Entretenimento

Uma análise quadro a quadro do cara que caiu no Rio Tâmisa

O que podemos aprender sobre nós mesmos com o viral do tiozão caindo no rio?
MS
Traduzido por Marina Schnoor

Matéria originalmente publicada pela VICE Reino Unido.

Você já pulou tipo o Mario sobre três plataformas, deu a volta na esquina, aí precisou dar um pulão duplo cruzando dois arcos altos, com sucesso, mas acabou derrapando na areia e acidentalmente foi escorregando de bunda até o começo, soltando um “boooosta” baixinho?

Acontece.

Assisti várias vezes a esse vídeo de um cara escorregando vergonhosamente pra dentro do rio Tâmisa, em Londres. Você vai notar que há duas emoções em destaque, cada uma num extremo do mesmo espectro: alegria, diversão infantil, depois profunda humilhação. Essas emoções vêm numa sequência rápida. Eles começaram bem, esses tiozinhos — é um dia quente e eles pensaram em dar uma mergulhada no rio. Mas aí, algo que só pode ser descrito como “aquela vez que meu cavalo empacou na corrida e eu caí de um desfiladeiro em Red Dead Redemption” acontece, e um deles despenca por muito tempo pelas escadas — tum, tum, tum, tum, tum e acaba na água. Ele está só de calça jeans, sem camisa, de cara no Tâmisa, e parece que você consegue ouvir o barulhinho de tela azul do Windows por um momento, e ele levanta, molhado e humilhado, porém mais humilde.

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Você sabe que esse tipo de coisa divide a vida de um homem em duas partes. Aqui o vemos inocente, zoeiro, cheio de esperança:

Aqui, pós-glitch no Matrix, vermelho de vergonha, de pé, sem camisa, no Tâmisa.

Você consegue imaginar que o cara passou desse estado:

Pra esse:

Em só três segundos? A vida desse tiozinho acabou de mudar pra sempre. Ele nunca mais vai ser o homem que começou a descer essa escada.

Temos que interrogar a própria ideia de que o cara queria entrar no Tâmisa até que caiu direto no Tâmisa: em que ponto exatamente ele parou de querer entrar no Tâmisa, mas não conseguia mais sair da espiral o arrastando inevitavelmente para o rio? Ele queria entrar no Tâmisa até o Tâmisa vir até ele, ou: Ele queria entrar no rio por vontade própria.

Acho que essa é a grande tristeza do vídeo: o tio estava empolgado em entrar no Tâmisa. Ele estava curtindo um dia quente na margem do rio com o amigo. E aí um sapato dele escorregou e ele saiu rolando como o primeiro Tomb Raider, onde a Lara sempre caía por causa de um polígono invisível num degrau de um templo: tum, tum, tum, tum, e naquele momento ele parou de querer entrar no Tâmisa. A alegria evapora de dentro dele. Naquele momento – aquele momento infinito, onde escorrega e sai rolando — ele se torna o tiozão molhado de Schrödinger. Querendo e não querendo entrar no rio ao mesmo tempo.

Em que ponto a queda se torna demais? Tenho pensado muito nisso. Todo mundo cai — acontece, você escorrega e cai — e todo mundo, em algum momento da vida, já caiu de alguns degraus. É um negócio universal. Mas também acho que tem um tempo aceitável para escorregar pelos degraus depois que você cai, e aí parece que você está caindo tempo demais, que naquele ponto já devia ter se agarrado a alguma coisa e parado de cair, depois vem aquela vergonha tipo “você ainda está caindo?”, e você vê todos esses estágios aqui:

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“Eita, porra”

“Tudo bem aí?”

“… ainda caindo?”

“Sério, cara?”

Uma ideia sobre como esse vídeo foi feito: Esse vídeo nunca deveria ter sido feito. A conversa no começo do vídeo quase me fez pensar que a coisa era armada – “Aqui estamos nós, aqui está o Henry”, o cara começa dizendo, “Estamos no Tâmisa. E do nada, temos – espera, o que está acontecendo? Esses caras vão entrar…” [Um dos caras cai por uma quantidade infinita de tempo da escada; os caras riem de doer a barriga] – mas parece que esse mergulho no Tâmisa era parte de uma gincana de equipes pela cidade, e devia mesmo acontecer até o tiozão começar a cair enquanto a Terra ainda era jovem e só parar quando a Terra tinha envelhecido milhares de anos, desmoronado por baixo dele, e ele nem ganhou a tal gincana, gente.

O vídeo também cai num nicho que vem lentamente morrendo, o que eu chamo de “vídeo de tiozão”. Você sabe o que é um vídeo de tiozão? Existe todo uma economia em torno deles na TV. Um vídeo tiozão é algo que acontece todo dia desde que você mostrou pro seu pai como gravar vídeos no celular, e agora ele tem essa compulsão sem vergonha de gravar constantemente o mundano: Seu pai, parando de repente no meio da rua para fazer um panorama da avenida; seu pai, de um ângulo péssimo, andando sem fôlego por um estacionamento de supermercado, falando sobre o Brexit, um vídeo que ele acha que vai bombar nos grupos dele no Facebook, e que só tem 16 visualizações; seu pai, dando um zoom tremido até o capô de um carro numa tarde de domingo. Esse vídeo aqui pode não ter sido gravado por um tiozão, mas ainda é um vídeo de tiozão, o tipo de fluxo de consciência das coisas sem graça que os tiozões fazem, e fico grato por isso: Criticamos nossa sociedade por estar sempre com a cara enfiada no celular – umas duas vezes por ano você assiste um vídeo de um cara lendo um poema pra câmera: “Seu celular vai apodrecer seu cérebro / seja mais esperto” – mas pra mim, isso é muito bom. Se não tivéssemos tiozões constantemente gravando o mundano, teríamos perdido a mágica e a alegria desse momento. O mundo seria um lugar mais pobre. Cultura da vigilância? Ruim. Gravar um cara escorregando para [o que costumava ser] o rio mais poluído da Europa? Extremamente daora.

Todo mundo já passou pelo seu grande momento de vergonha na vida. Vendo o vídeo só posso supor que esse é o grande momento de vergonha desse tio. Só consigo pensar: Esse cara ainda deve estar vermelho, 24 horas depois de escorregar por centenas de milhares de anos de uma escada cheia de limo até o Tâmisa. Acho que ainda dá pra fritar um ovo na testa dele. Que ele ainda está sem camisa, sentado, triste, no sofá porque seu corpo está tão quente que ele tecnicamente não precisa usar nenhuma roupa. Você podia jogar esse cara numa banheira de água fria e só a presença dele já deixaria a água morna. Ele queria dar uma mergulhadinha rápida no Tâmisa com seu amigo; o que ele conseguiu foi uma vergonha e um arrependimento que vão durar o resto da vida.

Ah, é, depois que a internet descobriu a semiótica com o "This Is America" do Childish Gambino, preciso de uma conclusão cheia de simbolismo pra terminar esse texto sobre o nada. Olha: o Tâmisa está morto, os degraus somos todos nós, a queda inexorável do cara nas águas cinzas do rio é nossa jornada pela vida. Esse vídeo representa como começamos a vida cheios de esperança e somos esmagados em cada degrau do capitalismo, escorregando no cocô de passarinho das dívidas. E não somos nós, todos nós, o tiozão sem camisa escorregando nos degraus do Tâmisa?

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