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Identidade

O primeiro porno lésbico e outros 10 objectos importantes da história lésbica

O Lesbian Herstory Archives também inclui um “dyketionary” japonês e um diário que documenta como era ser queer numa cidade pequena do Ohio nos anos 1950.

Por Oriana Leckert
25 Junho 2019, 1:10pm

(E) Foto por Saskia Scheffer, cortesia do Lesbian Herstory Archives; (D) fotógrafo desconhecido, cortesia do Lesbian Herstory Archives.  

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

No começo dos anos 1970, entusiasmadas com as possibilidades do movimento de libertação gay, um grupo de lésbicas de Nova Iorque começou a fazer um balanço da sua comunidade. Perceberam que, como qualquer outro grupo marginalizado, se queriam preservar as lutas, triunfos e contornos únicos do movimentos, teriam de preservar as suas próprias histórias. “A nossa história estava a desaparecer tão rapidamente quanto era criada”, diz Deborah Edel, co-fundadora do Lesbian Herstory Archives, num vídeo que a organização fez sobre as suas origens. E acrescenta: “Portanto, algumas de nós disseram: porque não começarmos a nossa própria colecção? Vamos juntar o que temos e construir a partir daí”.

O Lesbian Herstory Archives teve início em 1974, num apartamento em Upper West Side que Edel dividia com a sua então parceira e co-fundadora Joan Nestle. Elas começaram a encher uma caixa de cartão com alguns flyers, fotografias, panfletos e lembranças. Quando a caixa ficou cheia, arranjaram um espaço na dispensa. Quando a dispensa lse encheu, a colecção foi para o quarto extra da casa, depois para a sala e quando o resto do apartamento se encheu na década seguinte, o colectivo, que então contava com meia dúzia de mulheres, percebeu que o arquivo precisava de uma casa própria.


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Em 1990, depois de muitos meses a angariar fundos, a viajar para apresentar slides e dar festas, o grupo adquiriu um prédio de três andares em Park Slope, Brooklyn. Em 1993 abriram as portas ao público e a qualquer pessoa que quisesse aprender mais sobre lesbianismo. Hoje, 45 anos depois de começar numa caixa de cartão, o arquivo contém cerca de 20 mil fotografias, milhares de livros, uma enorme colecção de newsletters, revistas, jornais, panfletos, diários, correspondências, cassetes áudio e de vídeo, guiões de peças de teatro, cartazes, faixas, caixas de fósforo, pins – e a lista continua.

Com a cultura pop norte-americana a tornar-se gradualmente mais inclusiva, mesmo pessoas que não se focam particularmente na história queer provavelmente conhecem partes específicas da história LGBTQ – a ascensão e queda de Harvey Milk, os heróis e vítimas da crise de HIV, os retratos eróticos de Robert Mapplethorpe. Mas, poucos desses detalhes dão, de facto, um vislumbre sobre a história lésbica tão importante como os itens recolhidos e preservados pelo LHA, carregados de histórias ricas e surpreendentes que há muito eram ignoradas. Estes objectos revelam pormenores sobre as lésbicas que os deixaram para trás e as vidas fascinantes que viveram.

Abaixo, podes ver uma lista de 11 desses momentos e pessoas, ilustrados pelos objectos do LHA.

A primeira revista lésbica norte-americana

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Foto por Saskia Scheffer, cortesia do Lesbian Herstory Archives.

As Filhas de Bilitis, a primeira organização social e política lésbica dos EUA, foi fundada em São Francisco em 1955. No ano seguinte, o grupo começou a publicar The Ladder, a primeira publicação lésbica em série, distribuída nacionalmente. A revista mensal, que era sempre enviada em envelopes anónimos de papel pardo, tinha notícias, editoriais, poesia, contos, cartas e uma bibliografia de literatura lésbica. Quando as Filhas de Bilitis se separaram em 1972, o grupo doou toda a sua biblioteca ao LHA.

Dicionário lésbico japonês

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Fotos por Saskia Scheffer, cortesia Lesbian Herstory Archives.

No LHA, os livros são organizados alfabeticamente pelo primeiro nome, como “um lembrete que as mulheres perdem os seus nomes com frequência”, explica Saskia Scheffer, uma das 10 coordenadoras voluntárias do arquivo desde 1989. Sendo assim, o Japanese Dyketionary pode ser encontrado em “J”, do (suposto) pseudónimo Joni van Dyke.

O bonito caderno preenchido à mão contém centenas de palavras e frases, como “femme”, “bush”, “clitoris” e “fag hag” em três línguas: inglês, japonês casual e japonês formal. Há uma longa corrente de activismo lésbico no Japão moderno, que pode ser rastreada até 1975, quando um grupo de dezenas de mulheres foi o primeiro a identificar-se publicamente como grupo lésbico, publicando uma edição da revista Subarashi Onna (Mulheres Maravilhosas).

Em Tóquio nos anos 80, começou a formar-se uma comunidade de lésbicas falantes de inglês e em 1985 começaram a realizar reuniões chamadas de uiikuendo (“weekends”) como parte da Conferência Feminista Internacional do Japão. Uiikuendo era um dos lugares onde o Dyketionary circulava. Como van Dyke explica na página de título, o livro é “uma tentativa de superar as dificuldades de comunicação para combater estratégias do patriarcado para bloquear a ENERGIA LÉSBICA!”.

Uma t-shirt que reclama um epíteto poderoso

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Foto por Saskia Scheffer, cortesia Lesbian Herstory Archives.

A 1 de Maio de 1970, a escritora e activista Rita Mae Brown liderou um grupo de 40 mulheres numa acção colectiva no Segundo Congresso para Unir as Mulheres, em Nova Iorque. Betty Friedan, uma conhecida feminista da segunda vaga e fundadora da Organização Nacional de Mulheres, tinha irritado Brown (e muitas outras), ao referir-se às lésbicas, que ela não queria como parte do seu movimento, como “ameaça lavanda”.

Brown e o seu grupo infiltraram-se no congresso enquanto Friedan falava, cortaram as luzes e tomaram os corredores do auditório. Quando as luzes voltaram, as mulheres estavam a usando t-shirts com a frase “Lavender Menace”. Começaram a gritar exigências para que o movimento feminista abraçasse as lésbicas e a entregar cópias do “Woman-Identified Woman”, um manifesto que as organizadoras da acção co-escreveram para a ocasião, assinado “Radicalesbians”. Depois da acção, as organizadoras continuaram a usar o novo apelido. Tornar-se-iam figuras-chave do movimento feminista lésbico.

Romances pulp que escaparam às leis de obscenidade do seu tempo

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Foto por Saskia Scheffer, cortesia Lesbian Herstory Archives.

Com títulos como A Outra Fome, Um Vício Delicado, Amizade Maligna ou Lésbicas na Prisão, os romances pulp lésbicos dos anos 50 e 60 não eram subtis em relação ao seu conteúdo. Apesar de muitas editoras mainstream permitirem que os livros circulassem, devido a leis de obscenidade da época, as personagens mulheres tinham que ser punidas pelas suas indiscrições e ofensas contra a heteronormatividade para que as obras fossem impressas.

Para contornar a censura do governo, todas as personagens lésbicas tinham de responder pela sua “perversão” no final do livro e acabar com um homem, perder os filhos, emprego ou até a vida. “Podias ser tão lasciva quanto quisesses”, diz Scheffer, “mas não lhes podias dar um final feliz”. Ainda assim, quando esses livros eram produzidos, "eram um dos únicos sítios onde as lésbicas podiam ler sobre si próprias”, acrescenta Scheffer. Por isso, as arquivistas do LHA rotulam estas publicações de “literatura de sobrevivência”.

Fotos da ícone lésbica Mabel Hampton

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Fotos cortesia Lesbian Herstory Archives.

Mabel Hampton é um ícone da história lésbica de Nova Iorque. Ela foi dançarina e artista durante a Renascença do Harlem, activista e filantropa pelos direitos gay mais tarde na vida e lésbica assumida durante todo esse tempo. Nascida na Carolina do Norte em 1902, Hampton viveu em Nova Iorque toda a vida fora alguns anos da infância. Passou boa parte da vida adulta a trabalhar como bailarina na cena artística do Harlem, além de se apresentar em Coney Island e por toda a cidade, rodeando-se orgulhosamente de muitas das mulheres negras queer mais proeminentes da época.

Hampton conheceu a sua parceira de toda a vida, Lillian Foster, em 1932 e o casal viveu no Bronx mais de 40 anos, até que Foster faleceu em 1978 (o prédio do apartamento delas está listado como Marco Histórico LGBT de Nova Iorque.) Depois disso, Hampton foi viver com a co-fundadora do LHA Joan Nestle, no apartamento que originalmente abrigava os arquivos. Nestle criou uma extensa história oral da vida de Hampton através de muitas entrevistas e, quando ela morreu, Hampton doou todos os seus papéis pessoais, lembranças, cartas e livros ao arquivo.

A primeira revista erótica lésbica comandada por mulheres

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Foto por Saskia Scheffer, cortesia Lesbian Herstory Archives.

Como reacção ao que muitas sentiam ser uma profunda faceta puritana no movimento feminista da época, a On Our Backs foi fundada em 1984 como a primeira revista norte-americana erótica lésbica, com uma abordagem positiva e comandada por mulheres. Durante os anos 70 e 80, havia uma divisão entre lésbicas que preferiam não falar sobre sexo, porque não queriam que isso as definisse na cultura mainstream e aquelas que queriam celebrar o sexo como algo central da sua identidade.

On Our Backs, que foi publicada até 2006, foi baptizada como reacção ao jornal feminista radical (e muitas vezes anti-porno) off our backs, publicado de 1970 até 2008. Nos seus mais de 20 anos, On Our Backs publicou uma variedade de literatura erótica vanguardista e controversa, muitas vezes explorando as questões sociais e políticas que rodeiam o sexo e relacionamentos lésbicos, de escritoras como Dorothy Allison, Lucy Jane Bledsoe, Sarah Schulman, Thea Hillan, Jewelle Gomez, Patrick Califia e Red Jordan Arobateau.

O primeiro porno para mulheres

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Foto por Saskia Scheffer, cortesia Lesbian Herstory Archives.

Nan Kinney, uma das co-fundadoras da On Our Backs, queria que as lésbicas tivessem mais que apenas literatura erótica, portanto em 1985 fundou a Fatale Media, a primeira produtora a fazer porno para mulheres e que está activa até hoje. Shadows, o primeiro lançamento da Fatale Media, prometia “paixão e espontaneidade genuínas” das duas mulheres que eram amantes diante das câmaras e longe delas. Um filme posterior da Fatale, Bathroom Sluts, foi parcialmente filmado no LHA “e no melhor estilo lésbico, o vídeo acaba com as participantes a contarem com orgulho porque é que fizeram o filme”, diz Scheffer.

O único registo de voz conhecido de Paula Gunn Allen

Ao longo da sua vida, a poetisa, crítica literária e académica premiada nativa americana Paula Gunn Allen escreveu vários livros de poesia, artigos e antologias. O seu livro de vanguarda de 1986, The Sacred Hoop, postulava que as obras eruditas e históricas europeias tinham enquadrado a sociedade dos nativos americanos através de lentes patriarcais, diminuindo os papéis importantes que as mulheres ocupavam na política e cultura. O seu trabalho académico é considerado tão controverso como influente e os seus aclamados livros de poesia ajudaram a destacar a presença literária dos nativos americanos nos EUA.

Paula Gunn Allen não se identificou como lésbica até mais tarde na vida, depois de vários casamentos com homens. Alguns anos depois da sua morte em 2008, uma investigadora do LHA descobriu uma cassete de áudio com uma apresentação de poesia de Allen de 1980, que tinha acontecido no local original do arquivo, em Upper East Side. Este é o único registo conhecido da voz de Allen.

O comovente diário de uma lésbica comum do Ohio nos anos 1950

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Um dos princípios do LHA é que uma pessoa não precisa de ser muito conhecida para ser recordada. “Não queremos saber se és importante ou famosa, nem se és boa ou má”, realça Sheffer. E acrescenta: “Aqui podes ter a tua própria colecção especial”. E uma das maiores dessas colecções especiais é de Marge McDonald, uma lésbica que morava numa pequena cidade do Midwest americano nos anos 50. Ela descrevia-se como tímida e solitária e viveu toda a sua vida no armário. Mas, escreveu diários extensos e detalhados sobre as suas esperanças e medos, o seu entendimento sobra a sua própria sexualidade e sobre não conseguir agir ou discutir o assunto com ninguém no seu mundo puritano.

Entre as mil e 500 páginas do diário que escreveu entre 1955 e 1957, Marge relata a primeira visita a um bar lésbico – ela também construía fantasias elaboradas com as amigas, envolvendo um namorado imaginário que queria saber como era a cena – e o seu primeiro beijo lésbico, sobre o qual escreveu: “Nunca poderia descrever os meus sentimentos, portanto nem sequer vou tentar. Basta dizer que, enquanto viver, nunca vou esquecer esse momento – ou o beijo”. Quando McDonald morreu, um advogado ligou às responsáveis do LHA e disse-lhes que tinham três dias para ir buscar todos os seus arquivos pessoais; ela tinha doado tudo ao arquivo no seu testamento, só então assumindo a sua sexualidade perante a família.

Recordações da médica do exército norte-americano no Vietname Mary Minucci

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Mary Minucci era uma médica do exército e oficial não comissionada no Vietname. Ela tinha várias condecorações, recebeu a Medalha de Serviço no Vietname com seis Estrelas de Campanha, Medalha Nacional de Serviço de Defesa Nacional, uma Estrela de Bronze, Medalha da Campanha na República do Vietname e a Cruz do Vietname.

Depois do seu serviço militar, viajou para a Papua-Nova Guiné, para ensinar os nativos a usar a medicina ocidental. Ela e a sua parceira, que também era militar, viveram sempre no armário. Minucci desenvolveu três tipos de cancro depois do seu serviço e só após a sua morte a família permitiu que fosse reconhecida como lésbica. Era muito improvável que a história de Minucci e a sua orientação sexual fossem reveladas; tendo em conta as políticas de sexualidade para com os oficiais do exército norte-americano ao longo de toda a história, portanto são poucas as histórias conhecidas de pessoas queer nas forças armadas.

Calendários e agendas usados como sinais subtis

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Entre os itens mais discretos e pessoais que contam histórias queer está um pequeno lote de papéis que organizavam a vida das pessoas. Antes da era digital, quando as lésbicas puderam passar a reunir-se em salas de chat e fóruns online, as mulheres muitas vezes sinalizavam a sua presença entre elas com coisas simples como calendários nas paredes e as agendas nos seus bolsos. Alguns desses depois seriam produzidos em massa, como calendários de parede apresentando “Dykes To Watch Out For”, uma série de quadradinhos muito popular de Alison Bechdel e os “Calendários Sereias de Cabedal”, feitos pelo Sirens Women's Motorcycle Club, o maior e mais antigo de Nova Iorque.

Outros eram produzidos em número muito menor, enquanto outros ainda eram feitos à mão cuidadosamente e distribuídos apenas entre amigas. Nos anos 80 e 90, estes livrinhos tornaram-se mais fáceis de produzir e começaram a ser amplamente usados. A própria Sheffer leva sempre consigo um pequeno Vrouwen Kalender vermelho; essa agenda em particular também está disponível em inglês (“Woman's Calendar”) e alemão (“Frauen Kalender”).

Para mais momentos, lugares e pessoas da “herstory” lésbica, segue o LHA no Instagram.


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