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Drogas

A violência extrema dos cartéis chegou à Cidade do México

Justiceiros ameaçam agir, enquanto as autoridades parecem incapazes de parar a onda de homicídios e extorsões.

Por Deborah Bonello
14 Maio 2019, 6:00pm

Uma estátua da Santa Muerte num altar em Tepito. Foto pela autora.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Relógios, sapatos e DVDs contrabandeados. Drogas. Pessoas. Armas. Justiça. Não há nada que o dinheiro não possa comprar em Tepito, um dos bairros mais perigosos da Cidade do México. Mas, numa recente manhã de domingo, o mercado local, que normalmente conta com centenas de vendedores todos os produtos que possas imaginar, estava mais vazio que o normal. Muitas bancas tinham sido abandonadas, porque alguns vendedores já não conseguiam pagar a taxa de extorsão exigida pelo La Unión, o cartel local.

Pode parecer apenas um problema localizado num país devastado pela violência dos cartéis. No entanto, na Cidade do México, vista como um relativo paraíso a salvo da influência dos cartéis, os acontecimentos em Tepito estão a levar a que alguns dos habitantes com quem a VICE falou questionem a suposta imunidade da capital na guerra às drogas no México.


Vê: "O México irá alguma vez legalizar a erva?"


No mês passado, Raymundo Pérez López, presidente de uma associação que diz representar centenas de negócios informais instalados no centro da Cidade do México, fez uma declaração pública em que pedia às autoridades para ajudar a combater as extorsões do cartel que estão a devastar os seus lucros. Numa carta enviada à procuradoria da cidade, assinada por mais de 240 comerciantes, a associação alerta: “Quem não abandonou o seu negócio continua a sobreviver com uma pequena margem de lucro, que se torna mais miserável a cada dia. Tudo tem um limite”.

Alguns negócios locais já não aguentam as extorsões do La Unión. O mini cartel está a diversificar do tráfico de drogas e venda de armas e a apertando o laço à volta do pescoço dos comerciantes. Agora, para complicar ainda mais as coisas, comerciantes de Tepito estão a considerar criar o seu próprio grupo de protecção. “Não me surpreenderia se os comerciantes formassem o seu próprio grupo de defesa, tendo em conta a lentidão e a falta de acção das autoridades”, diz López na missiva. É uma ameaça, não uma promessa, mas é um novo marco na guerra às drogas de décadas no México.

Não demorou muito até López ser silenciado. No sábado seguinte, foi baleado sete vezes quando entrava no seu carro num subúrbio a norte de Tepito, segundo relata a imprensa local.

Grupos formados contra os cartéis, conhecidos como autodefesas, têm emergindo por todo o México na última década, com comunidades a pegarem em armas nos estados mais violentos, como Michoacán e Guerrero. Ganharam fama através dos media locais e internacionais, com fotos de homens mascarados com armamento pesado, em postos de controlo improvisados, que afirmam estarem a proteger-se de gangs violentas que querem controlar rotas, mercados de drogas, extorsões e que furtam recursos locais como madeira. Mas, a reputação destes grupos é mista. Em alguns estados, estariam trabalhando com e não contra os gangs.

“A possibilidade de grupos de autodefesa na capital é um sinal terrível, porque mostra a incapacidade das autoridades de estabelecerem a ordem”, alerta Juan Francisco Torres Landa, do grupo Mexico Unido Contra la Delincuencia. E não são só as extorsões que estão a ficar fora de controlo na Cidade do México, uma enorme capital que é lar de mais de 20 milhões de pessoas.Os homicídios atingiram níveis sem paralelos.

Rivalidades entre grupos criminosos decorrentes do tráfico de drogas e plazas (territórios) está a gerar o tipo de brutalidade que, normalmente, só era vista nas províncias. Foram mais de 250 homicídios na cidade nos primeiros três meses do ano, cerca de 35 por cento mais que no mesmo período do ano passado, e 75 por cento mais que em 2016. Esta onda na Cidade do México reflecte uma tendência nacional: por todo o país, os assassinatos têm aumentado quase 10 por cento de ano para ano.

A natureza flagrante de alguns dos homicídios na capital é especialmente incomum. Em Setembro do ano passado, atiradores vestidos de mariachi abriram fogo na Plaza de Garibaldi, um ponto popular de turismo da Cidade do México. Cinco pessoas morreram e várias ficaram feridas. Noutro incidente, partes de corpos foram espalhadas pela principal artéria de trânsito da cidade em Junho, possivelmente resultado da guerra entre o La Unión e um grupo criminoso rival.

Antonio Nieto, jornalista e co-autor de um novo livro sobre tráfico de drogas na Cidade do México, chamado NarcoCDMX, afirma que a capital sempre foi violenta, mas que as coisas estão a piorar notavelmente. “Agora, há uma tendência geral para o uso de violência extrema, o que nunca tinha visto antes”, realça. E continua: “Já vimos homicídios, tiroteios, contrabando, venda de drogas e sicários famosos, mas a diferença agora é que eles matam e exibem os corpos. Esquartejam-nos e deixam-nos em mantas (faixas caseiras com mensagens para grupos rivais), uma violência muito mais extrema – talvez inspirada no que está a acontecer no resto do país”.

A nova presidente da Câmara da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, respondeu publicamente aos pedidos e ameaças dos comerciantes em Tepito, prometendo trabalhar com eles para desenvolver um plano de acção que ajude a combater as extorsões sem recorrer à violência justiceira. Ela está certa em estar preocupada com a formação de autodefesas, porque foi assim que La Unión, os actuais chefes do crime em Tepito, nasceram há 10 anos.

O La Unión começou como um pequeno grupo de protecção, criado pela comunidade numa tentativa de se defender da criminalidade, conta Jefe Santos, um líder comunitário, comerciante e morador de Tepito, na sua pequena barraquinha de roupas. Os negócios do bairro começaram a pagar um pequeno montante ao La Unión por protecção e tinham uma boa relação com os seus membros. Com o tempo, esses pagamentos tornaram-se extorsão. “Paga e não deixamos os bandidos atacarem o teu negócio", transformou-se em “Paga ou nós vamos atacar o teu negócio”.

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O comerciante Jefe Santos diz que extorsão e os assassinatos estão a aumentar em Tepito. Foto por Sye Williams

“O La Unión foi-se tornando cada vez mais forte e pessoas começaram a ser mortas”, salienta Santos. E acrescenta: “Tepito já não quer o La Unión, por causa das mortes, da violência. Hoje, muitos jovens de Tepito estão a transformar-se em assassinos de aluguer”.

Por enquanto, a Cidade do México ainda não conta com estes autodefesas. E o governo da cidade afirma que o crime organizado não opera ali. Mas, observadores discordam. “Essa frase [do governo] de que não há crime organizado na Cidade do México é inaceitável e é mentira. Este é o mercado de drogas mais importante do país, portanto é ridículo dizer que eles não estãoaqui presentes aqui”, alerta Landa.

E não é coincidência que esse pedido de socorro venha de Tepito, um dos barrios mais notórios da capital. O local é lar de um famoso santuário dedicado a Santa Muerte, uma figura adorada por traficantes e moradores pelas suas bençãos e proteção. Toda a gente que procura Santa Muerte quer protecção dos males do bairro – roubo, vício em drogas e extorsão. Mas, alguns moradores acham que é demasiado tarde para rezas. Enquanto isso, se o La Unión – que parece estar a fechar o cerco com as extorsões de moradores para diversificar do tráfico de drogas – já não é bem-vindo, os membros do grupo não parecem importar-se.

Apesar de várias detenções de membros de alto nível, além do assassinato do seu fundador, o reinado do La Unión continua. Um cálculo simples dá uma ideia do rendimento que as extorsões oferecem: as estimadas 2.500-5 mil barracas (segundo Santos) no mercado – sem ter em conta pequenos negócios informais no bairro – pagam 50 pesos por dia [por volta de 2,30 euros], portanto o La Unión está a lucrar entre 111 mil a 250 mil pesos [entre 5.800 a 11.600 euros] diariamente. Por semana, são 1.250.000 pesos, ou quase 58 mil euros. Fora os lucros do tráfico, venda de armas e outras actividades criminosas.

Nieto e outros observadores sugerem que isso aponta para outros motivos por detrás do apelo dos comerciantes por protecção do governo da cidade. “Durante as minhas investigações ao longo de de 10 anos, descobri que muitos líderes dos comerciantes também estão envolvidos em tráfico de drogas”, assegura Nieto. E adianta: “Portanto, como é que é possível saber se esses comerciantes que reclamam [sobre extorsão] o estão a fazer porque são vítimas legítimas, ou porque os seus negócios ilícitos estão a ser afetados por outros traficantes e grupos criminosos?”.

Essas suspeitas foram corroboradas pela recusa da associação de comerciantes em falar com a VICE sobre o pedido público por parte dos seus membros. Fomos ao escritório da entidade pedir uma entrevista, mas fomos recebidos com hostilidade e impedidos de sair de lá durante meia hora. Colegas de López acusaram-nos de termos sido enviados pelo La Unión em busca de vingança. Disseram ainda que outro comerciante local tinha sido morto pelo cartel em retaliação à carta. Acabaram por nos deixar sair, sem uma carteira. Mas, como Nieto sugere, é possível que o pedido de ajuda seja outra facção criminosa a tentar usar o poder das autoridades contra os seus rivais, para proteger os seus próprios interesses.

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Graffiti num muro de Tepito.

Santos e outras fontes em Tepito, que não quiseram ser nomeadas por razões de segurança, garantem que propor enfrentar o La Unión é como assinar a própria sentença de morte. Ameaçar pegar em armas contra o violento cartel dominante parece-me efectivamente ingenuidade.

A disputa pelo controlo dos valiosos mercados de extorsão e tráfico da Cidade do México sugere que uma tendência que afecta o crime organizado por todo o México está a chegar à capital. As autoridades têm-se focado na estratégia dos chefes dos gangs – indo atrás de líderes como Joanquin “El Chapo” Guzman do Cartel de Sinaloa e o ainda solto Nemesio Oseguera Cervantes, também conhecido como “El Mencho”, do Cartel de Jalisco Nova Geração – mas grandes organizações criminosas fragmentaram-se em grupos menores, menos hierárquicos. Sem operações centralizadas, essas organizações também diversificaram para outras actividades criminosas, como extorsão e sequestro, que têm barreiras menores para a entrada.

O governo mexicano não tem tido sucesso em domar a besta dos cartéis pelo país. Com as questões na capital a ficarem descontroladas, é difícil ser optimista em relação à capacidade das autoridades de resolverem as coisas. Tepito é apenas uma das zonas urbanas problemáticas controladas por cartéis e a sua evolução criminal vai servir como um exemplo para a cidade. Se o estado realmente decidir lidar com o problema, não será tarefa fácil.

Jorge Vega, um ex-campeão de boxe também nascido em Tepito, diz que não ficou surpreendido com o homicídio de López. “O La Unión matou-o, porque ele não queria cooperar. Há anos que Tepito passa por isto... Não podes mudar as coisas. Se te metes com o barrio, o barrio mete-se contigo”.


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