Ilustração por George Yarnton.

Os teus filhos por nascer serão conhecidos como Geração Alpha

Conversámos com pais e profissionais de marketing sobre os filhos da geração millennial. Putos nascidos a partir de 2011, que começam a deslizar ecrãs muito antes de saberem ler.

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22 Maio 2019, 1:50pm

Ilustração por George Yarnton.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

"Max tem apenas três meses e, como tal, ainda não tem muita personalidade além de 'muito sorridente' ou 'muito, muito chateado'", diz Dan, um freelancer de 35 anos que vive em Walthamstow, Londres, Reino Unido. É justo. Dan, que faz parte do grupo mais velho da geração millennial, está actualmente a preparar-se para criar o seu filho recém-nascido. "É interessante ver a forma como os ecrãs já lhe captam a atenção", revela.

Até recentemente, a Geração Z tem sido o alvo da obsessão dos media, das marcas e anunciantes em geral. Quem são? Como vão agir estas pequenas pessoas pequenas a seguir à tão amaldiçoada geração millennial? Enquanto os millennials foram definidos como ansiosos e narcisistas, determinou-se - por aqueles com um papel na identificação de mercados específicos e a falarem (venderem) directamente com eles - que a Gen Z, os seus sucessores, cresceram para serem guerreiros da justiça social, nativos digitais e adolescentes com uma compreensão e experiência mais fluida em relação à sexualidade e género.

Tendo em conta que apenas adicionámos o termo "Gen Z" ao léxico público mais alargado há alguns anos, talvez te tenhas perguntado o que poderia vir depois de um nativo digital. Imaginei pequenos pesadelos de Inteligência Artificial por nascer. Depois de uma rápida pesquisa no Google, parece que especialistas nas áreas de publicidade e marketing já estão em cima do assunto.


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Esses especialistas estão a rotular crianças pós-Geração Z como Geração Alpha, um termo frequentemente atribuído ao investigador social australiano Mark McCrindle. E estes bebés estão a nascer neste exacto minuto, de pais millennials como Dan. Em entrevista ao Guardian no início deste ano, o especialista intergeracional Henry Rose Lee descreveu os bebés e crianças Alpha como “millennials em esteróides”. Enquanto a Gen Z é composta por gente que nasceu depois de 2000, os chamados Gen Alpha nasceram a partir de 2011. Dos seus futuros hábitos de compra a capacidades sociais ou à falta delas, as marcas não são os únicos grupos interessados em entender quem são estas pessoas. Os seus pais, cujas próprias características geracionais influenciam a criação de Alphas, estão claramente interessados em saber que tipo de características os seus filhos podem ter quando crescerem.

Estes bebés - de actuais recém-nascidos a crianças de sete anos - já estão a consumir, o que é um pensamento aterrorizante. “Podes dizer muito sobre como uma geração consome qualquer coisa, seja escola, comida ou tecnologia. Isto são hábitos, são traços e eles desenvolvem-nos ainda jovens”, conta-me Emma Hazan, da Hotwire, uma agência de comunicação. E acrescenta: "É muito assustador".

Como tal (e sem surpresa), sabemos que eles serão a Streaming Generation, um termo usado para os descrever quando falo com Jeff Fromm, sócio da agência de publicidade Barkley e autor de Marketing to Gen Z.. “Quando era criança, eu reclamava porque queria cereais açucarados; eles vão reclamar porque querem tecnologia de streaming”, assegura. Fromm prevê que os seus mundos irão integrar tão bem o físico e o digital que a Geração Alpha estará mais propensa à impaciência quando as coisas não satisfizerem as suas necessidades rapidamente. Na sua opinião, os níveis de atenção já em queda vão atingir novos mínimos com os Alphas. “Se eu estivesse a reformular a Rua Sésamo para eles, por exemplo, o produto principal pode ser bom, mas eu iria começar a criar segmentos de cinco minutos”, acrescenta, hipoteticamente.

Hazan, também pai de dois filhos Alpha, chega a dizer que, para eles, os iPads “são como crack”. Por mais absurdamente apocalíptico que isso pareça, não temos que olhar para esta demanda por novas tecnologias como algo completamente negativo. Como eles captam a tecnologia intuitivamente e consomem constantemente informações e entretenimento, também é verdade que estão a aprender soft skills a uma velocidade sem precedentes: resolução de problemas, multitasking e raciocínio rápido.

Akua, uma mãe com 28 anos de uma filha de cinco anos de idade, Azaiah, diz que ele é obcecado em aprender, sempre a memorizar músicas educacionais online ou a repetir factos complexos que aprendeu com o seu iPad. "Ele adora a escola e só quer ser professor quando for mais velho", diz-me. Joe Nellis, professor de Economia Global na Cranfield School of Management, acredita que os Alphas serão a geração mais educada de sempre. “Estudar a nível de mestrado tornar-se-á a norma para muitos. Acredito que já estamos a ver essa tendência emergir na maioria dos países e, provavelmente, é algo que se vai espalhar pelo Mundo”, afirma em declarações à VICE por e-mail.

Nesta fase, quase podes adivinhar que vamos ouvir muito a lenga-lenga do "ao viverem dentro dos ecrãs, estas crianças vão ser ainda mais anti-sociais do que a Geração Z!". Enquanto pai, essa preocupação passou pela cabeça de Dan. “Se eles estão a crescer com pais que ganham a vida através das redes sociais - ou passam a vida no Instagram -, talvez não valorizem tanto as capacidades reais e as interacções reais, como valorizam a forma como elas são representadas online. Mas, para ser honesto, parece-me que tanto pode ir para um lado como para o outro: a Gen Alpha poderá tornar-se num bando de influencers, a interagirem apenas com likes, ou poderão retroceder e rebelar-se contra a influência da Internet em todos os aspectos das nossas vidas e olharem com genuína perplexidade para o muito tempo que passamos online agora".

Parece improvável que venha a ser esta última opção. Ainda assim, os especialistas com quem falo sugerem que o modo como os pais permitem que os seus filhos usem a tecnologia tem muito peso. A geração millennial só entra nas redes sociais já na adolescência e muitos vêem esses mesmas redes sociais e a tecnologia no geral como estando ligadas a problemas de saúde mental e exigências implacáveis de produtividade. Para cada mãe que deixa a sua filha de seis anos entrar no Momo no iPad, que lhe foi oferecido no baptizado, haverá um pai que fica com calafrios, não de pensar no primeiro namorado da filha, mas ao pensar na primeira vez que ela lhe pedir para entrar no Instagram.

Como a geração millennial vive numa sociedade com uma taxa de natalidade que aponta para que as pessoas tenham tend~encia a ter menos filhos e mais tarde na vida, se é que chegam a ter, os Alphas podem vir a ter mais possibilidades de serem filhos únicos. Tanto Akua como Dan acham que a abordagem parental específica relativa aos millennials terá um enorme impacto sobre os Alphas. Akua lembra-se da abordagem dos seus pais boomers ao estilo "fazes o que te dizemos para fazeres", sem lhe comunicarem o raciocínio por detrás. “A minha geração é mais liberal, relaxada e disposta a estar aberta e ter uma discussão sobre as coisas. O meu filho não gosta que lhe digam o que fazer, mas se lhe explicares as coisas de uma maneira que ele sente que está a tirar algo disso, ou a aprender alguma coisa, geralmente é mais capaz de o fazer. É mais propenso a ouvir-te".

Dan acredita que os millennials têm - generalizando - uma maior compreensão e empatia para com o Mundo em gera e estão a dar aos Alphas o espaço para serem quem eles querem ser. Mais, por exemplo, do que pais boomers que não entendem os seus filhos millennials ou da Geração Z colados aos telefones. “Até agora, tendo saído com outros pais com filhos de idade semelhante, já percebi que há uma abordagem muito mais ponderada em relação à linguagem de género e género em si”, garante Dan. E acrescenta: “As pessoas têm muito cuidado em não dizerem coisas como 'rapazes serão sempre rapazes' ou ao falarem sobre coisas específicas de género. Acho que isso é algo que vai ser único para a Geração Z ou pais millennials, porque, mesmo quando eu era criança, era-nos dito de que havia certos empregos que eram 'empregos para homens', ou raparigas a quem era dito que eram bonitas enquanto aos rapazes lhes era dito que eram fortes ou corajosos".

Nellis faz questão de realçar que, nesta fase, todos os que escrevem sobre a Gen Alpha estão apenas a especular. A previsão do futuro não é uma ciência exacta e muito menos o é atribuir características às gerações ou aos hábitos de "compra" de crianças de cinco anos. Os pobres pequenos Alphas ainda não tiveram a possibilidade de se mostrarem nem viciados em ecrãs nem pessoas com níveis de atenção mais curtos que os dos seus antecessores. E, mesmo mais tarde, discutir gerações - seja millennials, Geração Z ou Alpha - implica automaticamente entrarmos sempre em generalizações demasiado amplas. Ainda assim, tentar adivinhar é divertido.

Quando pergunto a Akua como é que ela imagina que Azaiah pode crescer, ela diz: “Sempre curiosa, sempre a questionar tudo. Talvez isso seja o que causa a revolução - a Geração Alpha estará sempre em movimento e a questionar 'porque é que isto é assim?' ou 'porque é que não pode ser diferente?'".


@hannahrosewens

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