Drogas

Dealers contam-nos como reconhecem um otário

Perguntámos a quatro traficantes franceses como decidem a que clientes vão "passar a perna".

Por Sarah Perrin
13 Maio 2019, 3:30pm

Ilustração por Vincent Vallon para a VICE FR.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE França.

Quando alguém compra drogas ilegais, ser enganado é mais ou menos um ritual de iniciação: já toda a gente passou por isso pelo menos uma vez. Talvez a comprar louro em vez de haxixe, um grama de cocaína que na realidade era farinha... ou talvez a ser enganado apenas em relação à qualidade e peso da compra.

Apesar de grande parte dos dealers não enganar os clientes – porque é mau para os negócios, já que o objectivo é construir uma base fiel de compradores –, às vezes fazem-no por razões que variam de pobreza a vingança. Todas as cidades têm uma certa área ou bairro onde o pessoal "passa a perna" a turistas inexperientes e os golpes variam muito na sua forma.


Vê: "Como tratar um dealer de erva, de acordo com um dealer de erva"


Mas, como é que um dealer sabe que está a lidar com um otário? Porque é que decidem enganar certos clientes e como é que o fazem? A VICE França falou com quatro vendedores de estupefacientes – que admitiram ter enganado clientes a que chamam de "pombas" (a gíria em francês para “otário” ou “burro”) uma ou outra vez – para tentar aprender alguma coisa com eles.

Os nomes foram alterados para proteger os entrevistados.

Bastien (31 anos), dealer de erva

Bastien cultiva canábis em casa há décadas. Produzir a erva permite-lhe consumir de graça e faz com que os seus rendimentos mensais aumentem ao vender aos colegas de trabalho (trabalha na área dos seguros). Ri-se quando se lembra de uma vez em que vendeu “um grama por 21 euros” (em França, dois gramas geralmente custam 10 euros).

VICE: Na tua opinião, quem é um bom otário?
Bastien: Alguém que não sabe nada sobre o produto, que não vai pesar depois e que não tem muitos contactos.

Como escolhes os teus otários?
Geralmente, pessoas com muito dinheiro e que estão no mesmo círculo profissional que eu – que não conhecem muitos traficantes e que normalmente só têm acesso à erva de baixa qualidade por 10 euros o grama. Quando vêem o que estou a oferecer, nem prestam atenção ao preço.

Como é que os engana?
Acho que eles nem desconfiam que estão a ser enganados, porque digo logo o preço antes de qualquer coisa. Essas pessoas não sabem nada sobre o processo, acertamos as coisas de uma forma muito directa – quase honesta.

Nathan (27 anos), dealer de cocaína

Nathan tem um esquema diferente e mais arriscado. Ele nunca foi um verdadeiro dealer, porque nunca teve forma de comprar drogas em grande quantidade. Na verdade, geralmente do que precisa é de dinheiro para financiar o próprio consumo. Portanto, engana estranhos que conhece “por acaso” – vende-lhes farinha em vez de cocaína.

VICE: Na tua opinião, quais são os traços característicos de um otário?
Nathan: Um otário é um novato – e, acima de tudo, alguém que não conheço, que não me vai encontrar depois. É alguém que vai confiar em mim, mesmo não me conhecendo realmente – alguém que não sabe absolutamente nada sobre tráfico.

Como é que escolhes a tua presa?
Honestamente, são eles que acabam por me escolher! São estranhos que me abordam à noite, nas ruas ou por mensagem, para fazer uma compra. Não engano qualquer um. Geralmente viso gente mais jovem, fisicamente mais fraca que eu, que não vai tentar atacar-me quando perceber que foi enganado.

Podes contar-nos mais sobre os teus métodos?
Encontro-me com essas pessoas num lugar público, geralmente na rua. Em casa, preparo um saquinho com farinha suficiente para parecer um grama de cocaína; lá dentro coloco também várias camadas de plástico para a pessoa não sentir o cheiro ou conseguir ver bem o produto. Quando encontro o otário, faço pressão dizendo que vi a polícia ali perto, que temos que fechar o negócio rapidamente e, quando me dão os 80 euros, desapareço o mais depressa possível e bloqueio o número.

É emocionante. Para mim, não deveriam ter confiado num estranho assim de um momento para o outro. Acho que são parcialmente responsáveis pela situação – e de certa maneria, têm sorte que só lhes vendo farinha: quando compra desta jeito, de uma pessoa aleatória, podes acabar com algo muito pior que farinha no nariz.

Serena (23 anos), dealer de erva

Serena foi a única mulher que conheci nesta arte do engano. Agora com 23 anos e já retirada, ela conta que, entre os 19 e os 22 anos, enganou muita gente – em parte porque precisava de dinheiro, mas também motivada por vingança: “Enganaram-me tantas vezes quando comecei a consumir que acabei por pensar 'não há nenhuma razão para não tirar vantagem disso, da falta de regras no tráfico'”.

VICE: Quem é um bom otário?
Serena: Bem, geralmente alguém jovem – já toda a gente foi enganada quando era inexperiente. E há pessoas que não sabem como verificar o produto que estão a comprar; consegue pressionar esse pessoal facilmente. E reconheces um otário facilmente pela forma como fala sobre o que consome: se exagera, se se gaba, se diz que cheira cocaína quase todas as manhãs, percebes que o gajo é completamente verde. Então entras no jogo, falas com eles e engana-los.

Quem são as pessoas mais fáceis de enganar?
Quase sempre visava raparigas mais novas que eu, porque elas confiavam em mim automaticamente. Não encontras muitas raparigas que vendam drogas, portanto as clientes ficavam super felizes – achavam que havia uma solidariedade feminina. Escolhia miúdas que vinham gastar o que tinham no bolso e que não conheciam ninguém que eu conhecesse.

O que acontecia depois?
Fazia com que fossem ao rés-do-chão de um prédio – dizia-lhes que morava ali. Depois cobria o meu rastro no caso de alguma querer voltar para reclamar. Geralmente, mostrava-lhes um pouco de erva bastante boa, dizendo-lhes que era aquilo que tinha no pacote – um pacote opaco, óbvio. Mas, no pacote só havia relva, às vezes nem isso. E elas ficavam tão felizes de comprar a uma miúda fixe que nem faziam perguntas – davam-me 40 euros e iam-se embora. E uma vez também vendi um pouco de speed como se fosse cocaína, mas depois arrependi-me. Quando as pessoas cheiram algo a que não estão acostumadas, pode ser perigoso. Agora parei com tudo isso – ganho a vida honestamente e sinto muito por ter enganado menores. Foi divertido no começo, mas um dia comecei a sentir-me culpada e parei.

Philippe (28 anos), traficante de cocaína

Philippe é traficante de cocaína e consumidor. Ele já não é um golpista a tempo inteiro, porque tem uma clientela fiel que não quer enganar. Ainda assim, já passou a perna a pessoas que o irritaram “uma vez ou outra”.

VICE: Para ti, qual é a definição de um bom otário?
Philippe: Basicamente um grande idiota. Alguém que te vê como um dispensador de cocaína e mais nada. Não quer saber da tua vida pessoal, das suas restrições – só quer o pó dele.

Então, procuras o tipo mais idiota?
Não acontece com frequência, mas uma vez houve um gajo que me andava a assediar. Insistia em comprar, mesmo depois de lhe dizer que não lhe ia mais. Queria apenas mostrar-lhe que, se me chateasse, ia dar merda.

O que lhe vendeste?
A dada altura comecei a ter que cortar a cocaína. O tipo não parava de me perturbar – então, no dia seguinte, peguei um pouco de cocaína e de um grama deixei 0,6 – um pouco mais – e misturei açúcar de pasteleiro, alguns medicamentos; tudo que se parecesse com cocaína, estás a ver? Mas, não curto fazer isso, porque é assim que acabas por levar nos cornos apanhando. Se algum tipo descobre que lhe deste pó falso, vais acabar com problemas a sério.


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