Cultura

Conhece as cosplayers negras mais fantásticas do Instagram

Cinco cosplayers falam sobre o seu amor pelo anime, como encontraram uma comunidade no cosplay e como superam comentários racistas.

Por Janae Price; Traduzido por Marina Schnoor
08 Maio 2019, 10:26am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Todos os negros fãs de anime têm uma história de amadurecimento, um momento em que percebes que o estilo de animação é muito mais que apenas desenhos animados. O meu momento foi quando tinha uns nove ou 10 anos e não sabia bem se gostava de rapazes ou raparigas.

Na época, a minha irmã mais velha era apaixonada por Little Bow Wow e B2K e estava sempre a dizer que os achava muito “gatos”. Mas, quando via esses bonecos tipo Ken negros de tranças, eu não sentia nada. Na minha cabeça ingénua, achava que só podia gostar de um género ou outro. Se tivesse que escolher, qual seria?

Esse mal-estar juvenil desmoronou no dia em que vi o Trunks do futuro de Dragon Ball Z dar cabo de Frieza e King Cool. Naquele momento, percebi que, um dia, ia querer um gajo cool ao estilo anime – com peitorais definidos e cabelo brilhante, que por acaso também fosse descendente de uma poderosa raça ancestral (o meu gosto continua praticamente o mesmo hoje em dia). Assim que descobri o Trunks, só queria mais.


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Apesar de terem sido os rapazes de anime a chamarem a minha atenção, não foi só por isso que continuei a ver este estilo de animação. Foi pelo samurai de olhar confiante e um passado sombrio de Rurouni Kenshin; a dedicação e lealdade que Naruto sempre sentiu pelos seus camaradas; os personagens multidimensionais de Avatar: A Lenda de Aang que espelhavam membros da minha própria família. Não tardei a perceber que cada passo e estágio da minha vida tinha um anime para o acompanhar.

Não sou a única pessoa negra que se sente assim. De Michael B. Jordan a proclamar com orgulho o seu amor pelo anime, artistas como Jaden Smith e Frank Ocean a fazerem referências subtis a DBZ na sua música, até ao vídeo de batalha de dança “Hood Naruto” que já tem quase 14 milhões de visualizações no YouTube. O amor dos negros pelo anime é profundo e, por isso, reuni algumas das cosplayers negras mais fantásticas do Instagram para que me contassem porque é que curtem tanto anime.

Shellanin

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"Sou apaixonada por anime desde o ensino secundário. Toonami, da Cartoon Network, foi a minha porta de entrada para o mundo do anime. Depois de Toonami, passava a maior parte do tempo a pensar em correr com Naruto e a juntar as minhas mãos para fazer alquimia como Edward Elric de Fullmetal Alchemist. Sempre me revi nesses personagens. Sonhava com Sailor Scouts negras em Sailor Moon e Saiyans do Dragon Ball Z com cabelo afro como o meu. Esse amor por anime deixava-me a esperar ansiosamente pelo Halloween – que era a minha única hipótese em todo o ano de me vestir como o meu personagem de anime favorito.

No liceu, encontrei outras pessoas com os mesmos interesses. Andávamos pelos corredores com a bandana de Naruto na cabeça e as horas de almoço eram passadas na biblioteca a ler mangas. Através desses amigos, descobri as convenções e o cosplay. E pensei tipo “Uau, cosplayers – não têm de esperar pelo Halloween para se vestirem como sos eus personagens favoritos”. Sabia que também tinha de tentar.

Mesmo gostando muito de anime, negros e pessoas com tons de pele mais escuros são pouco representados nesses eventos. Portanto, pensei que, quando fizesse cosplay, tinha que realizar os meus sonhos de infância. Como tal, repensei personagens como Vegeta e Bulma de Dragon Ball Z para se parecerem comigo. Quero que o mundo possa reimaginar como seriam esses personagens se fossem como eu, uma mulher negra. No futuro, quero fazer cosplay de pesonagens como a Misty de Pokémon e Deky de My Hero Academia. Uso a minha hashtag #CurlyCosplay para espalhar o amor pelo cabelo encaracolado negro dentro do cosplay. Com o #CurlyCosplay, posso ser quem eu quiser e ser eu ao mesmo tempo, o que adoro. O meu amor pelo anime vai sempre aparecer nos meus trabalhos de cosplay".

Kiera

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"Descobri o mundo do anime através do meu amigo Teven. Ele era obcecado e eu não entendia porquê. Lembro-me de um dia em que ele estava a falar sobre um anime chamado Future Diary; fiquei intrigada quando explicou todas as coisas malucas que aconteciam na série. Alguns dias depois, decidi ver e apaixonei-me imediatamente. Vi a série quase inteira naquela noite. Naquela semana, fiz maratonas de Future Diary e chateei o meu amigo para me dar dicas de outras séries antes que acabasse a que já estava a ver.

Com o cosplay a história foi parecida. Sempre me diziam que eu parecia a Garnet de Steven Universe e que devia mascarar-me dela. Gosto muito dessa série, por isso num Halloween decidi tentar. Nunca tinha levado o Halloween muito a sério, mas dessa vez caiu-me a ficha. Depois disso, fiquei obcecada e comecei a planear o meu próximo personagem apesar de o Halloween já ter passado. Dentro disso, descobri um mundo e um hobby de que nem sabia que ia gostar até experimentar.

Sempre gostei de me expressar de novas formas e foi isso que acabou por se tornar uma extensão de mim. Identificar-me com personagens com histórias loucas ou habilidades mágicas fez-me ver a vida de uma forma muito mais divertida e cheia de esperança!".

Snitchery

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"Anime faz parte da minha vida há uma década. Quando tinha uns 10 anos, lembro-me de olhar por cima do ombro do meu irmão na noite de Natal enquanto jogávamos Pokémon Emerald num Gameboy Advance partilhado. Quando, algumas semanas depois, na escola, descobri que havia uma série de televisão, fiquei viciada.

Ao crescer como uma pessoa birracial – a minha mãe é branca e o meu pai é negro – numa comunidade principalmente branca, o meu crush no Tamaki Suoh de Ouran High School Host Club e a minha propensão para desenhar manga no canto dos cadernos dos meus trabalhos de casa, tornavam-me um pouco mais diferente dos meus colegas de escola. Sempre me orgulhei de me vestir de uma forma excêntrica. A minha professora de história perguntou-me uma vez: “O que é que as pessoas como tu vestem no Halloween?”. Portanto, usar o cabelo como a Sailor Moon, meias até aos joelhos inspiradas em Misa Amane [de Death Note] e t-shirt do Aeropostale na sétima temporada provavelmente não era apenas uma tendência, mas sim a minha eu de 12 anos que adorava essas coisas.


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Só quando fiz um Instagram de maquilhagem em 2014 é que comecei a levar essa inspiração para o nível seguinte, postando editoriais de maquilhagem, copiando personagens conhecidos de anime e brincando com a ideia de fazer um cosplay completo. Hoje tento publicar conteúdo que fica no meio de tudo isso; 99 por cento das minhas fotos são selfies de rosto e cabelo em vez de corpo inteiro, assim a peruca, a maquilhagem e o pouco da fantasia que vês na imagem final são muito verdadeiros no cânone ou uma abordagem nova para um personagem de animação. E quando uso um top sem mangas, é possível ver um pouco das minhas tatuagens de Killua [de Hunter X Hunter] e Cubone [de Pokémon].

No geral, a resposta online para os meus cosplays tem sido incrível, e os comentários dos haters são rapidamente engolidos por um mar de amor e apoio, portanto, dificilmente acabo por ler tudo. Dito isto, aqueles que leio geralmente são raciais – como, mesmo tendo um tom de pele mais claro, ainda sou muito negra para fazer cosplay de Kaneki [Tokyo Goul], como os meus lábios são muito grossos para retratar a Misty [de Pokémon] da “forma certa”, como Raven [Teen Titans] é o meu “melhor” cosplay, porque usei uma base grossa cinzenta.

Já vi comentários bem piores para cosplayers inconfundivelmente negras, como a @kieraplease e a @mimithenerd, que são as melhores nesta cena. Há essa ideia muito estúpida por parte de um sector da comunidade de cosplay de que mulheres negras só podem fazer cosplay de personagens negros (o que é risível tendo em conta o meio) e aquele estigma geral de que negros não podem ser nerds. Para mim, é muito libertador fazer exactamente o contrário, especialmente quando tenho a oportunidade de me juntar a outras mulheres negras para fazer colaborações incríveis de cosplay. Dez anos depois, o anime – e por extensão, o cosplay – é ridiculamente central para a minha identidade e eu não trocaria o meu status de rapariga negra geeky por nada neste mundo".

BlackKrystel

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"Anime sempre fez parte da minha vida. O meu amor pela animação japonesa desenvolveu-se bastante cedo. Cresci a ver Pokémon Indigo League, Code Lyoko, Yugioh e Sailor Moon. São séries que constroem mundos muito credíveis e que me cativaram, que passam uma mensagem sincera de amizade e de que deves confiar nos teus instintos. O que me atraiu no anime – em comparação com o entretenimento ocidental – foi o facto de os personagens serem, geralmente, mais excêntricos, com personalidades vibrantes, que no Ocidente normalmente são limitados aos personagens “token”. E esses personagens ecléticos não são apenas superficiais, têm profundidade e estão sempre no centro da história. Além disso, no anime, raça e até género não definem os personagens; é mais fácil que te revejas em qualquer um deles.

Por mais que os animes sejam fantasia, as histórias que contam têm grandes mensagens e temas. Uma questão importante que acho que os animes abordam muito bem é a saúde mental; animes como Rascal Does Not Dream of Bunny Girl Senpai, March Comes in Like a Lion, Tokyo Ghoul e até o filme A Silent Voice são alguns dos títulos que mais me emocionaram. Enquanto mulher negra, nunca me identificava com personagens principais de filmes ou até desenhos-animados, porque não tinham nada a ver comigo. Anime muitas vezes retrata mulheres fortes em posições de poder, combatendo o crime e até a salvarem o Mundo. Hayao Miyazaki mostrou-me histórias criativas de amadurecimento como A Viagem de Chihiro e Howl's Moving Castle, com mulheres no centro da narrativa. Não é surpresa que tenha gravitado para o anime tão nova. Aprendi tanto sobre a cultura japonesa a ver anime que acabei por estudar a língua, o que me deu a oportunidade de viver no Japão.


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Como para muitos outros, Toonami era a minha única fonte de anime quando era criança. O segmento expôs-me a clássicos como Naruto, Innuyasha, Death Note e Fullmetal Alchemist Brotherhood que continuo a ver até hoje. Quando finalmente descobri os segredos da Internet, mergulhei de cabeça em todas as séries que encontrava. No liceu só via animes e jogava videojogos... até descobrir as convenções. Quando fui à minha primeira convenção, a Megacon em Orlando, Flórida, não tinha ideia do que era cosplay, mas encontrei um monte de gente vestida como os personagens pelos quais eu era obcecada.

Para mim, o cosplay tornou-se imediatamente uma fuga da realidade e continua a sê-lo. Estava finalmente a aventurar-me fora de casa e a conhecer outras pessoas. Bónus: toda a gente que conhecia gostava das mesmas coisas que eu. Senti-me acolhida por uma família que nunca soube que tinha. Tanto anime como cosplay são parte de quem sou agora. A minha apreciação do anime e da cultura japonesa como um todo nunca vai mudar. Tenho orgulho de me chamar de weeb e encorajo toda a gente a explorar os animes. Se nunca viste nenhum, estás a perder; se deixaste, é sempre um bom momento para voltares".

Mimi

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"A minha primeira experiência com anime foi com Pokémon e Dragon Ball Z, que era o que passava sempre na televisão. Logo depois de ver essas séries, quando ainda estava no ensino primário, vi o meu primeiro filme dos Estúdios Ghibli, Princesa Mononoke. Foi daí que o meu interesse em anime cresceu para uma paixão de adulto. Comecei a fantasiar-me como vários personagens quando era criança. Só percebi que estava a fazer cosplay quando cresci e comecei a vestir-me como os meus super-heróis e personagens de anime favoritos.

Na primeira vez que fiz cosplay numa convenção, vesti-me de Sailor Neptune de Sailor Moon. Estava nervosa por fazer cosplay em público, porque estar numa convenção pode ser muito intimidador e não sentia que as minhas capacidades fossem suficientes. Mas, pela minha experiência, sei que a minha raça definitivamente tem algo a ver com qualquer olhar ou palavras de julgamento. Fazer cosplay enquanto mulher negra ainda atrai trolls, racistas e comentários negativos nas redes sociais; eles esperam que só façamos cosplay dentro da nossa raça e nunca de personagens que não sejam negros.

Interessei-me pela cultura japonesa, porque o meu estilo sempre foi muito kawaii e identifico-me com vários personagens de anime, sendo a minha favorita a personagem principal de Sailor Moon, Usagi. Cosplay também me ajudou a sentir-me mais confiante e a lidar melhor com a ansiedade. Para mim, cosplay é mais que um hobby, porque me ajudou a definir quem sou hoje – quero ser cosplayer profissional. Sinto que raça é irrelevante para o cosplay e que toda a gente pode ser quem quiser".


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