpo humano.


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Shelhamer, que também é ex-chefe de pesquisa humana do Centro Espacial Johnson da NASA em Houston, Texas, diz que “colonos terão tarefas tão críticas para a missão que não os vemos a usar qualquer coisa que possa deliberadamente alterar o seu estado mental e, portanto, a sua capacidade de responder a uma emergência” (a mesma razão dada pelo astrofísico/celebridade Neil deGrasse Tyson a jornalistas há alguns meses, quando questionado sobre porque é que seria uma ideia para lá de má apanhar mocas no espaço).

Mas, há uma razão para insistir na pergunta: alguns investigadores prevêem que é quase certo que, em algum ponto, alguém vai tentar levar erva para Marte, argumenta Mike Dixon, professor da Universidade de Guelph, que estuda sistemas de produção de alimentos para exploração espacial.

As forças governamentais ou privadas por detrás da colonização podem tentar introduzir canábis como medicamento, à medida que a utilidade medicinal da erva se torna cada vez mais clara na Terra. Shelhamer diz que eles podem ter interesse principalmente no potencial para lidar com ansiedade em isolamento e confinamento prolongados das viagens espaciais de longa distância e da vida num habitat compacto em Marte, se a canábis continuar a mostrar-se prometedora nesse campo – mesmo entendendo essa ideia como "um tiro no escuro".

Os colonizadores também podem pressionar as entidades responsáveis para levarem canábis para Marte, ou mesmo contrabandear sementes, tendo em vista o uso recreativo, diz Dixon. Ele realça que fez lobby para colocar cevada na lista de candidatos a cultivo para a exploração espacial humana, explicitamente para que os colonos possam fazer álcool. Estudiosos de agricultura extraterrestre, como Karin Kloosterman, que fundou a Mars Farm Odyssey e trabalha no sector de pesquisa da canábis legalizada, diz que cultivar sementes pode ser mais fácil que fazer bebidas alcoólicas, especialmente no início da existência da colónia.

Seria possível cultivar erva no espaço?

Independentemente do motivo para levar ervapara Marte, podemos dizer que os colonos teriam que cultivar a planta lá em vez de a importarem da Terra, já que importar qualquer coisa seria tremendamente caro. Marte tem um meio ambiente incrivelmente hostil para qualquer coisa terráquea e modificar a atmosfera e paisagem do planeta para receber vida da Terra ainda é coisa de ficção científica. Portanto, o cultivo de canábis teria que acontecer nos habitats fechados e controlados construídos para os colonos sobreviverem. Todos os especialistas com quem falei concordaram que nessas bolhas, o cultivo de erva seria muito parecido com estufas ou instalações hidropónicas da Terra – mas com grandes sistemas de reciclagem de água e resíduos, tendo em conta o acesso limitado a água potável, solo viável e nutrientes vitais para as plantas (Marte tem água e solo, mas ainda não sabemos se são seguros para agricultura, quanto mais para contacto e consumo humano).

Mas, mesmo num espaço controlado parecido com a Terra, pode haver problemas para o cultivo de canábis. Não podemos criar gravidade artificial confiável e constante, por exemplo – e Marte tem apenas um terço da gravidade da Terra. Isso provavelmente não teria um efeito colateral na fisiologia da canábis ou qualquer outro tipo de planta, diz Dixon. Plantas são incrivelmente adaptáveis a uma ampla variedade de condições ambientais; nas suas experiências, muitas plantações desenvolveram-se bem com até um décimo da pressão atmosférica da Terra, por exemplo.

Todavia, as diferenças gravitacionais podem complicar coisas como a troca de gases entre a folha de uma planta e o ar ao redor, explica. Também podemos descobrir que temos problemas para bloquear toda a radiação que atinge Marte, um planeta sem o mesmo campo magnético que protege a Terra – e isso pode ter consequências imprevisíveis para a estabilidade genética de qualquer plantação. Várias outras complicações podem surgir para os primeiros colonos, considerando quão pouco realmente entendemos agora sobre a vida em Marte.

Felizmente, aponta Dixon, quando descobrirmos como cultivar canábis em Marte, provavelmente teremos aprendido como contornar bugs gravitacionais, radiológicos e outros, já que teremos trabalhado muito em agricultura marciana para produtos bem mais vitais que canábis.

Investigadores estão já a analisar todas essas questões; a NASA conseguiu cultivar com sucesso a primeira plantação espacial (alface) há quatro anos. E várias empresas estão a pesquisar como a canábis em particular vai reagir a ambientes extraterrestres. A startup Space Tango, que fabrica laboratórios do tamanho de caixas para cientistas espaciais, recebeu muita atenção da imprensa no ano passado quando lançou um projecto para estudar o cultivo de plantas de cânhamo em gravidade zero.

Portanto, quando os cientistas descobrirem como a agricultura funciona em Marte no geral – uma perspectiva com que pessoas como Dixon estão bastante optimistas – então, provavelmente, poderemos pensar em sistemas para cultivar canábis de maneira semelhante, se não idêntica, à que temos na Terra.

Como fumar erva no espaço afectaria o corpo humano?

Usar a erva marciana, no entanto, poderia ter resultados diferentes em Marte e na Terra. Gravidade reduzida, mesmo não tendo muitas consequências para plantas, tem um grande impacto no corpo humano, mexendo com a densidade muscular e óssea, pressão sanguínea e contagens de células, sistema imunológico, padrões de sono e muito mais – mesmo quando tornarem o resto do ambiente em Marte parecido com o da Terra.

Não sabemos tudo sobre como essas mudanças vão interagir com os efeitos conhecidos da canábis, diz Shelhamer. Nem como os níveis de radiação de Marte, mesmo com a protecção de habitats fechados, podem afectar o nosso cérebro e a forma como ele reage aos canabinóides. Além disso, a gravidade menor que a da Terra parece diminuir a pressão sanguínea. Mitch Earleywine, um investigador de canábis da Universidade do Estado de Nova Iorque, em Albany e membro do conselho da organização para reforma das leis de canábis NORML – argumenta que a erva já tende a baixar a pressão sanguínea, pelo que podemos pelo menos presumir que “sem intervenções extensivas, uma passa normal já poderia fazer a maioria das pessoas desmaiar, o que estragaria o potencial de diversão de andar a dar saltos de 2,5 metros no ar sem muito esforço”.


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Deixando a física pura de lado, Earleywine também suspeita que a psicologia da vida num habitat marciano poderia prejudicar a moca da canábis. “O isolamento raramente é um bom companheiro para experiências com consumo de erva”, explica. E acrescenta: “Noutro planeta, pessoas com tendência para a introspecção vão precisar de distrações melhores para evitar uma espiral depressiva relacionada com a solidão".

Poderíamos abordar algumas dessas preocupações criando novos padrões para o consumo de erva em Marte. Usar principalmente ou apenas comestíveis, por exemplo, poderia resolver qualquer problema gravitacional sobre a capacidade do pulmão de processar fumo com eficiência – e provavelmente seria mais seguro que fumar num ambiente fechado delicado (mas ainda não estudámos suficientemente os comestíveis para sabermos como essa nova forma de consumo pode interagir com as variáveis da vida em Marte).

Ou seja, não temos como controlar todas as formas como Marte pode mexer com os humanos mocados até aprendermos mais. Não só sobre o planeta vermelho, mas sobre a própria canábis. Dixon realça que a erva é uma substância complicada, com mais de 500 componentes, incluindo mais de 140 canabinóides “e sabemos apenas um pouco sobre dois ou três deles”. Quando entendermos como cada um deles nos afecta em isolamento e em combinação com os outros componentes da canábis, poderemos modificar a planta para se incorporar com a vida em Marte – por exemplo, reduzindo os efeitos na pressão sanguínea.

Os inacreditáveis controlos ambientais associados com a agricultura marciana provavelmente tornarão mais fácil, ou, pelo menos, rotineiro, controlar consistentemente as qualidades de uma cepa. Cepas de canábis cultivadas ao estilo marciano podem acabar por ser mais confiáveis e personalizadas para cada necessidade do que as cepas terrestres modernas.

Se pudermos alcançar esse nível de conhecimento e controlo sobre a composição e cultivo da canábis, poderemos dar aos colonos de Marte uma moca semelhante à da Terra. Ou podemos descobrir que, controlando as complicações de Marte, há uma nova moca muito diferente do que aquela que experimentamos na Terra. É difícil saber exactamente como será tudo isto em Marte neste estágio embrionário, tanto da exploração espacial como da pesquisa legítima de canábis. No mínimo, podemos dizer que se os humanos têm um futuro em Marte, provavelmente teremos um futuro viável a viajar de maneira segura num habitat marciano.


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