Identidade

Histórias não contadas de trans que desafiam estereótipos

Pessoas que combatem as regras de gênero e questionam as expectativas sobre o que é ser transsexual.
16.10.17

Matéria originalmente publicada no Broadly.

Independente de como nossa expressão de gênero é percebida pelo mundo exterior, merecemos viver nossos gêneros em nossos próprios termos. Contar nossas histórias, para que o resto do mundo possa nos entender melhor, nos leva mais perto do objetivo de uma vida melhor, livre de expectativas de gênero opressivas.

[*Nota da Tradutora: Como o português ainda não possuí um pronome neutro estabelecido, optei por usar @.]

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É possível para um ser humano existir sem gênero? Essa é uma pergunta que Tyler Ford coloca implicitamente sempre que anda na rua, com sua construção esguia e pelos faciais confundindo observadores, especialmente se el@ está vestindo roupas que confundem expectativas.

"Sou uma pessoa agênero de apresentação fluída", Tyler me disse enquanto tomava chocolate quente no Think Caffee da Union Square, em São Francisco. El@ (que prefere o pronome de gênero neutro em inglês "they"*) – é membro de um segmento ignorado mas cada vez mais visível da comunidade trans, um seguimento tão variado e em fluxo que só pode ser definido pelo que eles não estão fazendo, que é parecer, agir e/ou pensar de acordo com as expectativas de uma sociedade que endossa rigidamente a existência de apenas dois gêneros.

Um segmento específico desse grupo que tem recebido muita atenção recentemente são os AFABs, sigla para "assigned female at birth" (algo como "atribuído gênero feminino no nascimento"). Miley Cyrus e Ruby Rose (de Orange is the New Black) se identificam como gênero fluído. Essa visibilidade pode ter vindo depois que pessoas do gênero feminino se vestirem como homens se tornou cada vez mais aceitável, um grau de liberdade menos acessível para pessoas que se identificam como do gênero feminino não-brancas.

Tyler complica esses conceitos como uma pessoa birracial identificada inicialmente como mulher, que começou a tomar testosterona quatro anos atrás, decidiu que não se sentia bem e parou depois de já ter experimentado efeitos do hormônio, como crescimento de pelos faciais e voz mais grave. Então el@ basicamente vive entre várias permutações de gênero não-binário. A jornalista trans Janet Mock recentemente aludiu a esse seguimento da comunidade numa entrevista com Oprah Winfrey, dizendo: "Me encaixo perfeitamente na ideia de como uma mulher deve parecer. Então essa é uma história básica. Mas há pessoas que existem no meio do espectro de quem nem falamos". Mulheres trans como Mock – que passam como cisgênero e cuja identidade interna geralmente obedece às nomas dos gêneros binários – têm o tipo de narrativa que a mídia tende a acompanhar, porque são um desafio menor para as pessoas cisgênero entenderem e aceitarem.

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Mesmo com Mock, Laverne Cox e Caitlyn Jenner trazendo visibilidade para o movimento trans, aqueles que não se encaixam na narrativa da mídia dominante não têm suas histórias contadas – pessoas como Tyler e Persephone Smith, uma trans negra que não segue o estereótipo da mulher trans glamourosa, uma imagem que talvez seja uma reação à perseguição e ameaças de violência que essas mulheres geralmente sofrem, porque passar por cisgênero as torna menos vulneráveis.

Narrativas de homens trans na mídia são ainda mais raras, e mesmo os que viraram notícia também tiveram que se conformar com as expectativas convencionais para homens. A menos que seja uma notícia de tabloide que objetifica em vez de humanizar as vidas trans, é incomum ouvir uma história como a de Kael Sharman: Kael é um homem trans que abraçou seu papel de mãe, que gostava da sensação de seu corpo grávido e que aprecia abertamente a imagem de uma mulher convencionalmente atraente que ele era. Esses três indivíduos se recusam a serem definidos pelas regras de gênero estabelecidas pela sociedade, não só porque são trans, mas porque desafiam muitas expectativas sobre como devem ser as vidas dos trans.

Continuo pensando no chocolate quente no Think Coffee: foi isso que Tyler pediu quando perguntei que tipo de café el@ queria. E apesar de não ser uma escolha inédita, o chocolate quente em vez de café era uma pequena indicação do padrão de Tyler de pensar independentemente, um padrão com que fui me acostumando enquanto nos conhecíamos melhor.

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"Não conheço ninguém no mundo que é mais verdadeira consigo mesm@ que Tyler", me disse o colega de apartamento dela, Michael Horton; Michael conhece Tyler desde a faculdade e já @ viu passar por uma variedade de identidades – de uma mulher que se identificava como lésbica para um homem trans, e agora para uma pessoa agênero de 24 anos.

"Tive que ser honesta comigo mesm@ e aceitar que tomar testosterona não era certo para mim", me disse Tyler, quando perguntei por que el@ decidiu parar de tomar os hormônios, "mesmo sendo um pouco constrangedor, porque eu falava muito sobre fazer a transição".

Mas Tyler estava acostumad@ com o estado ambíguo de se destacar e não se encaixar ao mesmo tempo, mesmo antes de se tornar trans. El@ cresceu em Boca Raton, Flórida, como a única criança não-branca sendo criada pelo lado branco de sua família birracial. El@ vê uma ligação entre suas identidades racial e de gênero: o jeito como el@ cresceu a ajudou a se adaptar por não ver outras pessoas como el@.

"Mesmo quando era criança, eu sabia que tinha alguma coisa diferente no meu gênero", el@ diz, "mas eu não conseguia definir o que era".

Foi só quando entrou para a Universidade Vanderbilt que Tyler se aproximou da definição trans. Naquela época, el@ achou que isso significava se identificar como homem, o que também era sinônimo de tomar testosterona.

"Fiz a transição porque achei que era a única opção", disse Tyler. Essa fase da vida del@ foi imortalizada na internet quando el@ se juntou ao elenco do The Glee Project. O único arrependimento que el@ tem disso agora é que quando você procura Tyler Ford no Google, as primeiras fotos que aparecem são desse período, quando os traços del@ estavam mais visivelmente masculinos.

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O que pode ter contribuído para a tendência das pessoas em tratá-la por pronomes masculinos na internet. "Nunca dizem meu gênero correto", disse Tyler. "As pessoas constantemente erram meu gênero na internet, mesmo quem me apoia. Sempre tem alguém dizendo 'Tyler Ford é o melhor!', e eu penso comigo mesm@, não quero ser visto como homem, mesmo como um bom modelo."

Mas a imagem pública de Tyler pode estar mudando; el@ foi fotografada com Miley Cyrus, usando um vestido preto com um decote profundo – el@ conheceu Miley no baile anual do American Foundation for AIDS Research, onde Cyrus recebeu um prêmio. Convidei Tyler para uma festa na piscina com amigos na minha casa em Connecticut no final de semana após o evento, e el@ usou uma parte de baixo de biquíni feminino, mas com o peito nu. O visual acabou complementando o de outra amiga, uma mulher trans que tinha feito a transição recentemente e que usou uma bermuda masculina e o top de um biquíni. Pode ser difícil usar esse tipo de visual em público, onde os trans, especialmente as mulheres trans, têm que lidar com olhares e comentários, às vezes até com ameaças.

É uma realidade que ouvi várias vezes na comunidade trans, que pessoas percebidas como mulher que usam roupas masculinas costumam ser ignoradas, enquanto pessoas que são identificadas como homens usando roupas femininas se tornam alvos. Essa é outra ruga na identidade de Tyler: o curto período usando testosterona fez com as pessoas @ leiam como uma mulher trans negra, e @ tratando desse modo.

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Talvez por isso, só vi Tyler usando camisetas e moletons em público durante o dia, apesar del@ preferir roupas mais ousadas em eventos ou nas redes sociais, onde provavelmente tem amigos @ apoiam.

"As pessoas olham para mim como se eu fosse um quebra-cabeça", disse Tyler. "Nunca digo nada. Meu corpo não vai me deixar falar. O máximo que faço é encarar de volta."

Essa atitude reflete alguns paradoxos da personalidade de Tyler como uma figura pública trans cada vez mais visível. El@ tem uma vontade forte de expressar sua realidade, e escreve essas narrativas como colaborador@ regular da Rookie, colunista para a MTV e publicando poemas em vários jornais de literatura. El@ também tem sido vista não só com Miley Cyrus, mas com Ariana Grande, que el@ considera sua melhor amiga, além de Mitch Grassi do grupo Pentatonix. Apesar das amigas famosas, el@ transpira timidez e vulnerabilidade, rapidamente cobrindo o rosto com a camiseta quando se sente sobrecarregad@ de atenção, e pront@ para lidar com seus demônios.

"Sempre lutei contra a depressão e a ansiedade", disse Tyler. Ao mesmo tempo, el@ não sente a mesma necessidade de companhia que outros. Tyler se considera assexual e arromântic@, alguém que prefere estar sozinh@ do que procurar relacionamentos românticos.

"E se eu for agênero porque não gosto de ser sexualizad@?", perguntou Tyler, como se tivesse descoberto algo quando perguntei se seu gênero tinha algo a ver com sua independência. "Sei que meu gênero não é resultado da minha sexualidade, mas posso ver ser agênero e arromântic@ como coisas ligadas."

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Essa qualidade reflexiva é algo que seu colega de apartamento, Michael, considera uma das maiores qualidades de Tyler, uma faceta de sua devoção inabalável por ser el@ mesm@. Mesmo sendo arromântica, el@ admitiu para mim que anseia ser desejad@ por gays cisgênero brancos.

"Tentei ser mais masculin@ para que eles me notassem", disse Tyler. "Mas não quero eles. Quero ser desejad@ por eles."

Mais tarde naquele dia, Tyler me mandou uma mensagem. "Pensamentos adicionais antes de ir para a cama: querer que gays cis me achem atraente é principalmente uma questão de validação (o que é complicado, porque não quero ser vist@ como um cara… E também não quero ser vist@ como uma garota!). Todos os meus relacionamentos íntimos foram com garotas e outros colegas não-binários."

Para mim, esse texto se ligou a algo que Tyler me disse enquanto eu tomava meu latte de soja e el@ seu chocolate quente naquele café: "Não me sinto realmente vist@ por ninguém". Algo que reconheço em mim – eu costumava ser vista como um garoto, o que não era real, e agora sou vista como garota, o que também não parece realmente certo. A diferença entre Tyler e eu é que Tyler tem a intenção de ser el@ mesma, enquanto eu geralmente tento atender as expectativas dos outros. Talvez por isso Tyler continua sendo uma pessoa profundamente atraente, mesmo expressando toda essa confusão e vulnerabilidade.

O colega de apartamento de Tyler concorda. "El@ se tornou amig@ de todas essas celebridades porque Tyler é simplesmente el@ mesma. Tyler não finge para essas pessoas. Tyler é uma pessoa que o mundo precisa ver. El@ é exatamente o tipo de voz que o mundo precisa agora."

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Kael com a filha, a esquerda, antes da transição; no meio e depois do processo. Fotos por Kael Sharman.

Outra voz da não-conformidade de gênero é Kael Sharman, 46 anos, um homem trans que mora em Windsor, Ontário. Kael fez a transição mais tarde na vida, quando tinha 41 anos, depois de ter uma filha aos 22. Fiquei intrigada com ele porque sua esposa, Theo Hummer, uma amiga da faculdade, mencionou sua história no Facebook; depois que postei uma matéria sobre Caitlyn Jenner, ela comentou que a mídia presta muito mais atenção em homens que fazem a transição para mulher do que em mulheres convencionalmente atraentes, como Kael costumava ser, que fazem a transição para homem.

Kael e eu já éramos amigos no Facebook, então fui ver as fotos de seu perfil e topei com várias imagens dele antes da transição. Quando perguntei sobre isso, ele disse: "Deixo essas fotos lá porque é muito importante para mim manter memórias e associações com a minha filha". As pessoas trans que conheço têm relações diferentes com sua antiga identidade. Alguns a rejeitam totalmente. Mas com frequência, os trans querem manter partes de seu eu de antes da transição que valorizam, ou porque essas partes são importantes para outras pessoas e isso não os incomoda, ou eles mesmos encontram validação em aspectos de sua antiga identidade.

Para Kael, os traços mais importante de seu antigo eu são imagens dele como uma mulher convencionalmente atraente e sua identidade como mãe – imagens que se sobrepõe ou diferem no sentido que a primeira aborda uma ideia externa, enquanto a outra aborda aspectos internos, o que surpreende até ele mesmo.

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Quando era criança em Windson, Ontário, Kael se sentia alienado pelo gênero em que tinha sido designado. Mas crescendo como uma mulher atraente, tanto sua família como a cultura ao redor o pressionaram para se agarrar a esse privilégio de beleza, da mesma maneira que mulheres trans como Caitlyn Jenner se agarravam a traços masculinos, como o atleticismo. Tanto Kael quanto Jenner falam sobre a experiência de usar traços de conformação de gênero para bloquearem sua identidade transgênero – mas é muito significativo ver que Jenner em seu papel masculino era valorizada principalmente pelo que podia fazer, enquanto Kael como mulher era valorizada pela aparência.

"Definitivamente caio na narrativa de tentar viver pelos estereótipos", ele me disse quando nos falamos por Skype. "Sempre me diziam o quanto eu era bonita."

A lacuna entre o gênero interno de Kael e a apresentação externa só cresceu com o tempo: ele ficou obcecado com fisiculturismo e treinava obsessivamente na academia. Ironicamente, ter um corpo musculoso colocou ainda mais pressão nele para manter traços femininos, como cabelo comprido e maquiagem.

"As pessoas não tinham problema com minha masculinidade se eu fosse feminina de outras maneiras, e essa contradição foi ficando mais extrema conforme o tempo passava", disse Kael. "Então chegou um ponto em que eu não podia mais continuar. Foi aí que precisei fazer a transição."

Foi nesse ponto, perto do começo da transição hormonal de Kael em 2011, que Theo o conheceu num site de namoro, onde Kael deu a Theo a impressão de ser mais uma lésbica masculina do que a apresentação fisicamente masculina que ele tem agora, depois de sete anos tomando testosterona.

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Mas Theo diz que não foi a apresentação de gênero que a atraiu em Kael, mais sua visão de mundo. "Ele parecia tão feliz com a vida. Ele estava tão feliz consigo mesmo. Era como se houvesse uma aura em volta dele."

Não há dúvida que Kael está mais feliz com seu corpo e identidade agora que é visto como homem. Mas paradoxalmente, ele sente saudade de um tempo específico de quando se identificava como mulher. "Eu estava muito feliz quando estava amamentando", disse Kael, sobre ter sua filha Tessa, agora com 22 anos. "Eu tinha essa sensação estranha de saber exatamente como meu metabolismo funcionava. Fiquei fascinado com aquilo. Pensei 'Isso é o que meu corpo foi criado para fazer'. Era muito estranho e contraditório, e não consigo realmente explicar."

A fluidez de Kael em sua percepção de gênero se estende para sua imagem. Theo contou que, além das fotos no Facebook, a mãe de Kael ainda tem fotos dele como uma linda mulher de 20 anos pela casa, e Kael a visita sempre. Kael também tem fotos suas de antes da transição em sua casa, para que Tessa não se esqueça de associá-lo com seu papel de mãe.

Tessa concorda. "Quando ele começou a transição, sofri muito para descobrir como colocá-lo na minha vida e como identificar quem Kael é para mim agora", ela diz. "Senti que tinha perdido minha mãe. Então manter essas fotos aqui foi um bom começo – não senti que me forçaram tudo isso de uma vez, que eu tinha que cortar laços com minha associação de Kael como minha mãe."

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E Kael não parece perturbado. "Não me sinto muito sensível com essas fotos. Olhando para elas, me lembro o quão feliz sou agora. Não preciso mais fazer isso. Olho no espelho e amo o que vejo."

Ao mesmo tempo, Kael reconhece que não ser traumatizado com suas imagens antigas é um privilégio, e que isso tem ligação com ser um homem trans, que geralmente não são ridicularizados ou discriminados como resultado da transição. É quase como se ele pedisse desculpas quando conta sua pior experiência quando estava fazendo a transição e trabalhando como professor. "Uma secretária da escola me ligava e me chamava pelo gênero errado. Tive uma conversa rápida com ela e ela só cometeu o erro mais uma vez, não aconteceu mais nada depois disso."

Kael fala sobre manter seu emprego durante a transição, desfrutar de benefícios e ter um bom estilo de vida. Algo muito distante das experiências para muitas mulheres trans que conheço. Ao mesmo tempo, ele ainda experimenta momentos em que sente que não pode alcançar o ideal masculino. Ele lembra de uma vez em que ele e Theo estavam num restaurante e a garçonete perguntou "O que as senhoras vão querer?"

"Acho que ela nem estava olhando para nós quando perguntou", disse Theo.

E isso aconteceu no mesmo dia em que Kael deveria encontrar o cunhado num bar chamado Little Memphis naquela noite, um estabelecimento que Kael descreveu como um "bar de homem", onde os trabalhadores da Chrysler se juntam no final do expediente para beber. Quando chegou a hora, Kael não conseguiu ir porque não se sentia confiante. "Fiquei me sentindo mal por dias", ele disse.

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No entanto, Kael concorda que o lado positivo compensa muito as turbulências da transição, mesmo como alguém que não se encaixa em todas as normas esperadas de seu novo gênero. Essa é uma diferença marcante da experiência de Tyler. Passar como homem em público dá segurança a Kael, e ser branco também bloqueia o racismo que faz Tyler e meu próximo tema, Persephone Smith, serem tão escrutinadas.

Persephone Smith. Foto por Meredith Talusan.

Smith, de 44 anos, e eu nos encontramos no inverno passado no Community Pride Center do Brooklyn, num evento chamado Trans Ladies Picnic, que acontece todo mês em vários lugares de Nova York. Não consegui deixar de notar que ela era a única mulher negra visível ali, e fiz questão de me apresentar enquanto ela arrumava o espaço e garantia que todo mundo estivesse comendo.

"Sempre fui maternal assim", lembro que ela me disse.

Mas Persephone logo admitiu que não se encaixava no estereótipo de maternidade, ou no estereótipo comum de uma mulher trans "passável", significado quem geralmente consegue parecer uma mulher cis, especialmente nas ruas onde elas estão vulneráveis a ataques.

"Ser passável é uma coisa importante para as trans negras", me disse Persephone num almoço no Mud Cafe em East Village. "Muitas delas não vão andar com você se você não for passável."

Ela citou sua criação havaiana como razão para a diferença na maneira como ela aborda sua identidade trans. "Muitas trans negras em Nova York são influenciadas pela cultura dos bailes", disse Pesephone, se referindo à cena drag retratada no documentário de Jennie Livingston Paris Is Burning. "Mas minha estética é muito diferente. Eu não me preocupo com glamour."

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Persephone também não sente que é passável na maioria das situações, sendo alta e tendo uma construção muito mais ampla que da maioria das mulheres cisgênero. Aquele almoço me fez ter uma noção de por que mulheres trans negras valorizam tanto ser passável: notei pelo menos duas pessoas naquele bairro relativamente liberal encarando Persephone de maneira hostil. Isso é algo com que não estou acostumada sendo alguém que passa como branca e cis, mesmo sendo asiática e trans. É um fenômeno bastante documentado que mulheres trans negras são particularmente vulneráveis por causa da interseção de racismo, misoginia e transfobia, tudo conspirando para torná-las propensas a despertar a raiva das pessoas simplesmente por existirem.

Nossa amiga em comum Kara Tucker, uma trans de 50 e poucos anos, também testemunhou Persephone se tratada com um tipo de crueldade que ela nunca experimentou. Kara me contou que já viu um homem balançar a cabeça abertamente enquanto Persephone passava por ele num restaurante. Parece que as pessoas que não concordam com a apresentação de gênero de Persephone estão mais que dispostas a demonstrar abertamente essa desaprovação.

"E isso é só a ponta o icebergue comparado com as histórias que ela me contou", Kara disse.

Sim, perseguição nas ruas e ameaças de violência são uma realidade diária para Persephone. "Sempre tenho medo que alguém possa me atacar hoje", ela diz. "Já entrei em mais brigas nesses dois anos de transição do que na minha vida inteira, porque as pessoas querem provocar a travesti indefesa."

Enquanto outras trans confiam em serem passáveis para navegar por essas ameaças, Persephone usa seu treinamento em artes marciais dos muitos anos em que esteve na Marinha para lidar com situações potencialmente explosivas. Como muitas mulheres trans, ela escolheu uma profissão hipermasculina no começo da vida para tentar negar sua identidade transgênero.

Mas Persephone também tinha outro motivo. "Pensando agora, percebo que como eu não conseguia aceitar a mim mesma, eu literalmente ia achar um jeito de acabar morta", ela diz, "mas não funcionou". Essa imagem de dor ainda pode ser sentida na vida que ela leva agora, onde ser seu verdadeiro eu também leva à violência. Persephone me contou uma experiência particularmente tensa no Ano Novo passado, quando quatro homens tentaram atacá-la enquanto ela voltava sozinha para casa. Eles recuaram depois que ela nocauteou um deles com um soco no nariz.

"Só quero viver minha vida", diz Persephone. Já a vi passar por momentos depressivos no Facebook, dias em que ela tem dificuldade para sair da cama por causa dos julgamentos que sabe que terá que encarar. Recentemente, Persephone se separou da esposa, que disse que não conseguia mais lidar com a extensão da transição dela, e também perdeu todos os amigos próximos.

"Sinto que não me encaixo", disse Persephone, se referindo não apenas a sua vida como trans, mas também a seu círculo social imediato. "Não me dou realmente bem com outras mulheres trans negras, mas as outras mulheres do Trans Ladies Picnic nem sempre entendem minhas experiências."

Mesmo assim, as trans do piquenique se tornaram o centro da vida social de Persephone, já que o grupo se esforça para ser inclusivo para todas as identidades transfemininas. Ela fez amigas próximas no grupo, que a admiram por sua independência e pelo que aprendem com as perspectivas dela. "A Persephone mais que ninguém abriu meus olhos para as lutas das mulheres trans não-brancas, compartilhando comigo muito honestamente a violência que enfrenta todo dia", me disse a poeta e acadêmica Trace Peterson. "Ouvir que alguém de quem gosto tanto está em perigo constante teve um efeito visceral em mim. Me fez ver minha situação de modo diferente e me encorajou a apoiar as mulheres trans não-brancas a falarem sobre questões de raça na comunidade trans."

Persephone também pode canalizar suas experiências agora através de meios mais produtivos, trabalhando como conselheira no Ali Forney Center, que fornece abrigo de emergência para jovens LGBTQ. "Sou conselheira em tempo integral", disse Persephone, "e sinto que minhas palavras valem mais quando falo com outros moradores trans, porque eles sabem que falo por experiência própria".

Parte dessa experiência de Persephone, com certeza, é ser fiel a si mesma, apesar do custo. É uma lição que ela encarna, assim como Kael e Tyler, de maneira diferente, apesar de enfrentar o julgamento de outros. E mesmo que se tornar mais visíveis na comunidade trans os tenham tornado mais vulneráveis também, todos enfatizaram a importância de contar suas histórias, para que outras pessoas trans possam se conscientiza que há muitas maneiras de ser trans.

"A mídia cooptou identidades trans negras e está tentando ditar como devemos parecer", disse Persephone. "Muita gente me diz que isso não acontece só com pessoas trans, que 'a mídia faz isso com todo mundo'. Claro, mas nossa vida não devia depender de como as pessoas te percebem."

As palavras de Persephone tiveram um impacto em mim, e também ecoam o desejo de Tyler e Kael de contar suas histórias individuais. Fazer isso é a chave para a nossa sobrevivência, já que estamos constantemente sobre pressão da sociedade mainstream para nos conformarmos com suas expectativas, mesmo que as pessoas estejam aceitando mais a identidade trans. Complicar as narrativas estabelecidas permite que o público tenha mais consciência das muitas maneiras possíveis de ser trans, e também lembra aos trans – que geralmente já desafiam estereótipos de gênero de um jeito ou de outro – que não devemos precisar nos conformar com as narrativas estabelecidas pela mídia para sermos aceitos. Independente de como sua expressão de gênero parece para o mundo exterior, merecemos viver nossos gêneros em nossos próprios termos. Contar nossas histórias, para que o resto do mundo possa nos entender melhor, nos leva mais perto do objetivo de viver uma vida melhor, livre de expectativas de gênero opressivas.

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