O skate nunca será o mesmo sem Jake Phelps

O lendário editor da revista Thrasher era um gajo muito difícil, mas o seu contributo para o skate foi inestimável.

|
19 Março 2019, 8:43am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Nunca vai existir ninguém como Jake Phelps (1962-2019). Ele amava o skate mais que qualquer coisa. Dedicou-lhe a sua vida. Mesmo que por vezes tenha atravessado a rua para o evitar, lembro-me sempre de muitas das coisas que ele me disse ao longo dos anos. Muitos dos seus telefonemas, de um número que era 415-666-qualquer coisa, davam-me medo de atender. Mas, depois de cada um desses telefonemas acabava sempre a citar partes da conversa: “o quê, ainda estás a dormir? Acho óptimo que tenhas ficado acordado até tarde com o Jason Dill e os geradores” (o nome da minha banda, se tivesse uma).

Ter trabalhado com ele e na Thrasher durante alguns anos é, provavelmente, a parte do meu currículo que mais me orgulha, algo que nunca deixo de dizer quando me perguntam sobre a minha carreira. Thrasher, o logo, o nome, é algo conhecido no Mundo inteiro. É uma publicação autêntica e confiável. Nunca se vendeu - quando poderia - e mudou a minha vida. E muito disso tem a ver com Jake. Ele começou na sala de distribuição. Diz a lenda que Phelps foi ao escritório do editor-fundador Kevin Thatcher depois de rasgar todas as páginas de um número da revista de que não tinha gostado e disse “toma, esta é a tua revista”. E Kevin disse-lhe “se achas que podes fazer melhor, tenta”.

1552756778050-image1

De certa maneira, Jake não era realmente o editor quando lá trabalhei. Ele era mais tipo um “editor no geral”, como dizia Glenn O'Brien. Se precisava de filmar, ligava ao Luke Ogden. Se tinha escrito alguma coisa mal, ligava ao Ryan Henry. Michael Burnett preenchia boa parte da revista com as suas fotos e textos. Jake nem sequer tinha um computador na secretária. Não tinha um e-mail. Nunca activou uma caixa de mensagens de voz. Ele ligava-te e era melhor atenderes. Recebia as pessoas no seu escritório como se fosse uma espécie de Svengali ou um vidente do skate e dizia o que gostava e o que não gostava.

Muitas vezes, as suas declarações pareciam demasiado duras ou erradas e só com o passar do tempo é que acabavas por te lembrar e chegavas à conclusão: “Ele tinha razão”. As pessoas tinham teorias da conspiração sobre a Thrasher e Jake e trocavam histórias e rumores. Havia quem garantisse que Jake lhes tinha cortado a assinatura da revista, ou falado mal delas numa legenda qualquer de uma foto. Quem é banido? É o Jake que escolhe o Skater do Ano, ou as pessoas realmente votam?


Vê o primeiro episódio de "Epicly Later'd"


O skate poderia te-se transformado em qualquer coisa. Já foi uma moda de putos. Poderia ter-se convertido numa espécie de ballet, num desporto armado ao pingarelho, em freestyle, poderia ter continuado a ser o hobby paralelo dos surfistas. Skaters como Tony Alva, Mark Gonzales, Eric Dressen e Lance Mountain são normalmente mencionados como aqueles que influenciaram a forma de andar de skate. E foram pessoas como Craig Stecyk, Glen Friedman, Spike Jonze, Stacey Peralta e Grant Brittian que nos mostraram como era cobrir, fotografar e falar sobre skate. Mas, entre todos os jornalistas, fotógrafos e editores, Jake Phelps tinha uma das vozes mais distintas – e, certamente, uma das mais altas.

Quando trabalhei na série da VICELAND, Epicly Later'd, passava sempre por uma lista mental: “Será que o Jake vai achar isto fixe? O que é que o Jake acha do skate nas Olimpíadas?”. Concorde-se ou não com ele, Jake é uma daquelas vozes pelas quais medimos o estado do skate. Ele era o gajo que estabelecia o folclore e as regras tácitas. Agora que se foi, temos permissão para mudar tudo? Quem vai manter as coisas na linha?

Admito que fazer uma homenagem a Jake Phelps é complicado. Ele era uma pessoa profundamente difícil. Alguém que respeitavas, mas que evitavas quando podias. Alguém que podia fazer e dizer coisas idiotas, um cabrão. Ouvi histórias e ele próprio chocou-me muitas vezes. Mas, às vezes ele chocava-me por se importar, não só com o skate mas comigo e com muitos e muitos outros skaters como eu.


Segue o Patrick no Instagram.

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.