Como é fotografar as execuções públicas no Irão

AVISO: Este artigo contém descrições e imagens que podem ferir a sensibilidade de alguns leitores.

Por Ebrahim Noroozi; Como contado a Kieran Morris; Traduzido por Madalena Maltez
25 Fevereiro 2019, 5:35pm

Todas as fotos por Ebrahim Noroozi.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Amuse.

Ebrahim Noroozi construiu a sua carreira a apontar a câmara para situações que muitos preferem evitar. Desde que começou a trabalhar como fotógrafo em 2004, Noroozi tem desfrutado de um sucesso espectacular. Já ganhou diversos prémios (incluindo o World Press Photo Awards), fez exposições em eventos de prestígio como o Paris Photo e teve as suas fotos publicadas na Time Magazine e no New York Times.

Ao trabalhar principalmente com as franjas da sociedade iraniana, Noroozi explora as histórias humanas e ambientais com um toque hábil; ao mesmo tempo mostra a beleza natural em todos os seus temas – independentemente de quão sombrios, sujos e grotescos estes sejam. E faz isto num país que poucos ocidentais sequer tentam entender: uma nação incrivelmente vasta e variada, que geralmente é caracterizada através de estereótipos crus. É um país onde a história antiga é forçada na vida contemporânea; um lugar onde memórias de guerra e trauma persistem na psique pública, sempre a pairar, ameaçando regressar mais uma vez a qualquer movimento do sabre do Grande Satã.


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A VICE juntou-se a Noroozi para publicar algumas das séries fotográficas mais perturbadoras da sua carreira – fotos que iluminam vários aspectos de uma sociedade e um país que continuam um completo mistério para muitos no Ocidente. A primeira dessas séries, Death Observers, faz um zoom ao espectáculo das execuções públicas no Irão, documentando como as multidões testemunham a demonstração de “justiça” por crimes hediondos.

As multidões nas imagens que vemos estão a assistir ao enforcamento de dois homens, um condenado peloa violação de quatro mulheres, outro por traficar quase três toneladas de drogas. Ao voltar a câmara para a multidão em vez dos condenados, Noroozi mostra a experiência humana no seu lado mais instintivo, enquanto capta a forma como um fenómeno antigo se cruza com a tecnologia moderna e o novo conjunto de impulsos que vêm com isso. Abaixo ele fala sobre as suas fotos e o seu processo de trabalho.


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Para esta série, fotografei diferentes multidões em diferentes lugares, de tamanhos diferentes. Às vezes era algo fácil de fazer; às vezes difícil; algumas vezes mandaram-me embora. Toda a gente sabe que execuções públicas fazem parte da lei aqui – não precisava de documentar esse facto, obviamente. Mas, a escala das multidões interessava-me. Algumas juntavam cerca de 400 pessoas, outras algo próximo de mil e outras até mais que isso. Muitos homens e mulheres de diferentes classes e idades reúnem-se logo pela manhã, em áreas residenciais, para testemunhar as mortes.

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Às vezes, as multidões eram tão agitadas que eu conseguia fotografar sem ninguém reparar. Algumas pessoas não tinham problemas por eu estar ali. Acho que o choque de tudo aquilo as absorvia por completo. Estavam tão excitadas – não num sentido positivo, mas literal – que entravam num estado de transe. Não estavam neste mundo, mas noutro lugar. Em certos momentos, as pessoas desmaiavam e tinham que ser carregadas dali. Outras vezes, sentiam-se obrigadas a pegar no telemóvel e filmar o espectáculo. Acho que, hoje em dia, quando as pessoas vêem coisas que não consideram normais começam a filmar e a fotografar.

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Queria mostrar essas imagens, na esperança de que estes eventos aconteçam com menos frequência. É uma experiência horrível e dolorosa de testemunhar. Testemunhar a morte de um ser vivo é sempre um evento horrível, especialmente se o ser vivo é um ser humano. Mesmo que isto aconteça há séculos, é um evento tão anormal e incomum que toca no coração da natureza humana – isso choca-te, mas não te corta as emoções. É um choque que te preenche e te consome. Acho que temos menos execuções públicas agora por causa desse efeito nas pessoas e, para mim, isso é bom.

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