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Cultura

O desporto extremo por detrás das cenas de luta de "Pantera Negra"

Não é CG.

Por Jeremy Price; Traduzido por Madalena Maltez
21 Março 2018, 8:29pm

PANTERA NEGRA, dos Marvel Studios. Esquerda para direita: T'Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman) e Erik Killmonger (Michael B. Jordan). Foto: Matt Kennedy. ©Marvel Studios 2018

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Se és uma das milhões de pessoas que viram Pantera Negra no cinema, provavelmente lembras-te de pelo menos uma cena onde T'Challa dá um mortal do caraças e termina com um pontapé na cara de um dos maus. Coisa típica de super-herói, já se sabe. Mas, o que é que torna essas cenas de lutas acrobáticas possíveis? Eu pensava que era apenas um trabalho elaborado, com arames, truques de câmera, ou algum tipo de efeito especial. Foi então que descobri o conceito de "tricking de artes marciais", ou só “tricking” para encurtar.

Tricking é o resultado da junção de artes marciais, ginástica e breakdance numa amostra lindíssima e explosiva de pontapés, mortais e voos. Primo da capoeira e do free running, o tricking não foi criado para combate na vida real – quem é que vai mandar um mortal de costas a meio de uma luta na rua? -, mas os nossos super-heróis cinematográficos dão-lhe vida no grande ecrã.

Na verdade, muitas vezes, o homem que veste o fato de Pantera Negra não é Chadwick Boseman, mas Daniel Graham, um tricker e duplo profissional. Em 2012, venceu o HKPK Worlds Tricking Championships, patrocinado pela Red Bull, em Las Vegas, o que significa que merece mesmo usar o fato. Vê-lo a fazer tricking é como observar o equivalente do corpo humano para fogo de artifício.


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As raízes do tricking podem ser encontradas em meados dos anos 90, com o nascimento do Xtreme Martial Arts (XMA), um tipo de arte marcial performática que combina técnicas de pontapés e saltos. Não muito depois, a prática desses novos movimentos, ou “tricks”, afastou-se de formas tradicionais de auto-defesa para se tornar um desporto e uma forma de arte independente. Graças a uma explosão de vídeos e tutoriais na Internet, o tricking passou do underground para fenómeno mundial.

Interessei-me por tricking a partir do XMA. Quando descobri que dois trickers de elite trabalharam como coreógrafos de luta para Pantera Negra, pedi-lhes ajuda para, finalmente, contar ao mundo como o tricking torna seres humanos reais em super-heróis que dão os mortais que vês na televisão e no cinema.

Matt Emig, 30 anos

Emig faz tricking há 20 anos e trabalha como duplo há cinco. Em Pantera Negra, estava na equipa de luta, a coreografar os embates e a treinar actores e outros duplos. É também o duplo para Martin Freeman.

Esquerda: O coreógrafo de luta de "Pantera Negra", Matt Emig, voa num "doubleleg." Direita: Emig dá um salto chamado "raiz”.

VICE: Como é que te envolveste no tricking?
Emig: Competia em XMA e tricking foi mais ou menos um desenvolvimento natural. Começaram a aparecer vídeos de instruções e os espetáculos à noite nas competições tinham demos especiais onde as pessoas mostravam esses movimentos. Acabei por me apaixonar.

Como é que fizeste a transição para duplo?
Como estava a competir internacionalmente, tinha muitos amigos no mundo todo. Alguns deles vieram para Los Angeles, começaram trabalhar como duplos e eu quis tentar, por isso mudei-me para cá também. Alguns anos depois, estou no Pantera Negra.

Como é que o tricking te preparou para uma carreira como duplo?
Hollywood está sempre à procura de algo novo e senti que o tricking era uma dessas coisas. O género de super-heróis está a bombar agora – são os novos filmes de cowboys. Por isso, se vais ver um filme de super-heróis, o que é que mais queres ver? Movimentos acrobáticos incríveis. É aí que entra Danny Graham, que é o melhor tricker do Mundo, a interpretar o Pantera Negra – faz sentido.

O elenco e a equipa de "Pantera Negra" (incluindo Micah Karns, centro, e Matt Emig, ajoelhado) reunidos depois de mais um dia de filmagens. Foto cortesia Matt Emig.

Em que cenas do filme Pantera Negra é que utilizaram tricking?
No final, há uma cena onde o Danny atira um gajo ao ar, depois corre, dá-lhe um grande pontapé no peito, gira e faz um cheat 900, e ainda lhe dá outro pontapé na cabeça. Ele estava a usar o fato do Pantera Negra com o capacete, por isso ver e respirar era um pouco mais difícil, mas é tudo real. Por isso, parabéns Danny pelo 900 perfeito com um pontapé controlado na cabeça e também para o duplo que levou a pancada.

Qual é aquela coisa mesmo única que o tricking consegue trazer par acima da mesa quando se trata de filmes de super-heróis?

Tricking é uma grande mistura de saltos e golpes e acho que isso descreve a maioria dos super-heróis. Eles não vão simplesmente dar um pontapé a uma pessoa na cabeça – vão saltar, girar duas vezes e acertar na cabeça dessa pessoa. Acho muito fixe que se possa ser um tricker, ou alguém que faz artes marciais, e treinar estes movimentos e técnicas. É quando se é quase um super-herói verdadeiro.

Micah Karns, 24 anos

Karns faz tricking há mais de sete anos e é duplo há cinco anos e meio. Para "Pantera Negra", juntou-se a Emig na Equipa de Luta, a coreografar lutas e a treinar actores e duplos.

O coreógrafo Micah Karns prepara actores e duplos para a cena da luta na cascata. Foto cortesia Micah Karns.

VICE: Como é que te envolveste no tricking?
Karns: Tudo começou na escola de artes marciais onde estudava. Era uma escola muito tradicional de karaté Shuri-ryū e aos fins-de-semana tínhamos aulas de performance extrema. Isso envolvia tricking e, depois de ver alguns vídeos no YouTube, fiquei interessado.

E como é que entraste para a indústria de filmes de acção?
Muitos dos meus professores na escola de karaté mudaram-se para LA para tentarem carreira como duplos. A escola nunca foi para mim e sentia que a minha melhor opção era seguir os meus professores, portanto mudei-me para a Califórnia quando tinha 18 anos. A maioria dos artistas marciais que se tornam duplos fazem-no na área das lutas, mas o tricking realmente diferencia-nos. Às vezes os lutadores precisam de usar arames, mas os trickers conseguem fazer os movimentos sem nada e depois continuarem a coreografia.

Achas que filmes e séries de super-heróis seriam possíveis sem tricking?
Não, o tricking acrescenta realmente algo aos super-heróis, especialmente aos que são ágeis, como o Homem-Aranha, ou o Pantera Negra. Fiz um pouco de tricking em Demolidor – acho que acabei por mandar um sideswipe. E fiz captura de movimento para Círculo de Fogo: A Revolta. Muitos dos movimentos dos robots usam tricking.

Outro dia no set de Pantera Negra, com o coordenador de dublês Andy Gill (esquerda), Karns (centro) e até o próprio Pantera. Foto cortesia de Micah Karns.

Lembras-te de alguma cena de Pantera Negra onde Graham dê um salto de tricking?
Sim, há uma parte em que o Pantera Negra está a lutar contra um grupo de homens armados na floresta. Ele acaba por mandar um trick chamado b-twist side kick, que é um butterfly twist e depois um side kick. Acerta no peito de um gajo e ele sai a voar.

No dia da filmagem, trouxemos uns duplos de Atlanta e colocámo-los nas posições certas. Eles só tinham que ficar de peito aberto e o Danny acabava com eles. Muitos desses personagens ficam mais no chão – só o Pantera Negra e o Killmonger é que são acrobáticos. Ajudou ser o Danny o duplo do Pantera Negra, porque era só dar-lhe a coreografia e deixá-lo fazer o trabalho. Ele até acrescentava saltos, o que era do caraças.


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