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Cultura

O Mundo pelos olhos do IndieLisboa

Entre 2 e 12 de Maio, o cinema alternativo de âmbito generalista regressa à capital com uma programação com vários pontos altos (e frases-chave) a ter em conta.

Por Carlos Reis
30 Abril 2019, 2:28pm

Muito do que se passa lá fora, passa por aqui. Traz os teus amigos também.  (Filme "Burning", na secção "Silvestre". Foto cortesia CGV Arthouse)

O mês de Maio arranca naturalmente com a homenagem merecida aos trabalhadores, é apimentado pelas grandes decisões no mundo do futebol, é espicaçado desta vez um nadinha pelas Eleições Europeias, mas é com a habitual e invejável programação do IndieLisboa que se atinge um patamar superior da existência humana.

Quando as opiniões se dividem sobre o que é o cinema na actualidade (com a divisão entre quem respeita os produtos criados pela plataformas de streaming e os que defendem a sétima arte vista em moldes tradicionais), é em eventos como o que decorre nos próximos dias na capital portuguesa - entre 2 e 12 Maio - que se sente que toda e qualquer conversa é estéril se não for levado em conta o que é mais relevante: a qualidade das obras. O resto é acessório.


Vê: "À conquista de 'Nollywood', a indústria cinematográfica da Nigéria em ascensão"


A 16ª edição do IndieLisboa, Festival Internacional de Cinema, centra novamente a programação alternativa num âmbito generalista e multicultural, com evidência para os temas sócio-políticos, como forma de levar o espectador a reflectir sobre a efervescente contemporaneidade. A exibição dos 275 filmes está dividida por quatro locais: Cinema Ideal, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Culturgest. E depois há o "IndiebyNight" a espalhar música e sedução na Casa Independente e o gratuito "Lisbon Talks" na Universidade Lusófona.

No meio de um cardápio extenso e bom demais para ser ignorado (ver o alinhamento completo e respectivo horário aqui), deixamos cinco frases-chave para te ligares a este acontecimento que já é um clássico do primeiro semestre de cada ano. Haja cinéfilo para tanta fartura.

1. Brasil, Bolsonaro e a Catarse

Dilma Roussef levou com o impeachment, Lula foi preso (Temer também, mas foi solto logo de seguida) e contra tudo o que era expectável há uns anos a esta parte, a polémica figura de Bolsonaro chegou à presidência.

O programa "Brasil em Transe" é uma maneira de entender as diversas realidades do outro lado do Atlântico. O documentário Democracia em Vertigem (assinado por Petra Costa), que estreou este ano em Sundance, a comédia/drama sexual com a extrema-direita metida ao barulho em Domingo (de Clara Linhart e Fellipe Barbosa; ver trailer acima), ou a alucinação geracional A Noite Amarela (Ramon Porto Mota), são três belas opções a visionar.

2. Portugal Hoje Agora Hoje

Mesmo que não tenha as parangonas da imprensa local, o cinema nacional continua a surpreender. Eis as longas-metragens que podes ver em "Competição" - há um intrigante homicídio em Alva (realizado por Ico Costa); a força da ausência existente em A Minha Avó Trelototó (Catarina Ruivo); o documentário militar Campo (Tiago Hespanha); vidas que mudam em Mar (Margarida Gil com Maria de Medeiros e Nuno Lopes como protagonistas; ver clip acima); uma espécie de viagem pela excelência dos trabalhos do cineasta Pedro Costa em Sacavém (Júlio Alves); o "pan-tropical e futurista" Tragam-me a Cabeça de Carmen M. (Felipe Bragança e Catarina Wallenstein); e a aventura non sense de uma menina e o seu urso de peluche em Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (Tiago Guedes).

Nas "Sessões Especiais", há duas obras de Ivo M. Ferreira. O primeiro é o policial Sul que é direccionado para o pequeno ecrã e, com pele diferente, há Hotel Império com contornos de thriller sexual passado em Macau. No mesmo segmento, curiosidade máxima para Um Ramadão em Lisboa, um documentário feito por seis cineastas que dão a conhecer a tradição muçulmana vivenciada numa Lisboa inclusiva. Mais abaixo, no quinto tópico (área musical), podes encontrar outras obras com impressão lusa.

3. Reflexões sobre um Mundo em permanente ebulição

Numa mistura entre as secções "Competição Internacional", "Silvestre", "Boca do Inferno" e "Especiais", batemos as asas e sobrevoamos o planeta depois de termos passado pelo Brasil e apanhado o comboio luso.

Na pujante lista de escolhas, eis nove obras que deves marcar no teu gadget preferido. Do Irão, os sacrifícios de ser mulher neste país do Médio Oriente em 3 Faces (de Jafar Panahi); de França, dois títulos: o vencedor do Urso de Berlim, Synonymes (Nadav Lapid), que fala do exílio de um israelita em território gaulês e Jessica Forever (Caroline Poggi e Jonathan Vinel) que traduz o provocador manifesto "Flamme", publicado pela revista Cahiers du cinéma, em que o propósito é desejar algo "para sonhadores que suam, monstros que choram e crianças que ardem"; e da Roménia vem Alice T. ( Radu Muntean) que decalca um choque de sentimentos e ideais entre mãe e filha adoptiva.

Burning (Lee Dang Chong) é uma obra da Coreia do Sul que revela a insatisfação da juventude por ver que a sua vida pode ser pior que a dos seus pais (recebeu o prémio da crítica em Cannes; vídeo acima); se o mistério à volta de pessoas desaparecidas deixa a tua adrenalina a palpitar, Ich War Zuhause, Aber (Angela Shanelec) é uma proposta a fixar - foi galardoada com a Melhor Realização no festival de Berlim; e do Chile está convocado Tarde Para Morir Joven (Dominga Sotomayor) que eleva a paixão de três pessoas numa comunidade isolada, imediatamente a seguir à restituição da democracia na terra de Pablo Neruda.

Dos EUA, Goldie (Sam de Jong) caminha pelo percurso atribulado de uma jovem que quer vingar no mundo das artes (papel desempenhado pela modelo instagirl Slick Woods) e para os amantes do cinema de animação há o musical Seder-Masochism (Nina Paley), que consiste numa visão irónica e feminista sobre o livro bíblico do Êxodo.

4. Começar em grande com o mentor de Kids e autor de Spring Breakers

O primeiro dia oficial do IndieLisboa (dia 2, às 21h30, no São Jorge), tem em The Beach Bum um "anfitrião" e pêras. O realizador Harmony Korine escreveu o registo basilar dos anos 90 que é Kids (dirigido por Larry Clark) e, já neste milénio, assinou Spring Breakers onde o bikini ganha um "power bad mortherfucker".

Produzido pela VICE Studios, o novo trabalho do norte-americano é descrito como "um olhar sobre a 'América Cósmica' e os bêbados degenerados e românticos que habitam o que era antes o famoso retiro mítico de Ernest Hemingway" - Florida Keys. Ler o texto completo da VICE aqui.

5. A música na tela... e no palco

Há muito som para ver e ouvir "live". Começando pelo ecrã, a secção "Indie Music" conta, entre outras obras estrangeiras (caso de Miles Davis: Birth of the Cool, de Stanley Nelson), com a exibição de Ama Romanta - Uma Utopia Que Fazia Discos (Vasco Bação). Este é um retrato fiel de uma editora que marcou a segunda metade dos anos 80 em Portugal, através de bandas alternativas como Pop Dell'Arte (acima, podes escutar "Sonhos Pop"), Mão Morta ou Mler Ife Dada. Nesta maré temporal, serão exibidos três episódios dos Arquivos-Kino Pop, da autoria de Edgar Pêra, com imagens inéditas de performances de Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar), João Manuel Vieira (Ena Pá 2000) e Farinha Master (Ocaso Épico).

O documentário Batida de Lisboa (Rita Maia e Vasco Viana) transporta-nos para os subúrbios de Lisboa e uma geração de músicos com sangue africano, enquanto Ela É Uma Música (Francisca Marvão) vai da década de 1950 até aos nossos dias e mostra que a narrativa do rock feito entre nós teve desde cedo mulheres "eléctricas". Para fechar, Um Punk Chamado Ribas (Paulo Miguel Antunes) é a homenagem merecida a um dos vultos do punk luso que fez parte, por exemplo, dos Censurados e dos Tara Perdida.

Ao vivo e inseridos no cartaz "IndiebyNight", a Casa Independente vai acolher, entre outras actuações, os concertos de João Peste e convidados, Anarchicks, Adelaide Ferreira, Dirty Coal Train ou as sessões DJ de Billy (festa punk), Gio Arlotta+Jacco Gardner+Maria P. (ritmos africanos) e Cara//Vag//Yo (noite funk no dia de encerramento - madrugada de 11 para 12).

O IndieLisboa engloba ainda os segmentos "Herói Independente" (tributo a Anna Karina, uma das musas da Nouvelle Vague e a amostra total, por exemplo, dos seus filmes com Goddard), "Novíssimos" (curtas-metragens de jovens realizadores portugueses), "Director's cut" (a memória e a património visual cinematográfico, com obras novas ou não), "IndieJúnior" (filmes e actividades para crianças) e fala-se de cinema no "LisbonTalks", numa iniciativa de entrada livre que decorre na Universidade Lusófona.


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