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Os últimos doutores do pinball

Nos encontramos com as pessoas que consertam as máquinas que estão alimentando o ressurgimento do pinball nos EUA.
Imagem: Lara Heintz.

Matéria originalmente publicada na Motherboard US.

Mike Hooker passa as noites fazendo manutenção de trens na Ferrovia de Long Island. Os dias ele passa consertando máquinas de pinball.

Ele é técnico de pinball freelance, um dos últimos trabalhando na área de Nova York. Como era de se esperar, as pessoas ligam para ele quando suas máquinas velhas pifam; muitas vezes, elas só querem se livrar delas.

Quando visitamos Hooker em sua casa em Sayville, Long Island, ele nos levou para o porão, onde ele tem um museu de jogos raros, estranhos e históricos. Sea Devil, um jogo de caça submarina com um periscópio de 1970; Coney Island Rifle, um jogo estilo tiro ao alvo fabricado em 1976 mas que parece saído dos anos 20; e Bull's Eye, um jogo de dardos eletrônico de 1972. Nunca tinha ouvido falar de nenhum desses jogos antes, quanto mais jogado.

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Hooker me destrói sistematicamente em todos eles, antes de se voltar para o único pinball que ele tem atualmente: Happy Clown, um pinball eletromagnético fabricado pela Gottlieb em 1964, cuja arte conta com uma cabeça de palhaço sem corpo que balança. Hooker substituiu as bolinhas de Happy Clown com a infame “Power Ball” de Twiligth Zone, uma bolinha de cerâmica que, por causa do peso menor, corre pelo tabuleiro muito mais rápido que as bolas padrões de metal. E ele também acaba comigo em Happy Clown.

“Todo mundo conhece pinball”, ele diz. “É uma coisa verdadeiramente americana. Nós exportamos pinball. É tipo o jazz.”

Mike Hooker. Imagem: Lara Heintz.

Como uma banda de jazz, máquinas de pinball emitem uma cacofonia de barulhos improvisados que, no final, parecem música. Pinos, alvos, abas e rampas são ativadas enquanto o jogador luta contra a gravidade para manter a bolinha de ferro correndo no tabuleiro. Bons jogadores compõem longas canções repetitivas baseadas nos truques de cada jogo; jogadores ruins compõem músicas feitas de abas fechando enquanto rapidamente gastam as três bolinhas de uma ficha.

E o trabalho de Hooker é garantir que os jogadores de pinball possam fazer música. A menos que esteja reconstruindo uma máquina, Hooker geralmente vai até a casa de colecionadores para consertar suas máquinas (mover uma máquina de pinball é caro e geralmente resulta em mais danos).

“Lâmpadas, fusíveis – essas coisas estragam fácil.”

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Máquinas de pinball são frágeis e cada vez mais difíceis de consertar porque a maioria das empresas que as fabricavam fecharam.

“Elas eram fabricadas para durar só cinco anos”, diz Hooker. “Eram feitas para arrancar as fichas dos jogadores e depois serem jogadas fora.”

Por dentro do 'Haunted House'. Imagem: Lara Heintz.

Mas muita gente ainda gosta de pinball, e quer continuar jogando os jogos com que cresceu. Quando visitamos Hooker, ele estava com uma máquina da Gottlieb chamada Haunted House na garagem. O icônico vidro traseiro – o display vertical no final da mesa, que geralmente é uma das partes mais valiosas de uma máquina de pinball – foi removido, assim como o vidro acima do tabuleiro. Ele praticamente reconstruiu Haunted House do zero, mas um dos alvos ainda não está acrescentando pontos, o que Hooker acha que está sendo provocado por um fio solto embaixo da máquina.

Como máquinas de pinball tem muitas partes soltas e são frequentemente chacoalhadas, seus componentes quebram ou se soltam com o tempo.

“Se não as consertarmos, elas são inúteis.”

“As borrachas dos pinos racham, você tem interruptores até o pescoço”, nos disse Jon Ehrlich, que também tem uma oficina de pinball e um bar de pinball no Brooklyn chamado Jackbar. “Lâmpadas, fusíveis – essas coisas estragam fácil. O trabalho é principalmente encontrar peças. E em muitos casos isso é impossível.”

Apesar de serem os únicos especialistas em conserto de pinball da cidade, Hooker e Ehrlich têm bastante serviço. Nos últimos anos tem acontecido um ressurgimento do pinball – principalmente porque toda uma geração, como a de Ehrlich, cresceu jogando pinball e agora tem dinheiro para gastar nas máquinas de sua juventude.

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Imagem: Lara Heintz.

“Os preços das máquinas decolaram”, diz Hooker. “Se não as consertamos, elas são inúteis. Se nunca consertássemos nada, a Terra seria um grande lixão. O que você vai fazer? Lançar essas coisas no espaço?”

Hooker puxa o tabuleiro de Haunted House e o tabuleiro de bônus embaixo (esse foi um dos primeiros jogos a ter outro tabuleiro de pinball abaixo do normal) para expor ninhos de fios emaranhados.

“Você tem 50 bilhões de conexões aí”, diz Hooker. Cada conector corresponde a uma das abas, alvos e luzes do jogo. Ele precisa achar o único interruptor que estragou, uma tarefa que seria extremamente demorada se ele não tivesse um livro de esquemas que explica exatamente o que cada conector faz. Os esquemas parecem outra língua para mim, mas para Hooker são um mapa explicando tudo que pode quebrar na máquina e o que precisa ser substituído quando isso acontece.

“Se não sabemos o que deu errado, olhamos no livro”, ele diz.

Esses livros de esquemas estão no centro de uma batalha legal envolvendo técnicos de eletrônicos modernos. Há um movimento crescente pelo direito de consertar, pressionando por leis que exijam que fabricantes de eletrônicos disponibilizem manuais de reparo para o público. Isso poderia ajudar o consumidor médio a aprender a consertar as próprias coisas, e ajudaria profissionais a realizar consertos sem ter que depender do processo demorado e muitas vezes caro de tentativa e erro para diagnosticar e consertar um problema.

Hooker encontra o interruptor que tinha mesmo se soltado. Ele religa o fio, fecha a máquina, e joga o jogo. E ganha de novo.

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